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Educação Física: Ainda um Espaço Seguro para a Homofobia?

Foi esta semana anunciada pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Comunista Português a vontade de reverter a decisão da reforma de 2012, do Governo de Passos Coelho e de Nuno Crato, e voltar a incluir a disciplina de Educação Física na média de acesso ao ensino superior. Numa tentativa de perceber como a minha experiência com a disciplina de há mais de 15 anos tinha mudado fiz uma série de posts no Twitter a descrevê-la.

Desde o 1º ciclo até ao secundário tive a infeliz sorte de ter o mesmo Professor de Educação Física. Era totalmente inapto para estar a influenciar pessoas em desenvolvimento físico e psicológico e a sua ideia de desporto praticável por rapazes era o futebol, quase exclusivamente. Já às raparigas, num acto de total segregação, era oferecida a possibilidade de jogar basquetebol, atividade nunca por ele supervisionada. O intuito superior era guiar os rapazes na obtenção de uma virilidade tóxica que fosse de encontro à sua ideia concreta e normativa de masculinidade. No futebol – onde continua a existir um tolerável e recorrente incitamento à homofobia nos estádios – e em todas as outras atividades de ginásio.

Claro que eu, jovem gay armariado, e outros colegas que não se enquadrassem naquela visão de género por ele promovida éramos automaticamente alvos de discriminação. Discriminação que não parava na exposição humilhante da suposta inaptidão para o exercício físico e, na maior parte das vezes, era bem assente no incentivo da prática de bullying homofóbico por parte da restante turma e por vezes do resto do pessoal do ginásio e da escola.

O dia de Educação Física era sempre um de tortura garantida e antecipada com uma ansiedade e vergonha que ainda hoje me custa um pouco descrever sem cair numa auto-vitimização que desaprovo. Inventava doenças, pedia sucessivamente dispensa aos meus pais, fingia que me esquecia do equipamento. Quando não me era possível escapar aguentava a sessão de uma hora de insultos homofóbicos promovidos pelo próprio docente. Não só fazia questão de chamar a atenção para as minhas falhas de execução dos exercícios, muitas vezes dizendo que era “pior que as raparigas”, como deixava que as palavras “paneleiro” e “maricas” ecoassem da boca dos outros e até mesmo da dele. Isto fora dos balneários, onde depois a coisa piorava substancialmente. Obviamente que não poderia ter boa nota a Educação Física e apesar de ser um aluno exemplar nas restantes disciplinas aqui nunca consegui mais que uma positiva puxada ao máximo no sentido de passar despercebida. Mas chegou a baixar para valores negativos em algumas ocasiões. Para me distinguir bem dos outros.

É óbvio que não posso que uma experiência pessoal negativa com um evidente asno contamine a minha visão da importância da Educação Física em contexto escolar e no incentivo da prática de desporto e exercício. É algo que só iniciei em idade adulta e tenho bastante pena de não ter começado mais cedo, tanto pelos motivos óbvios de saúde como também pela possibilidade de elevação de auto-estima na altura. Mas o que mais me surpreendeu esta semana foi perceber que reflexos do que eu vivi há tanto tempo continuam a existir em gerações bem mais novas que a minha. De que muitos ginásios escolares e a disciplina de Educação Física continuam a ser espaços seguros para o bullying. Homofóbico e não só.

Também me surpreendeu em muita gente a recusa de perceber que existe um problema que afeta maioritariamente rapazes gay. Logo quiseram desvirtuar a discussão e insistir que a aptidão na prática da disciplina e a homossexualidade não eram correlacionáveis. Óbvio que não. Nenhum homossexual é mais ou menos apto para o exercício físico pela sua orientação sexual. Mas quando existe bullying homofóbico a eles dirigido é natural que a possibilidade de desfrutar do desporto seja posta em causa e se transforme numa impossibilidade. E para tornar as coisas ainda mais azedas existe uma dupla punição: a da humilhação com hora marcada e depois a da avaliação em si.

Penso que a Educação Física tem potencial para ser exatamente o oposto. De ser um espaço saudável de competição e edificação de valores colectivos de grupo. No entanto, sugiro aos partidos de esquerda que, antes desta tentativa algo populista de reintegração da disciplina na média, promovam ativamente, juntos das escolas e professores, a igualdade nos critérios de avaliação de todos e todas as alunas em Educação Física, assentes na não discriminação e na criação de um espaço seguro em que ninguém fique de fora por não se integrar na divisão binária normativa de género. Antes disso acontecer o restabelecimento da cadeira enquanto obrigatória para a média irá simplesmente continuar a punir as vítimas do costume.

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1 Comentário »

  1. Concordo em absoluto, e entendo que as situações desfavoráveis se perpetuem, não só em Educação Física, visto que em geral o espaço escolar está ferido da ausência (ainda) de uma educação consistente para a vida relacional (emotiva e sexual). Considera-se piamente que isso é algo “transversal”, mas todos os professores fogem disso, como gato escaldado foge de água fria. Enfim, embora tenha passado e esporadicamente vá passando por situações pessoais em que sinto o peso de uma idiota homofobia, não passei no liceu por esse bullying, porque, desde os seis anos, comecei a fazer desporto, integrando um clubezinho local, o que me deu direito a pulsos abertos e a um nariz partido, mas me salvou nas aulas de Educação Física.

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