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Ser Masculino Discreto

ALP2018 masculino discreto

Na sátira Da apologia jocosa do Masculino Discreto, pode ler-se: “Em última análise o Masculino Discreto é uma fachada ou capa pública, reproduzindo um estereótipo masculinizante hegemónico, um padrão grandemente responsável pela própria estigmatização das formas mais ‘femininas’ de expressão.

Da mesma forma, podemos ler em “Michas”: conceito e impacto: “se forem homens não-hetero, criticarem as Marchas do Orgulho LGBT como um “carnaval não representativo” mas recusarem-se a participar em atividades semelhantes e assumirem posições homofóbicas e sexistas perante amigos, colegas e familiares, “para disfarçar””.

São dois textos que, mais do que concordar,  muitas vezes me revi e por vezes ainda revejo. Quantas vezes, com maior ou menor consciência, me retraí para não ser aquilo ou aqueloutro? Quantas vezes, com maior ou menor consciência, me protegi por trás de uma máscara para não ser acusado disto ou daquilo? E, ainda assim, me questiono também quanto de mim é, de facto, assim e não assado. Quanto de mim – de nós – é genuíno?

Estas são questões que me têm acompanhado desde pelo menos a adolescência, quando não queria sobressair de forma alguma, criando uma corrente de segurança através da minha própria invisibilidade que passava muitas vezes por me imiscuir na multidão. E essa multidão definitivamente não era nem L, nem G, nem B, nem T, nem I. Ou melhor, nessa multidão era criada a ilusão de homogeneidade, em que nenhuma pessoa L, G, B, T ou I se afirmava como tal. Porque as havia, percebi-o anos mais tarde. Como me é agora óbvio, havia várias pessoas que, tal como eu, criavam esquemas para escamotear a sua identidade. Algumas, inclusive, tornavam-se agressivamente homofóbicas, como que a esmagar com o punho o próprio reflexo.

À medida que fui abrindo portas dos meus armários fui tornando-me também mais genuíno, menos preso ao estigma e ao disfarce. E, no entanto, houve alturas em que quando me diziam que ’não parecia gay’ não conseguia evitar um sorriso nos lábios. Sentia, de alguma forma, orgulho por não parecer quem sou. Orgulho, pergunto, por não ser quem sou?

A pressão social é tantas vezes interiorizada que acabamos por nos convencer que algo de errado se passa connosco, que existe uma forma socialmente aceite de se viver dignamente, de nos darmos ao respeito, de não sermos como fulano ou fulana tal, de nos tolerarem. Mas esta promessa acontecerá apenas se seguirmos os seus padrões, apenas se nos tornarmos invisíveis, para não sermos desagradáveis, para não sermos excessivos, estridentes, histéricas. E há alturas em que o aceitamos. Engolimos o orgulho e tornamo-nos aquilo que não somos, tornamo-nos antes naquilo que querem que sejamos, marionetas de um teatro em que ao mínimo deslize é-nos apontado o dedo e somos rapidamente colocados e colocadas no lugar.

Bem sei que as teclas com que escrevo serão sempre mais aguçadas do que quando daqui me levantar e as deixar para trás. Mas o que quero aqui dizer é que, sejamos de que forma formos, importa ganharmos consciências das amarras que nos colocam para que consigamos delas libertarmo-nos. E aí sim, possamos ser livres, de forma plena, seja lá o que isso for para cada um e cada uma de nós. A diversidade é uma das ferramentas mais empoderadoras que podemos usufruir, porque podemos ser qualquer pessoa. Porque, na realidade, somos qualquer pessoa.

E, no entanto, perguntemo-nos quantos movimentos reprimimos ou quantos risos contivemos? A fachada impunha-se-nos perante qualquer vislumbre de liberdade e estas condicionantes, que a partir de certo ponto são auto-impostas, possuem uma influência transversal nas nossas vidas. Tanta que podemos chegar ao dia de hoje sem saber quem somos e o que é realmente nosso. O que é isto senão um grito de rebeldia, contra o sistema, contra qualquer imposição que nos limitou o viver? É pois aí que batemos pé e decidimos ir ao âmago daquilo que somos, a nossa identidade, o nosso género, como representações de toda a opressão que desabou e ainda desaba sobre nós mal nascemos. E então largamos de vez a máscara e tornamo-nos mulheres de barbas fartas e homens de pila feita à medida porque sabemos muito bem quem somos e não precisamos da porra de um atestado para o comprovar. E se for preciso metemos o punho boca adentro e pegamos no orgulho que nos obrigaram a engolir anos antes e trazêmo-lo de volta. E as nossas bocas rebentadas nunca nos souberam tão bem quando diante de toda a gente empunhamos o nosso orgulho bem alto. Às claras, a gotejar-nos a cara e o corpo. Sim, estes e estas somos nós, desengonçadas da vida, mas nada, nada discretas.

 

Imagem: Detalhe do Cartaz do Arraial Lisboa Pride 2018 pel’A Cristina Faz.

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3 Comments »

  1. Nem todos têm a vocação de heróis, suscitando comentários e condenações. Creio que há fases e situações na vida em que se pode ser mais herói (transgressor) do que outras. E há aqueles que têm de ser heróis à força, quando confrontados com situações-limite. (Discorrer sobre a normatividade e a relação individual e subjectiva com essa mesma normatividade situa o discurso num terreno movediço e difícil, que pode fazer apelo à criação de novas normatividades, por contraposição.)

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  2. Sabes, quando vi o cartaz reparei nesse boneco e pensei “Ah! É igual ao Pedro!”; depois disseram-me que era mesmo inspirado em ti. Não sei se te serve de consolo, mas para quem te conhece, o teu look já é marca registada – masculino discreto ou não, o Pedro José não passa despercebido. 😉

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