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I Conferência ex aequo: “Não Importa Em Que Equipa Jogas!”

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Jovens que sofrem bullying na escola por serem LGBTI muitas vezes não o comunicam à família” – Manuela Ferreira.

Esta foi uma das realidades apresentadas na I Conferência ex aequo que, de forma a celebrar os 15 anos de existência da rede ex aequo, se debruçou sobre estes pilares do crescimento humano: o desporto, a educação e a família.

Numa manhã chuvosa de abril, o Centro Ismaili de Lisboa recebeu dezenas de pessoas que se refugiaram da intempérie no seu majestoso interior. Lá fora os jardins serviram-nos de belos cenários, banhados pela água abundante que caía e ilumindando o salão com a sua reflectida ténue luz.

Depois de um compasso de espera, eis que foi dado início ao evento, com um discurso do Vereador Ricardo Robles (Pelouro Educação e Direitos Sociais da Câmara Municipal de Lisboa), assim foi:

Seguiu-se o primeiro painel, moderado por João Paiva, coordenador do Núcleo para a Promoção da Cidadania e Igualdade de Género. Este painel focou-se no papel da família e da escola na promoção do desporto inclusivo e nele Manuela Ferreira, da Associação AMPLOS, relembrou que “nem todas as meninas querem ser bailarinas“. Aliás, por vezes há sim meninos que sonham em ser bailarinos, como o seu filho Guilherme, o único rapaz na turma de ballet. Daí, defendeu, ser essencial o género neutro nas escolas desde o pré-escolar, “acabar com as brincadeiras para meninos e outras brincadeiras para meninas“.

A questão de jovens trans na escola também não foi esquecida, contanto a Manuela um exemplo de uma jovem cuja família negava ainda ter um problema, mesmo quando os sinais eram óbvios: ainda não ter falado com colegas, ter apenas um amigo ou não ter aulas de ginástica. Quando questionada se colegas não estranham ela não participar nas aulas de educação física, a mãe da jovem trans desvaloriza: “Pensam que tem um problema de saúde…“. Importa pois reforçar a educação também de pais e mães nestas matérias, para que tenham especial cuidado e atenção sobre as crianças trans.

Rita Paulos, da Casa Qui, mostrou a sua preocupação sobre a invisibilidade que atletas LGBTI têm no mundo desportivo, “no futebol sabemos haver jogadoras lésbicas, mas não é revelado, dentro de campo não é falado“. E esta falta de exemplos cria um ambiente hostil que leva a que a participação de jovens LGBTI em atividades desportivas “seja mais reduzida“. Mais, continua, “as pessoas que ficam têm baixa auto-estima e níveis de stress elevados, dado que ficam muitas vezes preocupadas se alguém vai descobri-las“.

De forma a minorar o bullying e o preconceito sobre jovens LGBTI, Rita Paulos apresentou algumas propostas de intervenção que pessoas que tenham a cargo jovens (professoras ou treinadoras, por exemplo), nomeadamente, “não assumir que não se tem jovens LGBTI na sua sala de aula ou equipa” e “intervir quando surgem comentários ou insultos homofóbicos ou transfóbicos“.

Para Nuno Loureiro, do Conselho Nacional da Juventude e treinador de futsal feminino, é claro que “o desporto pode ser uma ferramenta para a inclusão“. E mais explicou a importância de passar esta mensagem:

 

Por fim, Filipe Mendonça, do Grupo Desportivo Estoril Praia, lamentou não haver “mais clubes desportivos entre nós aqui“, reflectindo um percurso do clube que representa contra-corrente da generalidade dos restantes clubes. “Cada atleta tem a sua identidade e a sua individualidade tem que ser respeitada“, concluindo, sem antes assumir a noção de que possa ser opinião polémica, que “se os clubes fizerem o seu trabalho não precisaremos de clubes de rugby gay, por exemplo“.

O poder da proximidade entre as pessoas não foi esquecida, com um colega do Filipe Mendonça ali presente a confessar que de início não via a bons olhos a homossexualidade, mas que através do colega conseguiu, por fim, abrir os seus horizontes. “Sou um homem que assume a sua homossexualidade” e no clube encontrou uma nova família que o apoia e lhe permite fazer aquilo que mais gosta.

Pela interrupção da hora de almoço adivinhava-se uma tarde em que o sol pudesse espreitar-nos. E assim foi, depois de almoçarmos num ambiente descontraído e de convívio, quando regressámos ao Centro Ismaili o Sol começava timidamente a iluminar os corredores e o salão onde decorria a conferência era agora inundado de um verde reluzente vindo dos jardins cuja parede de vidro deixava entrar.

