Margarida Cordo: “A homofobia não é a única coisa que me preocupa” (de todo)

Margarida Cordo, Psicóloga Clínica e da Saúde, Terapeuta Familiar e Psicoterapeuta, foi convidada ontem na SIC Notícias para comentar o caso da manifestação contra o preconceito e a homofobia na escola secundária de Vagos. Seria de esperar que, no mínimo, comentasse o peso que tem a discriminação e a homofobia que as duas raparigas sofreram por parte da direção da escola e que o apoio mostrado por colegas nessa injustiça foi positivo. Acontece que a Margarida Cordo proferiu em 2007 que “a homossexualidade é um transtorno da identidade sexual, uma doença e tem recuperação.” E como tal, para além de me questionar a razão do convite da SIC para comentar este caso, não é de estranhar que, embora com discurso suavizado, esta psicóloga tenha sido incapaz de se focar no pilar deste caso: a lição que alunos deram contra o preconceito e a homofobia. E em que se focou ela então?

Bem, há uma resposta simples. Focou-se na adequação. Numa tentativa de escape às perguntas de jornalistas, a Margarida andou às voltas no termo da adequação dos comportamentos. Quando perguntada se acredita que possa ter havido comportamento homofóbico por parte da escola, ela responde:

Um estabelecimento de ensino é um lugar onde se constroem pessoas na sua integralidade em complementaridade com os outros sistemas que as pessoas e os alunos integram. É óbvio que crescemos a aprender a nossa adequação comportamental aos contextos a que estamos inseridos. E, portanto, a escola não é um lugar onde as pessoas devam ter determinado tipo de conduta. Há regras básicas de comportamento social adequado.

Pois, mas então que limites devem ser esses?

Mais do que haver uma proibição, devem haver regras, mas também deve haver o disseminar pelas pessoas e pela cultura escolar aqueles que são os comportamentos adequados e adequados às regras que socialmente são esperadas, explícitas e adequadas para que o funcionamento de todos não choque ninguém, não magoe ninguém, não fira ninguém e seja integrado numa conduta global bem aceite por todos.

Mas estamos a comentar o caso daquela escola que, ao ver duas raparigas serem repreendidas pela direção por darem um beijo, viu estudantes unirem-se numa manifestação em defesa dos princípios da liberdade e da igualdade? Ou ser-lhe-á inadequado falar nisso?

Acho que muitas vezes, especialmente quando vejo estas manifestações excessivas, porque, de facto, nós somos fazedores de paz se quisermos, não temos que ser fazedores de guerra, nem de sistemáticas contra-atitudes relativamente aos maus aos comportamentos que vão emergindo que nos possam parecer desadequados. Na minha opinião, a manifestação foi excessiva porque foi violenta, ou seja, foi dura. O que é que estão a combater? Estão a combater uma proibição ou chamada de atenção com uma tremenda agressividade na expressão desse combate. Mas isto foi o que eu vi, não sei se houve outro tipo de manifestações adequadas.

Mas a Margarida está a falar de quê? Qual violência? Quais manifestações excessivas? Cartazes onde se lê “Love Knows No Gender” é um excesso? Gritar, em uníssono, “Homofobia Não!” é ser-se fazedor de guerra? E juro que ela enrolou a língua aos maus comportamentos e deixou o adjectivo cair pelo caminho. É que já estamos em 2017, não é verdade? Não será tão fácil acusar as raparigas de serem umas doentes e ninguém dar conta, não é?

O jornalista e a jornalista que conduziram o espaço de opinião tinham igualmente a obrigação de tentar esclarecer as razões que levaram aquela pessoa a evitar ao máximo tocar nos tópicos que a levaram a ser convidada. Mas, de uma forma claramente pouco produtiva, ainda tentaram, reconheço: “É ou não positivo que adolescentes queiram, publicamente e com força, defender princípios como o combate à homofobia?” Pronto, pensei eu enquanto revia o vídeo, agora já não há escape possível. Ou será que há?

As pessoas devem defender os princípios com os quais estão de acordo. Agora, a defesa dos princípios tem vários locais onde tem livre expressão que não é nem combativa, nem agressiva, nem de sistemático confronto. Portanto, estamos num país livre e cada um tem direito à sua opinião. Costumo dizer, para muitas matérias, que as pessoas têm razão no conteúdo e perdem na forma.

Mas… mas… não está a ser óbvio que existe novamente um claro distanciamento ao tópico em análise e nenhuma das pessoas que conduzem o espaço lhe perguntam a razão destas continuadas cambalhotas argumentativas?! “Com base na sua experiência”, ui!, “acredita que as escolas portuguesas estão preparadas a ajudar a educar e a contribuir para o crescimento de adolescentes em prol do combate à homofobia?” Vá lá, a Margarida consegue, tem a papinha toda feita na forma como lhe foi colocada esta última pergunta, é só fechar os olhos e seguir o caminho:

Eu diria que a homofobia não é a única coisa que me preocupa.

Que raio, Margarida?! Mas a Margarida, como “Psicóloga Clínica e da Saúde, Terapeuta Familiar e Psicoterapeuta” preocupa-se sequer com a homofobia? É que passados estes minutos todos a ouvi-la não parece que a preocupe sequer um bocadinho!

Porque há de facto uma série de outras áreas em que as escolas, francamente, não estão completamente preparadas para isso. Ou seja, a minha resposta seria: “nem sempre, nem nunca”, porque muitas vezes vemos queixas absolutamente legítimas, quer de auxiliares da escola, quer de elementos do corpo docente que se queixam que não têm tempo, que têm imensas coisas que fazer e que não conseguem dar mais do que aquilo que dão.

Mas estamos aqui a falar da sobrecarga do pessoal dos quadros das escolas? Mas foi isso que a trouxe aqui, Margarida? Não há assuntos que possam ser discutidos em simultâneo? Só podemos falar daquilo que achamos que é essencial para nós silenciando o resto? É que já ficou claro que a homofobia sofrida por jovens para si é um fait divers, não é verdade? Por que se deu ao trabalho de aceitar o convite para falar sobre algo que para si não tem importância alguma? E que, conhecendo o seu historial, até despreza?

Parece-me muito interessante que de facto se perceba quais são os aspectos fundamentais a combater. E que seja esse um combate pedagógico e não confrontativo. Um combate pedagógico informativo, consistente e que faça os jovens acreditar que há ali alguém para os ajudar, que há ali alguém para não os penalizar de uma forma ostensiva e pesada e que, de alguma forma, no futuro os possa estigmatizar.

É isso mesmo, Margarida, no final redimiu-se, quer ver? Mas pronto, para a próxima ganhe um pouco mais de coragem para falar abertamente sobre homossexualidade, homofobia, para que, realmente, não penalize e estigmatize qualquer jovem que a oiça.  Porque a contenção forçada que fez no seu discurso, por mais disfarces que possa ter aprendido nos últimos anos, apenas mostram o seu continuado preconceito sobre a homossexualidade. E isso é hoje tão desadequado. Depois da lição dada por jovens da escola de Vagos diria, até, absolutamente desadequado.

Fonte: Imagem.

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