Perdoem-me, defensores do politicamente incorrecto

Na era tecnológica em que vivemos, as redes sociais vieram dar voz a todos os que se queiram fazer ouvir. Afloraram assim à discussão pública muitos temas que, por desinteresse de uma elite privilegiada, historicamente haviam sido renegados para os grupos ou minorias que lhes diziam respeito. Atentemos especificamente às questões de género, orientação sexual ou identidade de género, sobre as quais têm vindo a ser feitas inúmeras intervenções pouco consensuais, desde piadas cibernéticas a declarações públicas, que suscitam a crítica e são alvo de acusações de sexismo, homofobia ou transfobia. Não raras vezes, é a orgulhosa bandeira do “politicamente incorrecto” hasteada em defesa destes conteúdos. A minha reação primária é, confesso, de repúdio e vontade quase imediata de os silenciar, mas acabo sendo confrontado com uma questão, frequentemente levantada pelos defensores desse “politicamente incorrecto”, que se me afigura bastante válida – até que ponto esta atitude é saudável numa sociedade onde deveríamos todos gozar de liberdade de expressão?
Esta liberdade é necessária ao pluralismo. Até aqui, creio, estamos todos de acordo. Deverá abrir portas ao diálogo e a uma discussão que se espera honesta e esclarecedora. E um dos grandes argumentos levantados contra o “politicamente correcto” é exatamente o de estar a matar essa tal liberdade. Mas será realmente assim? E deverá tudo ser permitido ao abrigo desta mesma liberdade?

Comecemos pelas coisas pequenas, as aparentemente inócuas e que se perpetuam no dia-a-dia. A título exemplificativo, de uma longa e triste lista, temos as tentativas de anúncios humorísticos sobre a condução feminina durante o dia internacional da mulher; ou uma anedota (“humor negro” português, explicava ele; daí não ter estado ao alcance de todos) aludindo aos gays e à transmissão do VIH durante o massacre de orlando. Não vou referir nomes, nem partilhar ligações, pois creio que fazê-lo é publicitar quem não merece referência. Em todos estes casos, quando quem se sentiu ofendido protestou, lá se vieram eles queixar da brigada do “politicamente correcto”, que agora quer controlar o que se diz e que palavras se podem usar.
Talvez possa teoricamente ser dada à comédia algum crédito por trazer à discussão elementos mais delicados, e expor, através do riso e do ridículo, situações de sexismo, homofobia e transfobia. No entanto, é necessário que estejamos a lidar com comédia a sério. Na maioria dos casos o que nos servem são piadolas fracas, imiscuídas de lugares-comuns, que apenas perpetuam desinformação. E antes que me acusem de exagero, é crucial reforçar o quão sensíveis estas temáticas de género, orientação sexual e identidade de género são. Não só pela sua estruturalidade, pela relevância que adquirem para a identidade individual, mas sobretudo porque há uma incapacitante escassez de referências positivas, conscientes e honestamente informadas, quando estes assuntos são trazidos para um ambiente mainstream. Assistia no outro dia a um episódio de Shameless, o remake americano, uma série sobre uma família de um bairro pobre de Chicago, com personagens femininas, gays e trans, e que é tão transversalmente desavergonhada, com todos os ingredientes de politicamente incorrecto, que teria tudo para ser ofensiva. No entanto, não o é. Podemos rir-nos pois é dado contexto e espaço a todas as personagens para serem humanizadas e não reduzidas a estereótipos. O problema não é fazer-se uma piada sobre um tema sensível. O problema é brincar-se com os preconceitos dirigidos contra grupos vulneráveis, sem que lhes sejam dadas visibilidade e oportunidade para lutar contra esses mesmos preconceitos.
Por muito que quem se diz politicamente incorrecto não se reveja em princípios preconceituosos, há uma história que os precede, e que é uma inegável e repetitiva história de perseguição, discriminação e desigualdade. É urgente que se entenda que, para alguém que toda a vida foi saco de pancada, mais uma “simples piada ou comentário” descontextualizados são tudo menos isso. É colocar o dedo na ferida, mas para a impedir de sarar. Não se trata de ser condescendente e achar que estas pessoas são fracas. É ter consciência de que a história e a sociedade se encarregaram de as ostracizar. Crescer, ou simplesmente existir, num ambiente que nos faz sentir constantemente deslocados é pernicioso. Esta alienação cria um latente sentimento de alerta e de necessidade de justificação de algo tão básico como a própria identidade. E sim, existirão pessoas, muitas, que vão sofrer; pessoas a quem nunca foi dado apoio para se sentirem legitimadas.

