Entrevista a Gisela João: “Se tiver de vestir a camisola por alguém visto-a”

É complicado entender o que existe de “novo” em Gisela João. A realidade é que o Fado desde Camané, não coincidentemente o seu padrinho musical, tem deixado de olhar exclusivamente para dentro e para as suas tradições. Com uma nova geração, tem conseguido escapar por entre os seus limites em busca de novos sons e sentimentos que nos são contemporâneos, sem que a alma daquilo que o define se perca.

No entanto, Gisela João tem algo diferente. Na forma rendida e arrebatada como canta. Na alegria extasiada do sorriso desarmado. Na dor das palavras que deixa ecoar na voz. Mas, principalmente, na maneira genuína como se vê a si própria e que se dissemina para todos aqueles que a vêem e ouvem. Num género que ainda se quer conservador, Gisela abraça todas as tradições do Fado enquanto pula pela janela e corre apressadamente rua acima de vestido curto e sapatilhas brilhantes. Sem pensar duas vezes na forma como o Mundo a vai acolher. E porque transpira verdade de todos os poros, o Mundo acolhe-a.

Durante o concerto de apresentação de Nua, segundo disco de originais lançado no final do ano passado, entendi a razão da minha afinidade imediata para com a Gisela. Não é só a acessibilidade natural, a simpatia instintiva, a doçura enternecedora. Não é só também aquela rouca voz magistral que nos agarra e nos prende para levar-nos onde ela bem entender. É Ela no seu todo. A Mulher. Perfeitamente ciente das suas diferenças. Mas que em lugar de as esconder, celebra-as. Usa-as como armas. E assim ganha, inesperadamente, a devoção de todos aqueles que se sentem um pouco aparte do que é tradicional ou normal, mais ou menos marginalizados.

Por isso, depois de arrebatados, entrámos em contacto com ela para a possibilidade de uma entrevista, em exclusivo e sobre estes pontos e tantos outros – nomeadamente a questão LGBT que levantou no mesmo concerto no Lux, e heis que ela aconteceu mesmo. Enviamos a nossas perguntas e ela respondeu-nos em voz com a honestidade de quem não tem nada a esconder ou evitar:

A postura da Gisela no Fado desde então a diferenciou dos outros fadistas e tem-se aproximado cada vez mais das camadas mais jovens que agora descobrem o fado. Alguma vez se sentiu menos bem recebida ou discriminada por não se identificar com um rótulo mais tradicional no Fado, tanto por parte do público como dos colegas?

Nunca me senti mal recebida em lado nenhum, acho que é importante sermos sempre positivos e estarmos focados no nosso trabalho, na nossa mensagem, naquilo que queremos passar. O público não podia receber-me de melhor forma. Todos os dias tenho mensagens e comentários incríveis e tudo isso dá-me mais vontade de trabalhar e fazer mais e mais e bem e sempre em bom.

Neste novo álbum, Nua, deixa a sua própria evolução pessoal e profissional ditar o seu percurso na Música, e não aquilo que as pessoas esperavam de si depois de um primeiro disco tão aclamado. Como foi lidar com essa pressão?

Foi difícil porque eu própria estava a criar expectativa em mim por causa do que ouvia, do que as pessoas perguntavam, o que não tinha maldade nenhuma, as pessoas esperavam alguma coisa de mim, a dado ponto até eu já esperava alguma coisa de mim. Mas foi interessante e muito importante também haver essa pressão, para me pôr à prova e deixar-me perceber o que queria mesmo fazer e o que era mesmo importante para mim. E foi muito claro que não fazia sentido sentir essa pressão. O importante era focar e fazer aquilo que gosto que é cantar. Da forma mais simples possível.

No concerto do Lux relatou uma comovente história ao apresentar “Labirinto Ou Não Foi Nada” de como se deu conta da falta de tolerância e discriminação para com a população LGBT. Como foi aperceber-se da dificuldade do quotidiano de pessoas que lhe são chegadas?

