A Musa em Férias

A minha musa inspiradora não está a ter um ano fácil. Indecisa entre procurar factos e aceitar as narrativas que lhe dão, zangada com as crónicas alarves em colunas de jornais, mas sem saber se lhes deve dar valor ou não. Sem saber sequer se as respostas indignadas d@s ofendid@s tocam nos pontos certos – e com vergonha de o dizer, para não lhe chamarem dissidente.

O pós-facto, os soundbites, o politicamente incorrecto, a liberdade de expressão – este caldo, que o calor de uma zanga crescente ferve e referve, até não se saber a que sabe – cansaram-na.


Há uns dias percebi que já cá não estava. Deve ter ido para o interior do país, para algum bosque, ver as árvores que ardem, e aquelas que ficam. E esperar que rebentos verdes despontem da terra calcinada. Talvez de eucalipto, formidáveis, que criaram um mecanismo para enxotar o fogo e (com um toque de perfídia) espalhá-lo para longe. Como eu, ela gosta de eucaliptos – e também de aloendros e pilriteiros, os arbustos de autoestrada que florescem maravilhosos no meio do fumo dos escapes, que sugam toda a porcaria do ar e a transformam em flores rosa e brancas, e em bagas laranja – todas elas tóxicas. Plantas espertas, matreiras… E as amendoeiras, oliveiras, piteiras e silvas, que transformam a pobreza dos solos, o pó, o calor, a secura – em frutos cheios, depósitos de água e de óleo. Aposto que é algures num bosque para Sul que a minha musa está.

É nos bosques que podemos encontrar-nos; retirad@s de tudo, sós com as plantas e animais, à mercê dos elementos. Foi nos bosques que os germanos, humilhados, se esconderam durante o Inverno, e lincharam as tropas romanas desorientadas; foi para os bosques que Alec e Maurice (o casal de E.M. Forster) fugiram, para viverem os dois sem ser julgados pelo mundo. É num bosque que a jovem noiva de Karen Blixen oferece o seu anel de noivado a um ladrão, e mente ao marido, dizendo que o perdeu – percebe então que a lealdade é complexa.

Parece-me que tod@s ganharemos quando passarmos mais tempo nos bosques e nas matas, como a minha musa decerto fez; e podemos aproveitar para apanhar algum lixo que encontremos pelo caminho. Para já, só me resta ir atrás dela, e citar Guerra Junqueiro:

 

A musa foi-se-me embora,
Para onde foi nem me lembro;
Só a torno a ver agoraLá para os fins de Setembro.

 

Volto já.

 

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