Sexo – direito ou dever?

Sexo. Quase omnipresente nas nossas vidas, é algo que nos move de uma forma inata. Mesmo quem não sofre da sua influência reconhece, certamente, que o sexo move indústrias bilionárias, determina o início e o fim de muitas relações e está intimamente ligado a muitas revoluções culturais, nomeadamente na reivindicação dos direitos das mulheres e de pessoas LGBT. O sexo não é um segredo escuro, suado e malcheiroso. O sexo é poder.

 

Nesse sentido, como devemos olhar para relações sexuais numa relação entre duas (ou mais, quem sabe) pessoas? Num dos atos de maior cumplicidade e fragilidade entre seres humanos, é assim tão fácil separar o direito ao sexo do dever de o fazer?

 

Esta foi uma temática em que nunca me debrucei, até muito recentemente. A questão do consentimento sexual só se tornou relevante quando vislumbrei a possibilidade de uma ameaça. Ao namorar com homens, estava numa posição de fragilidade que desconhecia por completo; em que a hipótese de violência doméstica e de violação poderia ser real. Claro está que uma mulher pode abusar de um homem, sexualmente e não só. Apesar disso, é extremamente curioso que eu nunca tenha sequer pensado nisso em relações heterossexuais. Eu, homem, era “obviamente” mais forte do que as mulheres com que eu estava. A possibilidade de ser uma vitima não era rara; era inexistente.

 

Numa relação gay, tudo isso mudou. Ganhei uma perspetiva completamente diferente de papéis de género e de dinâmicas de poder. O masculino e o feminino misturavam-se e anulavam-se, resultando numa enorme complexidade de pedidos de permissão e de cedência até então, para mim, desconhecidos.

 

Muito além da postura habitual do macho latino, passivo-agressiva com uma paciência sôfrega, compreendi o que muitas mulheres sofrem. Ouvir frases como “Já passou algum tempo”, “Eu também estou cansado”, “Faz-me o favor…” e “Vá, só hoje…” irritavam-me e culpabilizavam-me em igual medida. O sexo deixou de ser um simples direito, transformando-se também num dever. Em contrapeso à autodeterminação que se ganha, perde-se uma certa capacidade fiscalizadora na dinâmica sexual.

 

Entre dois seres humanos, quem define quanto sexo é suficiente? Quem define que o tempo que passou é “demasiado”? Onde acaba o “favor” e começa a violação? No contexto da panóplia sexual e relacional em que vivemos, como devemos definir consentimento?

 

Todas estas questões se complicam ainda mais quando pessoas com diferentes parafilias (ou fetiches) se relacionam. Como chegar a consentimento em assuntos completamente dicotómicos?

 

Há uma cultura geral que fomenta que os homens sejam “os caçadores” e as mulheres “as presas” e que transmite ao homem o poder (e obrigação) de pedir/implorar/convencer/aldrabar/vergar as mulheres para uma relação sexual. O homem oferece, a mulher aceita e o homem “toma conta”.

 

Tudo isto cria um clima misógino aterrador, em que a mulher “deve” algo ao homem. As mulheres passam a ser vistas como insensíveis, pavoneando-se em trajes menores para provocar os homens. Os homens são controlados pelos seus impulsos sexuais, sendo completamente incapazes de negar consentimento. As mulheres odeiam os homens rebarbados e porcos e os homens odeiam as mulheres “com a mania” e inatingíveis. Li algures a explicação de alguém para os homens gostarem tanto de pornografia lésbica: “serve como prova de que as mulheres têm prazer no sexo, independentemente dos homens; de que são seres sexuais autónomos” (parafraseada). Não é triste que faça sentido?

 

Perante a impossibilidade de um consentimento, há quem cometa mesmo o ato desprezível de violar o consentimento d@ outr@. Têm sido expostos cada vez mais casos de violação sistemática de mulheres que foram tolerados pelas autoridades e pelos cidadãos. Finalmente reconhece-se também a prevalência da violação entre casais. Como combater esta pandemia? Como mudamos esta mentalidade retrógrada?

 

Sugiro que, neste mês de Março de todas as mulheres, reflitamos sobre a definição de consentimento e nos fatores que podem levar alguém a violá-lo. Para isso, deixo a sugestão de uma TED Talk brilhante que integra o testemunho de uma mulher violada e do homem que a violou.

 

Falta muito em matéria de igualdade de género. Falta perceber que a misoginia não é compatível com uma sociedade moderna e livre. Falta compreender que todos os homens são também vítimas num mundo misógino. Falta uma luta única por tod@s para tod@s.

 

Fonte: WE ARE ALL HUMAN, por Xavier Sotomayor (imagem)

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