“Please Like Me”: a comédia australiana que não sabíamos que precisávamos de ver

A magia do Netflix é muitas vezes descobrir algo que passou debaixo do nosso radar pessoal e que acaba por se revelar uma verdadeira preciosidade. É claramente o caso de “Please Like Me”, uma aclamada e premiada comédia australiana criada, escrita e protagonizada pelo jovem comediante Josh Thomas. Nela, Josh, de 20 anos, finalmente depara-se com a sua sexualidade quando a namorada de longa data o decide deixar. Ao mesmo tempo conhece o atraente novo colega do seu colega de casa, Tom (Ward) – também um dos escritores da série, e lida com a depressão da mãe que ainda desconhece a sua identidade.

Mas esta é apenas a premissa e como Jerry Seinfeld celebrizou outrora esta é uma série “sobre nada”. E nesse nada tão quotidiano moram as identificações com as personagens e as situações que ali são retratadas. O interessante é que Josh não é o típico protagonista: é desajeitado, meio perdido, pouco ciente das convenções sociais, um pouco amargo e dolorosamente autodepreciativo. Mas é absolutamente impossível não nos apaixonarmos por uma personagem tão tangível e que é, literalmente, o rapaz estranho da porta ao lado. Que para tantas outras pessoas somos nós.

O estilo da série é de um humor cáustico e sóbrio muito atípico para uma sitcom e vai mais de encontro à direção indie cinematográfica de séries soberbas de outros comediantes como Louis CK e Aziz Ansari. E também aborda assuntos extremamente sérios como a depressão, suicídio, homofobia com uma leveza mundana que é imune a manipulações. Em lugar disso torna-se docemente terna e extremamente comovente. A própria temática LGBT é retratada com uma naturalidade desarmante, apesar de existirem momentos de extrema acutilância na forma como lidam com o coming out, por exemplo.

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Para além de Josh Thomas a outra grande personagem de “Please Like Me” é indubitavelmente Rose, a mãe do protagonista, interpretada pela atriz Debra Lawrence. O retrato da doença mental é feito de uma forma tão exímia que por vezes se torna desconcertante assistir às ferramentas que Rose vai usando para tentar ultrapassar a profunda depressão em que vive. Naquele que é um dos melhores pedaços de televisão dos últimos tempos, Josh e Rose fazem uma excursão solitária à Tasmânia para ambos recuperarem de um trágico acontecimento na segunda temporada. Nessa viagem de auto-descoberta e redescoberta um do outro, tudo o que os une e separa é abordado com a mesma despreocupação séria e desvendamos uma ligação que acaba por sintetizar o que representam enquanto seres humanos.

Na chamada época de ouro da televisão é difícil acompanhar a quantidade notável de séries de qualidade que inundam os canais e o streaming e muitas ficam para trás. Mas “Please Like Me”, que acabou este ano a quarta e última temporada, é verdadeiramente marcante. Para além da qualidade inerente elevada pelo sentido de humor de Josh Thomas, retrata várias personagens LGBT com a naturalidade de quaisquer outras. Retirando o foco desse pormenor e deixando respirar a história dos seres humanos que a povoam assistimos a algo verdadeiramente milagroso. Uma igualdade quase utópica que podemos sonhar se venha a tornar banal e a representação de todas as pessoas LGBT aconteça com esta mesma naturalidade. A não perder. Mesmo.

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