Vamos falar de privilégio?

Sou um homem cis branco europeu e fruto de uma família de classe média. Tive o privilégio de poder ambicionar a uma formação superior sem preocupações graves de índole económica e de não ter sentido que o meu estatuto socioeconómico, etnia ou expressão de género fossem impeditivos de um futuro num mercado de trabalho competitivo e global.

 

Apesar disso, sou também um homem pan/bissexual numa relação exclusiva com um homem, atualmente imigrante num país europeu, vegetariano e agnóstico. Tenho, portanto, as minhas próprias “minorias”.

 

Pergunto: sou privilegiado? Eu acredito que sim e não. Como grande parte da população.

 

Acredito também que a questão não deveria ser em que posição da escala do privilégio é que uma pessoa se encontra ou na constante obsessão pela definição de “uma” maioria opressiva. Há milhares de maiorias de acordo com a definição do limite entre dois ou mais grupos. Rendimento global, etnia (detesto a palavra raça), identidade e expressão de género, religião, orientação sexual, nacionalidade, orientação política, interesses pessoais, etc.

No conjunto de tantos factores, como poderia haver uma só maioria? A maioria de nós não é nada mais do que uma intersecção de diversas minorias?

 

Na luta da definição “da” maioria; na incessante busca pela pontuação máxima “do” privilégio; nas inúmeras lutas políticas internas desesperadas e sem nexo na definição “do” empoderamento mais urgente, mais importante e mais digno, não perdemos um pouco a noção das nossas próprias maiorias e minorias?

Não ganharíamos mais em reflectir um pouco no nosso próprio privilégio antes de apenas apontarmos dedos?

 

Sinceramente, cansa-me a forma como grupos políticos com o mesmo objectivo de uma sociedade mais liberal e humana se atropelam, desprezando por completo preocupações que não são suas.

Fui chamado à atenção para um artigo num site feminista que propunha a metafórica e provocante ideia (espero eu) de suspender os votos de homens brancos, de forma a avançar os direitos de pessoas não-brancas e de mulheres. Esperam algo diferente de um movimento tipo #alllivesmatter (que não apoio, para que conste) como contra-resposta? Qual é a intenção de atacar um conjunto da população tão distinto como pessoas não-brancas ou mulheres? Em média, é verdade, o controlo político e social de Portugal está entregue a homens brancos, efectivamente, porém, uma minoria. Mas assumir que os homens brancos são apenas privilegiados é preguiçoso, falso e discriminatório. E apenas aumenta a divisão entre aliados (como eu, efectivamente um homem branco) e outras pessoas que caminham para o mesmo caminho.

 

Penso que, em vez de generalizações que pecam constantemente pelo excesso, deveríamos focar-nos em prioridades essenciais, tentando não desvalorizar ou invalidar preocupações de outr@s.

 

Por exemplo, todos sabemos que o mercado imobiliário em Portugal, especialmente em Lisboa, está cada vez mais voltado para o investimento estrangeiro e turismo em vez de alugueres de média/longa-duração para residentes efectivos. Também sabemos que há vários residentes (imigrantes e idosos essencialmente) a residir em bairros marginalizados e/ou casas decrépitas, na mesma cidade.

Qual a melhor forma de atuação?:

  1. Definir claramente que as duas preocupações são relevantes, mas que garantir as mínimas condições de higiene e segurança para qualquer residente em Portugal têm maior prioridade ou
  2. Colocar os dois grupos da população em choque frontal, que se desvalorizam mutuamente porque cada situação “podia ser pior”.

 

Sabem que mais? Podia ser sempre pior.

Uma mulher violada poderia ser condenada à morte noutro local do mundo. Os bairros marginalizados podiam não ter água canalizada e/ou electricidade. As pessoas LGBT podiam ser presas ou executadas por serem quem são e amarem quem amam. Um homem branco que se suicida (as taxas de suicídio em homens são 3,8 vezes superiores em relação a mulheres) podia ter muito mais razões para o fazer.

 

Essas comparações ajudam alguém? A desvalorização constante dos problemas d@s outr@s melhora alguma coisa? Há algum limite máximo e limitado para a empatia e respeito comum?

 

A denúncia de um privilégio deve, sim começar pela identificação das nossas próprias “maiorias”. É fácil gritar “privilégio” num site feminista de um país europeu atrás de um MacBook, mas não é terrivelmente irónico? Insight, procura-se.

 

Fonte: Womans March, por Roya Ann Miller (imagem)

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