Temos, no extremo oposto do espectro do “politicamente incorrecto”, algo que nem sequer merece essa adjectivação. Falo de comentários e atos obviamente ofensivos e perigosos, desde membros do Parlamento Europeu a acusarem as mulheres de serem inferiores aos homens, a líderes de países ditos civilizados a reverterem leis de acesso às casas de banho, que serviriam para proteger a comunidade trans. Se situações “menores”, como a piadola ou o piropo, pela subtileza e aparente inocuidade, se afiguram pouco relevantes para terceiros, estas outras situações, pela sua visível cretinice, reunem maior consenso e são exemplos perfeitos da razão pela qual o “politicamente correcto”, que a meu ver se deveria chamar “sensatez” ou “uma forma informada e empática de abordar certos assuntos sensíveis”, tem de existir. Estas são situações de facto problemáticas, pois a sua visibilidade é extremamente maior. Mais do que isso, quando a figuras de poder é dado espaço para ingressarem neste tipo de discurso misógino, homofóbico ou transfóbico, e, mais importante de tudo, falso, estamos a legitimar tudo isto. Estas palavras são catalisadoras de preconceitos e dão segurança a pessoas desinformadas para continuarem a ostracizar outras. E isto sim, é muito retorcido. Ao permitirmos que tudo seja dito, mesmo o que é obviamente errado e nefasto, estamos a defender direitos de expressão enraizada de preconceito, em vez de nos preocuparmos com quem realmente sofre. Não nos esqueçamos de que as liberdades, quando se ganham, requerem algo fundamental – responsabilidade. Responsabilidade por aquilo que dizemos. Esta é crescente, mas transversal, e é a mesma responsabilidade que deverá ditar o quão longe a liberdade de expressão poderá ir. As palavras, assim como as vidas, importam. Mais, as palavras criam ideias, e as ideias moldam sentimentos que potenciam acções. É importante que não falemos de forma genérica, que tenhamos consciência de que nos referimos a vidas humanas, e que este espírito de impunidade ajuda, mesmo que indirectamente, os ataques verbais e físicos que mulheres e pessoas LGBTQI sofrem, e que muitas vezes levam à sua morte, incluindo pelas próprias mãos…

Não deixa de ser irónico que, frequentemente, quem se sente criticado, venha a público vangloriar-se de estar numa espécie de vendeta contra o status e o “politicamente correcto”, como se de algum modo as suas opiniões fossem tingidas de um progressismo para o qual a sociedade atual não esteja ainda preparada para aceitar. Muito pelo contrário. Fala-se do “politicamente correcto” num tom descrente, como se fosse uma ferramenta caricata, desprovida de sentido razoável. O que é desconcertante nos auto-proclamados “politicamente incorrectos” é que este incómodo pela crítica revela o quão pouco interessados em diálogos construtivos eles estão. Pergunto-me se o desconforto com o “politicamente correcto” não advém da incapacidade dos seus opositores conseguirem manter o seu discurso irreflectido e unidireccional? Sejamos coerentes – quem defende e se orgulha de poder dizer tudo o que quer, não pode invocar a ataques à liberdade de expressão, para recriminar os outros por tecerem críticas e por exercerem a sua própria liberdade. Há-de haver coragem para assumir a tal responsabilidade pelo que se diz. Espero, por isso, que, quem se sinta incomodado com comentários ou piadas, continue a protestar e a fazer-se ouvir. Espero também que, quem se sinta julgado, use esse sentimento para reflectir e sair da sua zona de conforto, questionando-se por que que é que as suas palavras ofenderam tanto alguém. Queixam-se de que agora todos se ofendem com algo. Na verdade, não é de agora; ofensas sempre as houve. Simplesmente, agora temos ferramentas que dão voz a quem antes não a tinha e pessoas que fazem questão de se fazer ouvir e que dizem que nada disto é aceitável (será isto a chamada “liberdade de expressão”?).
Por vezes, a brigada do “politicamente correcto” evolui para algo mais do que críticas. Algo que será rapidamente apelidado de “censura” – foi “censura” que apagou comentários do Facebook ou que baniu contas do Twitter; foi também censura o que fizeram a esse membro do Parlamento Europeu. É óbvio que censura é algo historicamente abominável e que a sua simples menção nos faz repensar todo este argumento. Temo, porém, que o uso tacticamente bastante inteligente desta palavra, nos esteja a desviar da questão central. Os espaços em que esta dita censura tem ocorrido regem-se por códigos e regras, aos quais a liberdade de expressão tem de obedecer. Não é aceitável um discurso misógino ser proferido numa instituição europeia, quando a própria União Europeia se rege por princípios progressistas e igualitários. Pelos seus motivos, esta censura está longe, muito longe, de poder sequer ser comparada à que era feita com lápis azuis.

Por fim, o que mais me entristece é que não deveria ser pedir muito a todos para terem alguma empatia, para tentarem antecipar o quão poderosas podem ser as suas palavras. É muito fácil estar-se alheado dos seus efeitos e ser-se “politicamente incorrecto”, quando se é homem, ou branco, ou hetero, ou cisgénero. Acredito que para muita gente todo este discurso seja estapafúrdio, porque provavelmente essas pessoas nunca se viram confrontadas com essa realidade (já agora, a isso chama-se “privilégio”). Há também quem diga que é preferível ignorar, que responder, punir ou censurar os autores destes comentários apenas serve para lhes dar mais voz, ou até ajudar a criar mártires. Novamente, compreendo e posso em parte concordar… Mas questiono-me também sobre o que temos nós feito durante tanto tempo senão ignorar? O que deveria ser incómodo não era a insurreição do “politicamente correcto”, mas sim termos permitido que, durante tanto tempo, fossem proferidos ataques verbais a mulheres e pessoas LGBTQI com tanta impunidade. Foi o deixa-passar que legitimou o piropo sexista, ou o “paneleiro” ou “traveca” do outro lado do passeio.

O “politicamente correcto”, esse mal castrador, pode ter muitas falhas. Há, como em tudo, uma zona cinzenta, ditada pelo contexto e, idealmente, pela consciência individual, que nos deverá dizer até onde podemos ir de ambas as partes. Por isso, perdoem-me, heróis politicamente incorrectos, se se sentem criticados ou censurados. De qualquer modo, eu, fascista esquerdalho, continuo a acreditar que o lado certo da história passa por tentar criar um ambiente seguro, onde alguém não sinta constantemente julgado por ser quem é, e onde estejamos todos em pé de igualdade, para nos expressarmos, defendermos as nossas ideias e até fazermos piadas uns com os outros.

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