Confissões De Um Feminista

Nos últimos dias, na realidade desde o verão passado que teima em não passar, que tenho vislumbrando um aumentar de hostilidades contra feministas. Quase sempre encabeçadas pelas Capazes que, goste-se ou não do estilo, algo devem estar a fazer bem para se terem tornado sinónimo de mulher feminista em Portugal. Kudos to them!

Mais discutível que estilos, considero especialmente grave quando alegam que feministas perdem a razão quando, histéricas, lutam por ninharias e coisas que não têm a menor importância. Sejam livros infantis segregados por género, sejam as quotas mínimas para mulheres em cargos políticos ou empresas cotadas em bolsa. Mais, a maioria destas críticas é feita, embora não exclusivamente, por homens.

São homens que não abdicariam de nenhum dos seus direitos caso a causa feminista levasse, por fim, a avante as suas reivindicações. Antes pelo contrário, aliás, os homens são, ainda que noutro nível, também eles vítimas de uma sociedade misógina. Bastará pensar, por exemplo, o quão desprezada é a paternidade de um homem sobre a sua criança quando é comparada, quer pela sociedade como pelos tribunais, com a maternidade, sim, de uma mulher. Não é, pois, uma questão altruísta. É, sim, nada mais que o puro egoísmo a apoderar-se dos homens que defendem o feminismo. Porque lutamos pelo fim de uma sociedade machista. Porque beneficiamos todos desse objetivo.

E porque o feminismo não é o contrário de machismo, por mais que surjam novamente essas questões que não são mais do que o lançar da confusão, o prolongamento do histerismo que alegam existir do outro lado da barricada. A base do feminismo é a igualdade de género. E, não, não é a destruição do género, do apagamento das diferenças que os possam diferenciar. É, sim, a igualdade de direitos, comportamentos e oportunidades para ambos os géneros. É saber que uma mulher consegue uma posição de poder por mérito e não por desmérito de um homem que o conseguiu apenas por o ser. É saber que não é problema um menino usar rosa ou uma menina azul, nem o seu inverso.

É saber muita coisa. Mas, ainda assim, há aqueles e aquelas que, não se revendo nos modos como um grupo de pessoas exprime a sua luta feminista, rasura todo um princípio e, pior, afasta-se de fazer algo pelo movimento. Pergunto então a essas pessoas o que fariam – e fazem – de diferente para ajudar a causa? Genuinamente gostaria de saber tamanho plano dito moderado que nas últimas décadas tem-nos dado parcos resultados. Sim, resultados existem e esta discussão acontece por que alcançámos um estado que nos permite falar sobre feminismo com tamanha liberdade e, por vezes até, leviandade. Mas não devemos confundir esta progressão com conforto, porque esse não existe para aquelas (e aqueles) que sofrem na pele as consequências de uma sociedade machista.

Pela manutenção destas discriminações é que ainda hoje há juízes – e jornalistas – que se opõem a quem defenda uma sociedade mais justa e igualitária, reduzindo conceitos à sua semântica, minorando feministas, insultando Capazes, tratando-as de feminazis, negando a luta feminista porque é hoje saco de pancada para aqueles e aquelas que se incomodam mais com o estilo do que com a causa. Negando-se fazerem parte de um movimento porque umas das partes é assim e não assado. Não dando qualquer contributo pessoal, preferindo muitas vezes a projeção do ridículo e do histerismo.

Porque é a ação – e não a inação, nem sequer a moderação – que tem permitido o avanço da sociedade no sentido de valorizar as suas mulheres. Não vamos deixar o plano a meio, pois não?

 

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