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Alegada vítima (homossexual) de crimes sexuais torna-se numa anedota viral

Anda a circular na Internet uma entrevista feita a uma vítima de abuso sexual. Uma situação normal de aproveitamento da dor de vítimas e sedução pelo macabro no panorama da televisão generalista. Mas desta vez era um homem a expôr o seu próprio caso de violação. No programa da manhã da TVI apresentado por Cristina Ferreira, Você na TV, a alegada vítima foi entrevistada de forma surreal e descreveu o caso de violência levado a cabo pelo antigo companheiro, cuja relação acabou em sequestro numa masmorra e violação durante várias horas.

Há varias coisas estupidamente erradas aqui. Tudo começa com a mediatização do caso num programa de entretenimento como o de Cristina Ferreira, exploração total e desavergonhada de vítimas disfarçada de jornalismo sério. O típico, portanto. Mas o pior é que tudo isto veio à tona aquando da publicação do vídeo da entrevista numa página de humor, “Bilbia Mt Engarsada”. Publicado como piada. E comentado como tal.

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Sem querer entrar no culto de dúvida da vítima, parece evidente que o estado mental da mesma e a veracidade das alegações estão em aberto. Tanto pela forma perturbadora e fascinada pelo mediatismo como responde às perguntas do entrevistador, como também pela maneira que se distancia da mesma não mostrando a cara ao mesmo tempo que revela o nome completo. Mas não creio que seja este o ponto que está em causa aqui. Podemos vê-lo pelos comentários que foram deixados no post principal da página de Facebook do sítio humorístico e também no próprio YouTube.

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Para além de imediatamente o compararem a outras celebridades abusadas domesticamente ou que exibem uma expressão de género fora do normal também ridicularizam a vítima.

Um homem a ser violado por outro homem?

Sendo HIV positivo?

Assumidamente passivo no ato sexual?

E que confessou procurar sexo anónimo em sítios isolados?

A piada faz-se por si mesma. Primeiro que tudo, um homem a sério não se deixa abusar sexualmente por outro, mas um homossexual, com a sua identidade de género claramente comprometida pela orientação sexual, já exibe comportamentos que são evidentes chamarizes para este tipo de atos macabros. Por um lado, se fosse uma mulher heterossexual a relatar estas atrocidades não seria refutada com as mesmas gargalhadas. Por outro, se essa mesma mulher por acaso estivesse vestida de forma provocadora a coisa mudava. Aqui estavam a pedi-las, não é verdade?

Com o risco assumido de ser (novamente) acusado de policiamento do politicamente incorrecto, este tipo de situação só é piada porque existe homofobia, e por consequência também misoginia, tão internalizada que se torna numa graça leve e de partilha bonacheirona nas redes sociais. O final de uma anedota tão hilariante quanto assustadora. Como um desastre automóvel que afinal só matou um paneleiro maluco: LOL. O problema é sistémico e todos e todas nós desempenhamos um papel na proliferação desta contaminação. Como consumidores e consumidoras deste tipo de vil exploração enquanto entretenimento fugaz e aceitando que ela depois se torne num qualquer meme. Porque a pessoa em causa não tinha os parafusos todos no sítio. Se calhar justificadamente. Nós estávamos com a chave de fendas na mão.

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