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O segundo painel anunciava debruçar-se sobre “os actores externos como os média e o Estado na promoção de práticas inclusivas no desporto da juventude LGBTI“. Moderado por Carla Calado da Fundação Aga Khan/Carta Portuguesa para a Diversidade, começámos por ouvir Aline Flor, jornalista do Público, que indicou que “as imagens nos média [de atletas LGBTI] ainda são muito estereotipadas“. Este é um problema facilmente identificável, especialmente por jornalistas de sociedade que estão “mais atentos“, mas acrescentou que é precisa “mais formação“, dado que “a maioria das notícias LGBTI no desporto não é feita por jornalistas desportivos“.

Santiago Lima, da Ação Pela Identidade, reconheceu que os novos meios de comunicação, nomeadamente sites, blogues e redes sociais, “trazem-nos uma nova independência, uma nova identidade“. Este é um passo que considerou importante para a visibilidade das pessoas intersexo, dado que “muitos dos casos mais falados são na área do desporto“, mas quase sempre com uma perspectiva desinformada e preconceituosa sobre o tema. São notícias que se debruçam muitas vezes nas mulheres, em que lhes é dito que “devem jogar nas secções masculinas“.

Aqueles que são discriminados devem unir-se, a chamada união na adversidade“, foi a mensagem de Jorge Carvalho, Diretor do Departamento do Desporto do Instituto Português do Desporto e Juventude. Reiterou igualmente a ideia de que “o direito ao desporto é um direito fundamental” para todas as pessoas e assim sendo devemos trabalhar para que todas elas o possam praticar sem receio ou medo.

Pela Associação Desportiva Boys Just Wanna Have Fun [BJWHF], esteve presente Gonçalo Bernardino que começou desde logo por reconhecer que “a primeira discriminação no desporto relaciona-se com o corpo” que se vê assim reforçada quando toca em temas como transgénero ou intersexo. E é precisamente para combater a lacuna que ainda existe na esmagadora maioria dos restantes clubes sobre estas pessoas que existe uma associação como aquela que representa. Ainda assim, não escondeu que o nome da mesma não é o mais inclusivo – foi escolhido muito antes de se ter tornado numa associação – e lança, inclusive, uma ideia errada quando, na realidade, todas as pessoas são bem-vindas.

Será que faz sentido a existência de um clube direcionado para gays? Para nós não!“, continuou. “Quando sentirmos que os restantes clubes têm uma prática onde as questões de género, orientação sexual, etc. não forem relevantes para a aceitação e inclusão das pessoas que praticam desporto neles, seremos um clube igual a todos os outros!

 

Por fim, o terceiro painel, moderado pela Cátia Figueiredo, da International Lesbian, Gay, Bissexual, Transgender, Queer & Intersex Youth and Student Organisation, centrou-se na temática do género subjugado ao desporto. Célio Dias, por motivo de doença, não conseguiu integrar o painel, mas fez questão de enviar uma mensagem em que afirmou que “o desporto é um serviço público” e que, dadas as mudanças positivas que tem sentido na sua vida e em seu redor, “a sociedade está permeável à mudança“.

Mia Caroline, consultora externa da FIFA Alemã, mostrou-nos como “o conceito de desporto pelo desenvolvimento é relativamente recente“, mas garantiu-nos que este é “um movimento crescente“. Tal como discutido anteriormente, reforçou também a ideia de que quem treina “ainda não sabe lidar com atletas LGBTI“.

Lígia Fernandes, das Lisboa Roller Derby Troopers, explicou-nos os princípios de igualdade que o seu grupo desportivo, através de uma modalidade recente “criada por mulheres e praticada maioritariamente por mulheres” alimenta positivamente a inversão de papeis entre homens e mulheres, especialmente num desporto de contacto. Mas relembra que este é um desporto aberto a todas as pessoas, quer saibam andar de patins ou não, até porque no final “vão adorar!

Tiago Figueiredo em representação do Belas Rugby Clube, tendo passado anteriormente pelos Dark Horses [equipa de rugby da BJWHF] , e confessa que o desafio maior que sentiu quando mudou de equipa “foi mitigar os preconceitos que os novos jogadores tinham de mim“. Mas isso não o parou, tendo contado como se esforçou para ultrapassar todas as barreiras e ser respeitado dentro da nova equipa: “as brincadeiras dos ‘paneleiros’ existem, mas mostrei-lhes que os ‘paneleiros’ são capazes!

Para terminar ronda pelo painel, Ana Chaparreiro, coordenadora do MOVE – Núcleo de Desporto da ILGA Portugal, focou a sua intervenção no preconceito que existe contra as mulheres no desporto: “existe ainda o preconceito que as mulheres não são capazes de praticar alguns desportos.” Estas ideias são muitas vezes perpetuadas por quem, à partida, gostará mais das crianças, pais e mães, impedindo-as de receberem estímulos e incentivos para certas atividades ou sensações puramente por uma ideia preconceituosa.

A mensagem que esta conferência proporcionou é clara, o desporto, para além de uma atividade física de múltipla importância pessoal e social, é também um direito a todas as pessoas que o desejem praticar, usufruir e viver. Porque o desporto não faz sentido se não for feito, à nossa maneira, de forma plena. Porque, realmente, não importa em que equipa jogas!

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