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Entrevista A Daniela Santos: “É Importante Agarrarmo-nos Ao Amor”

o amor vence sempre 5 fotografia dalma

“Gosto das covinhas da Daniela quando se ri.”

“Gosto que a Isabel se ria sempre das minhas piadas.”

É assim que a Daniela Santos e a Isabel Ferreira se apresentam perante uma e outra, o riso é aqui claro espelho da ligação e do Amor que nutrem. Casaram no passado dia 15 de setembro e nesse mesmo dia, dada a extraordinária curiosidade e apoio que receberam nos preparativos do seu casamento, lançaram o blogue O Amor Vence Sempre que pretende “esclarecer dúvidas e quebrar tabus que possam existir sobre relacionamentos e casamentos homossexuais“.

Em pleno processo de alargamento da família que começaram a criar há três anos quando se conheceram, estivemos à conversa com a Daniela que nos falou da importância da visibilidade destas histórias para que haja avanço nas mentalidades, o bullying que sofreu na adolescência e, claro, como se libertou do armário amando orgulhosamente. Assim foi:

 

Esta é talvez a pergunta que mais vezes vos fizeram, mas vendo as vossas magníficas fotografias, diria que inevitavelmente importa perceber o ponto de partida: como se conheceram, amor à primeira vista?

Amor à primeira vista, sem dúvida. E eu nunca acreditei nisso. Nunca acreditei em finais felizes, talvez por alguns (menos bons) exemplos que tenho na familia, ou talvez porque nunca fui realmente feliz como o sou agora.

Conheci a Isabel em Leiria, na Universidade, mesmo no final da licenciatura dela. Conhecemo-nos através de uma amiga que tínhamos em comum. Eu sou de Torres Novas e essa amiga também. Mas ela veio estudar para Leiria para o mesmo curso que a Isabel. O que me chamou logo à atenção, foram os olhos dela. Só a tinha visto ainda pelas redes sociais. Meti conversa com ela e, desde então, nunca mais nos largámos. Fomos ao cinema e parecia que nos conhecíamos desde sempre. Parecia mesmo que nunca tinha dado certo com mais ninguém antes porque estava destinado ficarmos juntas.

Comecei a gostar de falar com ela, de estar com ela e, principalmente, de a conhecer. Ela tinha um ponto de vista das coisas completamente diferente do que eu estava habituada. Ambas tínhamos tido outras namoradas, mas ela nunca sentiu necessidade de o esconder e eu sempre o escondi… até a conhecer. Ela fez-me ver que não há necessidade de esconder nada. Em poucos dias, já a tinha pedido em namoro. Ela acabou o curso um mês depois e tinha que voltar para Guimarães, mas eu já não conseguia imaginar os meus dias sem ela. Falávamos a toda a hora, saíamos das aulas e íamos passear, conhecer sítios novos. Eu estava a viver com uns amigos da universidade e levei-a a viver connosco. Arranjei-lhe um part-time no McDonalds comigo. Pouco tempo depois fomos viver só as duas… despediu-se do Mc, fomos de férias e ela arranjou logo trabalho no tribunal em Leiria na área dela. Fez agora em dezembro 3 anos e meio, foi em maio de 2014 que nos conhecemos.

E daí até ao casamento foi o passo natural para vocês, suponho. Já tinham em mente fazer desse momento especial uma janela de inspiração para outras pessoas com o vosso projecto “O Amor Vence Sempre” ou este surgiu mais tarde?

O blogue surgiu mais tarde… casar e ter filhos foram dois objetivos para a vida que só descobri ter depois de estar com a Isabel. A ideia era casarmos com a Isabel grávida, mas não resultou – embora ainda tivessemos tentado duas vezes. Como não resultou, dedicimos adiar.

Na Passagem de Ano de 2016/2017 o nosso desejo foi: em 2017 vamos casar. A Isabel queria algo muito íntimo, jantar com a família. Eu disse que, com ela, sonhava algo em grande, uma festa com todas as pessoas que nos querem bem. Afinal, só se casa uma vez… Assim foi, decidimos a data e começámos logo a ver quintas e fotógrafos. O resto foi-se fazendo naturalmente.

Quanto ao blogue, surgiu porque, ao usarmos o site casamentos.pt como auxílio na preparação do casamento, este tem uma plataforma onde se pode dar uma password a convidados e que ficam com acesso exclusivo a vários fatores do casamento como fotografias e pormenores. Decidi usar essa plataforma, mas tornando a password pública. Tal foi o meu espanto quando, em poucas semanas, tivemos mais de mil pessoas a entrar e num mês passou das 7000 visitas. Parece pouco agora, mas na altura não erámos conhecidas nem tínhamos os seguidores que temos agora.

