7.23 – Why do you keep coming back for more?*

* Excerto de “Cold to the touch”, de Ralph

Ralph, também conhecida como Raffa Weyman, chega-nos de Toronto, trazendo na bagagem um dos melhores exemplos de pop que ouvi nos últimos tempos, na forma do seu EP de estreia, intitulado tão simplesmente “Ralph”.

De acordo com a própria Ralph, este EP é o resultado de alguns anos de envolvência no meio musical de Toronto e, em particular, da interação com a comunidade criativa da mesma – Ralph pertence a um grupo – “Toronto Women in Music” – que facilita o networking dentro desta área e promove o diálogo e, de uma forma geral, a partilha e apoio entre indivíduos que se identificam com o sexo feminino, através do qual conseguiu manter-se ativa no meio musical enquanto desenvolvia o seu próprio projeto, a fazer coros e participando em videoclips de outros músicos, ou até a participar em criação de vestuário. Ralph considera que este é o momento em que se completa um círculo, quando são outras pessoas que a auxiliam nestes afazeres, tal como ela fez por outros artistas no passado.

Apesar da figura de Ralph existir já há alguns anos, só mais recentemente tal reflete verdadeiramente Raffa Weyman – em anos anteriores este foi um projeto em que colaborava com um outro parceiro criativo, numa interação nunca permitiu explorar verdadeiramente o seu próprio sentido criativo. Reconhecendo as limitações que daí decorriam, Raffa optou por seguir um caminho mais isolado, mantendo o nome artístico de Ralph, mas explorando mais as sonoridades que pretendia efetivamente transmitir, num percurso que se veio a concretizar no lançamento do seu EP de estreia, passados cerca de dois anos após essa opção de seguir um percurso distinto.

Raffa reconhece que, apesar das óbvias ligações consigo própria, o seu alter-ego Ralph assume um caráter mais aventureiro, permitindo-lhe explorar partes da sua personalidade que são menos cuidadosas e menos contidas. Ralph é, de facto, uma personagem estudada tanto a nível de sonoridade como de imagem e de relação com ao seus fãs (reconhecendo Raffa a importância das redes sociais na construção de uma carreira artística nos dias de hoje), uma constatação que não retira qualquer mérito ao seu trabalho mas que eventualmente permite até reconhecer a sua dedicação na criação de um projeto completo que lhe permita alcançar os seus objetivos.

Para finalizar, regresso ao que referi no início, porque vale a pena repetir: “Ralph” vale a pena ouvir, para quem aprecia pop puro e sem remorsos. Referências óbvias a Carly Rae Jepsen e ao seu fantástico álbum de 2015 “Emotion” vêm à mente, pela qualidade pop e coesão do álbum num todo, mas Ralph consegue habilmente produzir a sua própria sonoridade, destacando-se o suficiente para que não seja caracterizada apenas como seguidora mas também como criando o seu próprio espaço e caminho. Com o seu EP lançado há pouco tempo, Ralph pensa já no futuro e naquilo que poderá ser o seu álbum de estreia completo, que tenciona que seja maior, melhor, mais interessante e mais surpreendente. Depois de um EP destes não será tarefa fácil, mas aguardemos, com expectativa.

Mura Masa é Alex Crossan, um DJ, produtor, compositor e multi-instrumentalista originalmente da ilha de Guernsey. O seu interesse musical surgiu desde cedo, com a participação em bandas punk, hardcore, deathcore e gospel durante a adolescência, tendo o interesse em música eletrónica surgido através de explorações do youtube, onde descobriu a música de James Blake, Cashmere Cat e SBTRKT. Ainda com 17 anos começou a fazer uploads da sua música na plataforma Soundcloud, o que lhe permitiu divulgar os seus trabalhos, colecionar fãs e, eventualmente, ser lançado de uma forma mais abrangente com música a ser adotada para passar na rádio em programas dedicados a divulgar música de qualidade.

Em 2015 Mura Masa lançou o seu EP de estreia, “Someday somewhere”, com uma boa receção tanto por parte do público como da imprensa da especialidade e, já este ano, foi finalmente lançado o seu álbum de estreia, “Mura Masa”, após o lançamento de vários singles isolados, no qual se assiste a colaboração com várias vozes interessantes do panorama musical atual, como por exemplo Charli XCX, Damon Albarn, Nao ou Christine and the Queens, sendo a colaboração com esta última que trago para a playlist de hoje. Este é um trabalho interessante que revela uma produção cuidada que não impõe a sonoridade de Mura Masa às vozes convidadas nem vice-versa, permitindo sim uma fusão entre ambas que resulta numa sonoridade original que mantém o interesse ao longo do álbum, com variação suficiente ao longo de uma linha condutora comum, ao estilo do que os irmãos Disclosure têm vindo a conseguir refletir nos seus álbuns.

Cosima tem pouco mais de vinte anos de idade, mas as suas músicas parecem ser as de alguém com uma experiência de vida bastante mais amadurecida. Em dezembro do ano passado lançou a mixtapeSouth of Heaven”, uma demonstração do seu som rico e das suas composições íntimas e românticas, experiências pessoais que encontram reflexo nos seus videoclips que, sendo dirigidos pela própria Cosima, ecoam a sua mensagem e permitem-lhe veicular a sua própria estética. Cosima cita Nina Simone e Wong Kar-Wai como influências na sua sonoridade e estética visual, reforçando no entanto que procura não fazer uma cópia mas sim absorver essas influências e expressá-las do seu próprio modo.

Num estilo distinto de Ralph, mas com uma recomendação idêntica, Cosima apresenta-se com um trabalho completo a nível sonoro e visual, que justifica uma exploração mais aprofundada desta artista. Considerem que este é o meu convite para que a descubram.

Além dos nomes já citados, a playlist desta semana inclui ainda a sonoridade quase hipnótica de Crooked Colours, a música de Dej Loaf que apetece colocar em repeat nestes dias de Verão, uma balada intimista de Sonder e o regresso de St. Vincent, com o maravilhoso primeiro single lançado após o seu elogiado álbum de 2014.

 

Os destaques visuais desta semana vão para Ralph, num vídeo tão pop quando a sua própria música, Cosima, com um vídeo que ilustra uma música diferente da que incluo na playlist desta semana, num vídeo e que permite demonstrar uma outra música e a estética desta artista, e Sonder, num trabalho cinematográfico que se adapta perfeitamente à dimensão da música que ilustra.

Enjoy!

Ralph – Cold to the Touch

 

Cosima – Girls Who Get Ready

 

Sonder – Too Fast

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