Francisco Alvim contra Ronaldo: “Só conheço um modelo de família: o natural”

Francisco Alvim, advogado e membro da Tendência Esperança em Movimento do CDS – um movimento que pretende recuperar os valores da democracia cristã – tem um problema com a família de Cristiano Ronaldo. É que, apesar de todo o seu amor declarado ao futebol – e em particular ao Sporting -, o colunista considera que “comprar filhos por encomenda, privando-os de terem mãe, é algo bem mais preocupante“, porque “o nosso “mais que tudo” não tem a mínima noção do que significa ser família.” Então o que é para o Francisco ser uma família?

Tipicamente, a expressão família refere-se a um conjunto de pessoas com um grau de parentesco entre si e que habita na mesma casa“, explica e direi que é uma definição bastante razoável. Então qual é o problema mesmo?

No que respeita ao modelo de família, só conheço um: o natural. Ou seja, aquele que resulta da união entre homem e mulher geradora de filhos.

Ah, estivemos tão perto! Não vale a pena o Francisco explicar depois que “isto não significa que os casais que não podem ter filhos deixem de ser uma família“, dado que “nenhum desses circunstancialismos é auto-imposto“. Porque se torna claro onde quer chegar quando escreve que “o resto serão reproduções mais ou menos incompletas da mesma.” E avisa ainda: “Quem se lixa, convençam-se, é a criança.” Claro que o argumento do superior interesse da criança tinha que aí vir, não fosse ele um dos preferidos de quem vê a sua visão como a melhor para as crianças. Geralmente de outrem, claro.

O instituto da adopção foi pensado para conferir às crianças privadas dos seus pais a possibilidade de experimentarem um modelo o mais aproximado possível da realidade que teriam caso aquela privação não tivesse ocorrido – e isso só é possível com um pai e uma mãe adotivos.” Primeiro, a realidade é que as crianças para adoção não conhecerão sequer uma família biológica que as deseje e cuide. É por isso que a família – ou pessoa singular – que se candidate a adotar uma criança não é possível apenas com um pai e uma mãe, porque o ponto fulcral da ligação emocional da criança à nova família são os laços criados ao longo de vários meses entre os vários elementos. E, já agora, quem o diz é a Segurança Social, não um mero comentarista.

Mas o Francisco não desiste e acusa quem defende que se Ronaldo “quer ser pai, pode e deve sê-lo“, rematando com: “Pois pode, ninguém diz que não, mas então que arranje uma mulher que queira ser mãe dos filhos dele.” *suspiro* Já nem falo de toda esta retórica se basear em rumores e fofoquices que, lamento, pouco me interessam. A verdade é que Ronaldo mantém a sua vida familiar na esfera do privado e com todo o seu direito. O que Francisco escreve é a desculpa de um artigo para partilhar os seus ideais retrógrados que não são mais que um desrespeito às família mono e homoparentais, atacando-as e, pior, minorando-as. Crianças, obviamente, incluídas.

É que não bastava toda esta argumentação tendenciosa, o Francisco ainda decide juntar a todo este carnaval, claro está, a notícia dos três homens que decidiram casar na Colômbia. Está, portanto, a misturar uma realidade portuguesa, onde se incluem centenas de famílias mono e homoparentais, com uma notícia sobre uma união poliamorosa. É uma clara tentativa de chocar quem o lê – ele próprio a chama de “aberração” – e assim conseguir moldar a perspectiva que pretende expor.

Apesar de insistir que não se trata de um “juízo moral“, considera “avassalador” este “ataque ideológico à família. E ver Ronaldo embarcar nisso entristece quem o admira.” Mas Francisco, estranhamente, dá razão ao que diz a Segurança Social: “não digo que não seja carinhoso com os seus filhos ou que não lhes proporcione todas as condições para que tenham uma vida confortável“. O grande problema é mesmo quando os filhos de Ronaldo “lhe perguntarem porque é que os seus colegas na escola têm mãe e eles não“, rematando ironicamente com um “gostava de saber o que lhes dirá o super pai.” Não sei exatamente o que diria o craque português aos filhos, mas aposto que um super pai lhes responderia que famílias há muitas, mas em comum têm o amor que as une. E se o Francisco quiser fazer um esforço e olhar à sua volta, se calhar até vai perceber que algumas crianças têm um pai, ou uma mãe, ou até dois de cada e não é por isso que não deixam de ter uma família que as ama e protege.

Custa ver que uma pessoa que muito se apoiou na sua mãe, Dolores, e que sempre fez um esforço por se rodear dos seus irmãos, assim se preservando de outros males [uh???], prive agora os seus filhos de terem uma mãe biológica e uma família completa.” Acontece que lá por o Ronaldo, o Francisco ou até eu termos tido uma mãe nas nossas vidas, não significa que seja esse o único modelo que pode criar uma criança feliz e saudável. Mais digo, não é por protegermos famílias que seguem modelos distintos das nossas que estamos a trair aquela que nos criou. Importa perceber que não estamos a favorecer umas em favor de outras, é precisamente o oposto, estamos, sim, a defender todas aquelas que cuidam e amam as suas crianças, respeitando e protegendo assim o superior interesse da criança, independentemente do seu modelo familiar.

Para rematar (ha…!), o Francisco volta a pegar precisamente na sua preocupação primordial, as crianças: “Basta pensar na quantidade de miúdos que, ao verem esta confusão, se perguntarão se isto é normal. Por favor, alguém lhes explique que não é.” Matematicamente falando? Talvez, talvez. Mas nada me convence que, mais que o receio das crianças ao fazerem a pergunta, é o receio, absolutamente preconceituoso, de quem tem obrigação de, com simplicidade, explicar a realidade aos miúdos e miúdas. É que para isso não é preciso sermos super pais ou super mães, é simplesmente o nosso papel.

Os bichos papões estão por vezes nas cabeças dos pais e mães, não das crianças. E  o Ronaldo, tanto em campo como em família, parece não se deixar levar por eles.

 

Fonte: Observador e Imagem.

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