Globos de Ouro: PRETO, A COR DA ESPERANÇA

Sejamos sinceras, quando as notícias sobre os crimes Weistein saíram à rua, ficámos horrorizadas com os relatos, orgulhosas das mulheres que tiveram a coragem de os contar, rimo-nos dos rostos masculinos de espanto e das suas tentativas de se distanciarem de todo o problema mas, no geral, ficámos à espera que o escândalo morresse, o produtor acusado se escondesse da vida pública durante alguns anos para que depois pudesse regressar discretamente e que as mulheres delatoras vissem os seus 15 minutos a terminar sem pedidos de desculpa ou apoio.

Mas as denúncias continuaram, mais homens foram colocados na fila para a guilhotina e sempre, constantemente, pensávamos a medo: mais duas semanas e ninguém se lembra!

Quando Kevin Spacey se tornou o foco das acusações, e achou que a melhor ideia para resolver o assunto seria distrair-nos com o seu coming out, foi a altura de alguns corajosos homens assumirem também as suas histórias de assédio. Ainda bem que o fizeram! Mas, mais um vez, foi altura de pensarmos que o nosso tempo de antena tinha chegado ao fim. A história tinha dado os seus 360º, tinha regressado ao ponto inicial e os homens controlavam a narrativa novamente.

Mas as semanas passaram-se, mais mulheres ganhavam coragem de contar as suas histórias, o #metoo foi correndo os murais das nossas redes sociais, a revista Times resolve nomear este movimento para Personalidade do Ano, os relatos largam Hollywood e seguem para os Prémios Nobel, o mundo das tecnologias, de negócios, da academia e até aqui em Portugal se sente (pouco!) que o tempo das mulheres estava a chegar.

Entramos em 2018, as celebridades anunciam que se vestirão de preto na cerimónia Globos de Ouro em protesto contra o Assédio, fala-se em igualdade salarial, fala-se sobre este ser o Nosso Ano mas ainda assim ficámos à espera do momento em que toda a conversa teria o seu fim.

Estávamos constantemente à espera que o pano caísse nesta nossa digressão pelos palcos que os homens normalmente ocupam a solo.

E então, domingo à noite, sentámo-nos à frente das nossas televisões, prontos para vermos quem tinha ganho o Prémio de Melhor Atriz ou Melhor Realização (categoria essa que apenas via homens nomeados) e deparamo-nos com um espetáculo que mudou a história (e eu sei que é prematuro dizê-lo mas digo-o sem medos!).

É que o traje preto prometido há alguns dias tinha-se manifestado em todos os corpos! Mas o protesto não ficava por aí… Foram raras as intervenções que não tocassem no assunto do dia do ano. Os homens produtores que subiam ao palco para receber prémios coletivos (como Melhor Série Dramática ou Melhor Filme Comédia ou Musical) abdicavam, de forma consciente e digna, do seu direito a discurso para cederem a palavra às mulheres que melhor podiam falar sobre os projetos.

A noite não parava de surpreender mas sabíamos que o maior momento estava a chegar: Oprah!

Subiu ao palco para aceitar o Prémio Cecil B. DeMille (ver discurso na integra em baixo) que é uma honra concedida a pessoas com carreiras de enorme relevância e que foi ontem entregue, pela primeira vez, a uma mulher negra. Falou da importância da visibilidade, da importância de contarmos as nossas histórias para que outras pessoas se sintam capazes de contar as suas também, falou de homens e mulheres a lutarem juntos por um futuro onde o #metoo não exista, falou-nos de esperança e superação. Não podíamos deixar de nos lembrar daquele episódio mítico em que oferecia um carro a cada membro da sua audiência porque era no mesmo tom convicto que nos anunciava: Está a chegar um novo dia!

E foi aí! Foi nesse culminar brilhante de uma noite, já ela, brilhante que finalmente nos convencemos de que isto não teria fim. Esta tomada de posse feminina não tinha semanas contadas e os homens acusados que tínhamos conseguido expulsar não poderiam mais voltar! Não podíamos mais fingir que o problema não existia. Não podemos mais sair impunes quando não convidamos mulheres a falar, a trabalhar, a criar e quando não as celebramos por o terem feito!

Quando hoje saí à rua, vestida de preto como só podia, ouvi um piropo. Ao contrário do que é habitual não suspirei de raiva, não escondi a cara com o cabelo, não apertei os punhos, não fechei melhor o casaco, nem sequer deixei de sorrir… Ganhámos a batalha em Hollywood, em breve ganharemos as ruas!

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