A Terrível Perseguição Contra Cronistas Pela Gaystapo Portuguesa

Portugal tem estado num alvoroço nas últimas semanas após as declarações do médico Gentil Martins. Temos assistido a uma forte troca de opiniões sobre a homossexualidade, com acusações de ambos os lados das trincheiras.

Mas o que tem sido realmente escrito na batalha campal que se transformou boa parte da comunicação social portuguesa? O que tem sido escrito nas dezenas de artigos em que, muitas vezes, acusam o outro lado da discussão de censura? Contra a ideia de que Gentil Martins, como médico, não pode diagnosticar – e é esta a palavra-chave – toda a população LGBTI como sendo uma “anomalia“, o que lemos na imensidão de artigos dos nossos jornais?

Lemos pessoas – quase todas homens – a indignarem-se do púlpito do seu jornal – e em alguns casos de vários jornais – que estão a ser vítimas de um silenciamento quando outras pessoas que os contrapõem seguem “a escola de direitos humanos da Stasi e da Gestapo” num verdadeiro ataque à liberdade de expressão. É duplamente irónica a escolha por este tipo de declarações, porque são feitas por pessoas com visibilidade e poder dados por uma plataforma jornalística e não aparentam ter sido impedidas de publicarem as suas opiniões livremente. “Porque é que não se pode falar de homossexuais fora dos termos impostos pelos autoproclamados donos da homossexualidade?“, pergunta outra. Acontece que a mesma liberdade de expressão que tanto reivindicam pode – e deve – ser usada por quem os lê. Não se façam pois de vítimas quando são claras privilegiadas no que toca a usufruírem do seu direito a opinar. Mais, estão aqui em causa opiniões que não são suportadas pelos dados científicos, não é, pois, uma questão de opinião, mas sim de puro preconceito.

E, como aliás notado pela Fernanda Câncio, é um absoluto desrespeito fazerem paralelos a Gestapos e afins, quando a população LGBTI foi precisamente perseguida, torturada e executada pelas polícias nazis. Estes paralelos mostram uma absoluta insensibilidade para com um grupo de pessoas que, de uma forma ou de outra, é ainda hoje perseguida, torturada e executada em vários pontos do mundo. Mas talvez o clique das teclas dos seus computadores enquanto escrevem tais palavras não lhes permitam perceber o quão ofensivo são. Mas é a liberdade. Aguentemo-nos, não é verdade?

Outro dos argumentos lidos é a falta de indignação das pessoas que criticaram as declarações de Gentil Martins sobre a homossexualidade quando o tema é o catolicismo. Vamos repetir? O ódio atirado sobre uma população minoritária é comparado a quem afirma que “a fé cristã é uma anomalia, um distúrbio de mentes infantis, um abuso infantil que os pais lançam sobre os filhos, uma crença primitiva“. Primeiro, gostava de entender quem escreveu estas acusações a uma fé maioritária em Portugal. Se são comentários escritos por um líder religioso, um político ou, vá, um comentador nalgum jornal, será completamente justificada a crítica. Mas será essa a realidade de uma maioria portuguesa? Será essa a realidade, sequer, da instituição Igreja Católica e respetivos privilégios e influência na sociedade? O que o comentarista em causa parece não querer perceber é que questões identitárias são distintas de liberdades religiosas. Mais, insiste no ponto “nós versus eles”, quando não há aqui, forçosamente, uma linha que separe ambos os lados. Mas são afirmações como as que fez que alimentam essa separação. Aguentemo-nos, não é verdade?

Nesta espiral de artigos de opinião li ainda que “as esquerdas radicais defendem o direito dos homossexuais a adotar crianças, mas depois gostariam de impedir esses mesmos casais de escolher livremente a escolas dos seus filhos, os hospitais onde se tratam, os bancos onde pedem créditos e o modo como gastam o dinheiro que ganham“. É este o nível em que se encontra a discussão, são confundidos direitos humanos com política e economia. Esta é apenas uma ligação forçada entre liberdade e liberalismo, são dois conceitos distintos que não trazem valor à defesa dos direitos das pessoas, apenas lançam uma premeditada confusão. Parece que no que toca à orientação sexual, tudo é permitido para rebater quem defende a sua liberdade. Será sempre uma questão de secundarizada, colocada ao mesmo nível de um empréstimo bancário.

Mais, nos seus discursos não se cansam de dizer que são – obviamente – defensores dos direitos da população LGBTI – inclusive do casamento e, nalguns casos até, da adoção por parte de casais do mesmo sexo – mas não deixam de repetir até à exaustão todo o discurso de ódio e preconceito que dizem reprovar. Parece que têm a ideia que se o fizerem apenas nas entrelinhas ninguém repara e a mensagem passa incólume. Não censuremos, portanto, essa tentativa mais ou menos subtil de se demarcarem de um ponto de vista preconceituoso anotando e repetindo todos os argumentos daqueles que mais assumidamente o fazem.

Contra a censura e o silenciamento de todos estes cronistas, ergamos as bandeiras-brancas e aguentemo-nos, não é verdade?

 

Nota: Dar – ou não – novo palco a pessoas que, para além do discurso odioso, lucram de alguma forma com o que escrevem é uma opção à qual ainda não tenho resposta. O instinto faz-me no entanto acreditar que, quando bem justificado, vale a pena responder, para que algumas das declarações não fiquem sem contraditório, ainda que num plano obviamente desigual. Dada a pertinente dúvida, não adicionarei as fontes para os artigos acima mencionados e, neste caso pelo menos, nem sequer os nomes dos seus autores. Para as mentes mais curiosas bastar-lhes-á uma simples pesquisa para encontrarem as declarações originais.

Imagem: Oatmeal 

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