Presunção De Inocência

A presunção da heterossexualidade de um desconhecido ou de alguém que, na realidade, não somos próximos é algo que nos obriga a silêncios e respostas vagas. São aqueles instantes em que nos obrigam a tomar uma decisão, contamos ou não? Corrigimos ou não? São esses momentos que nos fazem criar fantasmas, nascem ali versões de nós mesmos que são-nos menos. São sombras, pedaços, um retalho daquilo que nos define. E, no entanto, dia após dia, acabamos por nos cruzar com alguém que nos força a tomar essa decisão e nesse compasso de espera faz-nos questionar aquilo que somos, se valemos realmente a pena. E se há dias e pessoas em que a resposta é-nos clara, noutros a boca fecha-se e deixamos de ser. Completos. Passamos a ser naquele momento, para aquela pessoa, uma outra pessoa que se parece connosco, que fala como nós, que se ri assim com gosto. Se nos pusessem lado a lado não nos conseguiriam distinguir. E, no entanto, não somos a mesma pessoa. Uma é uma projecção. A outra também o será, mas com a nossa assinatura por baixo. E se é verdade que todos somos projecções para terceiros, não é justo que todos os dias tenhamos que levar com certas conjecturas que nos fazem questionar o nosso carácter, a nossa essência. Como se todos os dias tivéssemos que lançar a questão “que raio somos?!” E todos os dias nos dessem uns segundos para o descortinar e decidir se valemos, realmente, alguma coisa. Não sei se – lhes – valemos de algo, mas agradeceria àquelas pessoas que insistem em questionar-nos e a presumir-nos que o deixem de fazer. E apenas nos deixem ser.

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