Não me apercebi só agora, toda a gente percebe, isto está aos olhos de toda a gente. Mas de facto houve quase um beliscar no meu braço que me fez perceber que as coisas são mesmo complicadas, são difíceis e deixa-me triste. Porque se para mim e para as pessoas que conheço que são heterossexuais já é complicado… há toda uma formatação de pensamento. De como se deve agir. De como se deve fazer. O que é que se deve fazer. Quando. A que horas. Com quem… Olhando para quem tem uma orientação (sexual) diferente ainda mais ideias pré-concebidas existem, ainda mais dedos apontados e olhares estranhos existem. Sou uma pessoa muito livre e não consigo lidar muito bem com essas coisas. A vida só se vive uma vez e é muito importante nós fazermos aquilo que queremos sem estarmos preocupados com quem nos aponta o dedo ou nos olha de lado. Mas a verdade é que vivemos numa sociedade em que isso se reflecte a todos os níveis. Isso é muito chato e acima de tudo triste.

O que acha da importância de figuras públicas em Portugal assumirem a sua orientação sexual e identidade de género? Ou mesmo por parte de aliados como a Gisela que ajudam a manter a luta na linha da frente? Portugal parece muito atrasado em relação a esta visibilidade essencial das pessoas LGBT comparativamente a outros países Europeus ou Estados Unidos.

Sinceramente, não acho que Portugal esteja assim tão atrás. Quanto mais viajo mais percebo que há coisas que nós nos queixamos porque não estão bem – e não estão bem, de facto – mas não estão tão mal como já tiveram ou como poderiam estar. Ou como continuam a estar demasiadamente mal em certos países! Agora, acho muito importante falar-se deste assunto, trazer-se este assunto acima da mesa, de uma forma leve. Para mim não me importa a orientação sexual de ninguém (mas) é muito importante abordar-se este assunto desta forma (natural) e não abordando como se fosse uma coisa diferente ou estranha. Não é diferente, existem gays e lésbicas desde sempre. Sempre foi um tabu (imposto) pela religião. Estas coisas que nos castram. Nascemos e já temos estas ideias preconcebidas. É muito importante as pessoas falarem abertamente. Claro que figuras públicas dão um outro peso, porque mostram às pessoas que estão em casa, desconhecidas e com vidas pacatas, que sentem como eles. Que é normal. Que não têm que ter vergonha. Que não têm que se esconder. É muito importante passar essa liberdade e fazer com que as pessoas se sintam à vontade para a partilhar e serem aquilo que elas querem ser.

A Gisela decerto já se apercebeu que a comunidade LGBT parece ver em si um símbolo de irreverência, emoção e de verdade identitária. Como é ser já um ícone de culto para esta comunidade tão necessitada de exemplos a seguir?

Caramba, agora fiquei um bocado emocionada… isto é alto elogio mesmo, obrigada! Mas não sei se sou um ícone, nunca senti isso. Se tiver que vestir a camisola por alguém, eu visto-a. Não falo de nada em que não acredite e eu acredito acima de tudo na liberdade. Sinto que me repito um bocado, mas para mim o princípio da nossa vida é isso mesmo. A liberdade. A consciência. O respeito. É isso que eu defendo acima de tudo. Se calhar há pessoas que se reconhecem naquilo que eu defendo e naquilo que eu tento passar, mas acima de tudo é essa a liberdade que eu defendo, essa existência individual de cada um que deve ser respeitada. Nós somos seres pensantes. Individuais. Pela nossa cabeça, pelas nossas emoções. Isso é a coisa mais valiosa que nós temos. Por isso tenho muito orgulho e muito prazer em perceber que há pessoas que sentem isso, que sou um símbolo ou um ícone para elas, deixa-me muito orgulhosa. Faz-me acreditar que aquilo que faço todos os dias e aquilo que trabalho por conseguir… vale a pena.

Beijinhos, espero que esteja tudo bem, um beijinho! Está quieto Feijão (o gato fotogénico), deixa-me desligar isto!” despediu-se ela, enquanto tentava desligar o telefone para parar a gravação. Não nos despedimos de volta mas deixamos novamente os nossos agradecimentos. Não só pela entrevista sincera e “nua” mas ainda mais por ser uma das poucas artistas no nosso país que não tem receio de expôr aquilo que é e por aquilo que vive. Sem se perder no labirinto do medo e do conservadorismo que ainda impera pelas mesmas ruas em que se ouve Fado. Numa altura em que aqui, em Portugal, estamos mais carentes que nunca de exemplos de força e assunção da própria identidade podemos ter uma certeza: Gisela João nunca será mais nada senão ela mesma. Totalmente. Obrigado.

2.2. Gisela João_Nua@Estelle Valente

Gisela João vai apresentar “Nua” nos Coliseu do Porto e de Lisboa nos dias 31 de Março e 7 de Abril, respetivamente.

Anúncios