O ativismo pré-apocalítipico de Elza Soares: negra, mulher, LGBT

Quando o pano sobe num Coliseu dos Recreios a meio gás, ouvem-se as palavras “É um navio humano, quente, negreiro, (guerreiro) do mangue” no final de um prólogo acapella que marcam o início de uma viagem pelos confins da natureza humana. O cenário está montado desde início: um trono negro embelezado com sacos do lixo e no centro a portadora da voz suja e penetrante que ecoa antes de se ouvirem os instrumentos que a ela se juntam. Um vestido escuro cujas redes se espalham como teias pela escadaria do palco e uns lábios ainda mais negros que os olhos que cortam impiedosamente o público como punhais. Naqueles momentos iniciais não restavam mais dúvidas do porquê daquela mulher ser um dos maiores ícones gay do Brasil.

Vou confessar que até há uns meses só conhecia Elza Soares pelo nome que por vezes surgia em alguns artigos musicais de música brasileira. Na altura que a cantora fez ondas com um badalado concerto no Vodafone Mexefest prestei-me a ouvir o primeiro disco de originais que lançava desde 1975 (!): o arrojado e revolucionário “A Mulher do Fim do Mundo”. E Elza Soares, com uma carreira cheia de polémicas e altos e baixos, encontrou um ressurgimento numa altura em que já se aproximava (ou passava, ninguém sabe bem) dos 80 anos de idade.

O samba pelo qual sempre foi reconhecida tornou-se mais sujo e mais próximo da crueldade das pedras aguçadas e do lixo solto das ruas da favela onde cresceu. Revestida por elementos de funk industrial e futurista a cargo de Guilherme Kastrup, a sua música sofreu uma metamorfose para se ajustar a estes tempos pré-apocalípticos que o Brasil e o resto do mundo vivem. Elza Soares surge como o derradeiro oráculo de verdade das ruas, sem receio de ser demasiado inconveniente, politicamente incorrecta ou de deixar a sua idade impedi-la de fazer o que bem lhe apetece.

E o que lhe apetece fazer, neste momento da sua vida, é ser uma das mais impressionantes cantoras de intervenção do panorama musical a uma escala planetária. Apesar de sentada durante todo o concerto, a sua atitude é mais vincadamente subversiva e punk rock do que qualquer artista que ouse abrir a boca em prol da igualdade. A cantora disse há pouco tempo numa entrevistaO negro, o gay e a mulher são minhas bandeiras”. E todo o espetáculo, magnificamente encenado e tocado, é a isso dedicado, à dura – crua, muito crua – exposição das desigualdades sociais.

Quando diz, repetidamente para ferir as susceptibilidades que necessitam de ser totalmente rasgadas, “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, esses gritos são disparados do palco como balas direccionadas. Sem pudor nem meias palavras. A música enquanto arte parece que tem decidido há algum tempo deixar de incomodar por medo de segregação ou de infringir as leis do politicamente correcto. Felizmente Elza Soares não recebeu essa directiva. Ou recebeu-a e, de seguida, rasgou-a. Grita também pelo final do ciclo da violência contras as mulheres em “Maria da Vila Matilde”, enquanto obriga o público a repetir o número da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima. Grita também pela comunidade trans em “Benedita“, recordando-nos que o Brasil continua a ser o país em que mais mulheres trans são vítimas de crimes e assassinadas diariamente.

Seguidamente, e num dos momentos mais deliciosos do concerto, afaga maternalmente a cabeça de Rubi, cantor e bailarino deliberadamente queer que a acompanha, e conforta-lhe a dor que deixou escapar durante a atuação. Este gesto fica gravado na memória e é simbólico da luta de Elza Soares pelas vítimas da opressão política e social. E neste processo de construção transforma-se ela própria no símbolo da rebelião que conjura. “Eu quero é cantar até ao fim, me deixem cantar até ao fim”. Não sobram dúvidas de que ainda com tanto para dizem esta ativista octagenária vai mesmo fazê-lo. E saiam do seu caminho.

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