I’m a Tom’s Man. Are you a Tom’s Man?

Na semana passada sentei-me com um balde de pipocas e uma t-shirt Tom of Finland para ver o biopic do dito senhor. É dos poucos humanos de quem sou fã absoluto, professo, convicto. Posters no quarto, livros, roupa, buttplug  – até o porta-chaves é Tom.

O filme – demasiado comedido na opinião de Jorge Mourinha – não traz nada de novo a quem já conhece bem o artista; é uma suave introdução (não passo a expressão) para @s estreantes. Segundo Mourinha, uma figura tão revolucionária como foi Touko Laaksonen merece um biopic igualmente fora-da-caixa. Recado na caderneta por não ter feito o TPC: esse filme existe, chama-se Daddy And The Muscle Academy e é de 1991.

Aquilo que este Tom of Finland tem de especial é algo que seria aberrante nos anos 50, e mesmo nos 90 dificilmente aconteceria: surgir a propósito das comemorações dos 100 anos da independência finlandesa. Quando o filme é descrito como “para maiores de 12”, é verdade – é uma visão institucional e desinfectada, daquilo que foi a vida, e é a arte de Laaksonen. Mas isso não lhe tira mérito nenhum! Escolher uma figura que há 70 anos era criminosa, para representar o espírito de uma nação, é um salto tão formidável que nem nas fantasias de Laaksonen caberia. E para ver pilas e leather existe o filme de 91.

O universo de Touko Laaksonen é a Fantasia. Fantasia pura: tudo ali é irreal, os corpos o sexo, as pilas – nada acontece no nosso mundo, mas sim no mundo privado de Laaksonen, um homem que criou um mundo com homens para outros homens, e fê-lo como produto do Desejo, a sua obra nasce da vontade desesperada de agarrar, morder, grunhir. É uma fantasia privadanão é (nunca foi, e nunca será) serviço público. Tom of Finland não deve satisfações de bom comportamento a ninguém – nenhum artista deve. Criticá-lo pela suposta misoginia da sua obra é tão irrelevante e despropositado como criticar a hilariante Bitchy Bitch de Roberta Gregory por ser uma mulher xenófoba. Laaksonen dizia desconsolado que não conseguia desenhar mulheres, e é verdade, as suas mulheres são matacões sem expressão – têm mamas que só podiam ser desenhadas por alguém que não quisesse pensar demasiado sobre elas… As mulheres surgem pouco ou nada naquele mundo, porque ele não tem lugar para elas, ponto! E isto é diferente de serem ridicularizadas.

A sua obra é totalmente simbólicaprivada – como a de Tom Poulton, que só foi conhecida depois da sua morte, ou os desenhos eróticos de Amadeo de Souza-Cardoso que foram destruídos pela família. Aquilo que Tom teve de tão especial foi atingir o nervo certo de um grupo que a aceitou, porque precisava dela, porque não se via representado. Era crime. Não se tratava sequer de distribuir panfletos: era não poder imprimir os panfletos. Não havia nada. Aqueles homens que vemos no filme, precisavam de se ver assim, de se imaginar assim – chama-se empoderamento. Na cena da exposição, quando Touko fica pasmado com aquela sala cheia de homens vestidos de couro negro, que até então só existira nos sonhos dele mas materializava-se à sua frente – é o exemplo consumado da frase de Oscar Wilde, “A Vida imita a Arte”. É muito raro acontecer um alinhamento preciso entre a capacidade do artista, as necessidades do público, e os símbolos certos para o satisfazer; e quando acontece, os efeitos são de longa duração, como se pode ver.

Numa última nota, a frase que fecha o filme: “Who can be a Tom’s Man? Anyone can be a Tom’s Man.”. Anyone. Não é preciso ter o corpo assim e a pila assado, nem leather, nem sequer ser homem. Laaksonen criou vários homens (Kake, Jack In The Jungle, Klaus) mas são todos o mesmo – tetas e rabos são a Forma, Tom’s Man é o Conteúdo: é a atitude de confiança plena em si. Sem medos, sem receios, sem “mas”. No mundo Tom não há armários, nem vergonhas, nem “dito por não dito”; é-se confiante e frontal – mesmo estando de costas. A revolta contra o Outro, que nos ataca, leva a um entendimento com o Outro: nas suas histórias nunca há violação, nem agressão, e o ending é sempre happy. Isto é algo a que todos podemos aspirar independentemente da cor, altura, peso, liquidez bancária e tamanho que se calça.

Quando tinha 15 anos vi os desenhos deste senhor pela primeira vez, e apaixonei-me. Por ser tão explícito, tão descarado. Nesse ano saí do armário. Ver e rever os seus desenhos é como encontrar um velho amigo, que me levou pela mão. Não temos tod@s de gostar da imagem, claro, mas isso é só a casca – o que Touko Laaksonen nos quer dar é a mensagem. Essa sim, é deliciosa.

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