No trabalho, na rua, nas redes sociais, as pessoas começaram a saber que íamos casar e queriam saber tudo, como íamos vestidas, se a familia ia, queriam saber tudo, tudo. Foi aí que decidi criar o blogue. Fomos criando um nome, domínio, uma base… e foi lançado no dia do nosso casamento, à meia noite. E foi um sucesso. Pensávamos que a “febre” ia passar depois do casamento, mas os dados estatísticos mostram precisament o contrário. Fomos partilhando a nossa experiência nas duas inseminações artíficiais que fizemos, o casamento e algumas escapadinhas que vamos fazendo, tem sido assim desde então. O post no domingo [14 janeiro], com aquelas fotos no dia da entrega dos Prémios Arco-Íris 2017, em 24 horas teve mais de 20.000 cliques e cerca de 2.100 visitantes únicos só nas 24 horas posteriores à publicação desse post. Tem sido incrível!

[fotografias por Fotografia D’Alma e Your Life In One Picture]

Está a ser uma surpresa para vocês então, todo este apoio e carinho que recebem. A visibilidade das pessoas LGBTI é uma das formas mais eficientes de ativismo – mesmo que não assumido -, pela empatia criada, pelo exemplo, por nos tornar visíveis. Sentem de alguma forma isso em quem vos segue?

Claro que sim! Sentimos isso, sem dúvida! Acho que o próprio facto de fazermos uma vida perfeitamente normal, sendo nós quem somos, um casal como outro qualquer, é por si só uma forma de ativismo. Estamos a mostrar que não temos nada de diferente de um casal heterossexual. Ainda há pouco fomos passear as cadelas e uma senhora, com uns filhos, abordou-nos dizendo que segue o nosso blogue e que nos deseja as maiores felicidades. E é tão bom! Porque sinto que, pouco a pouco, estamos a mudar mentalidades na sociedade.

Isto é contagiante… mas, acima de tudo, sentimo-nos felizes e realizadas porque estamos a ajudar outras pessoas que vivem escondidas… temos até testemunhos de pessoas que viveram um casamento heterossexual de 20 anos e só ao fim desse tempo ganharam coragem para saírem dessa “máscara” e serem, finalmente, felizes.

Portugal tem avançado nos direitos humanos na última década – e em especial nos das pessoas LGBTI – e isso reflecte-se, como bem disseste, em “armários”, como lidaste com essas questões durante o teu crescimento pessoal?

Não lidei muito bem com essa situação. Eu própria tinha “vergonha” do que era, porque se gostasse de homens, podia estar mais à vontade. Tinha medo de contar à minha família, tinha medo de mostrar. Era gozada na escola. Chamavam-me “fufa” – e que palavra tão feia! Chorava. Foram tempos difíceis até começar a trabalhar, aos 16 anos, não por necessidade financeira, mas por necessidade de me tornar independente. De estar mais livre. Não tinha amigos, não socializava. Isolava-me. Comecei a trabalhar e comecei a lidar com diferentes pessoas de diferentes idades e comecei, naturalmente, a mostrar quem realmente era. Comecei a fazer amigos. Acabei o secundário, vim para Leiria para a universidade, conheci a Isabel e nunca mais escondi. E nunca fui tão livre, tão feliz, tão EU!

Pode dizer-se que o Amor permitiu-te ser genuína e completa?

Sem dúvida! Genuína, completa e principalmente, permitiu-me ser quem eu realmente sou. Permitiu-me libertar-me e investir mais em mim e no que me faz bem.

E agora com esta liberdade como casal, têm alguns planos para o futuro?

Claro, além de já vivermos juntas há mais de três anos, estamos a tentar engravidar. Estamos a caminho da terceira tentativa de inseminação artificial.

Um novo projeto, um novo início então… Para terminar, que conselho dão às pessoas, especialmente a mulheres, que passaram – e ainda passam – pelo Bullying, pelo armário no seu dia-a-dia?

Que elas não se deixem influenciar pela opinião alheia e que se foquem em quem realmente são e em quem as faz feliz. Críticas, ouvimos, mas não podemos deixar que nos afetem. O importante é agarrarmo-nos a tudo o que nos dizem de bom e, principalmente, ao Amor!

 

Poderão seguir as histórias da Daniela e da Isabel na sua Página de Facebook e nas suas contas individuais no Instagram (Daniela e Isabel).

Nota: Obrigado à Daniela pelo contacto 🙂

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