Maria Antónia Palla: A Autodeterminação De Género Não É Prioritária

Tem-se perdido muito tempo em colocar como prioridades assuntos que não são prioritários, porque interessam apenas a pequenos núcleos de pessoas. Essa coisa de escolher aos 16 anos se eu quero ser homem ou mulher. É absurdo! Quando existe um problema realmente real e que afecta toda a gente – e não só os jovens – que é, por exemplo, a questão da habitação.

Foi com alguma perplexidade que, num episódio do podcast Sem Filtro sobre a “Eutanásia, o Maio de 68 e a Cultura em Portugal” ouvi estas palavras da convidada, Maria Antónia Palla. A histórica jornalista, figura de destaque na emancipação da mulher na sociedade portuguesa, quando timidamente confrontada se não se poderiam resolver as duas coisas ao mesmo tempo, respondeu simplesmente que “não, porque não resolvem”. “A Assembleia é muito influenciada pelos média”, rematou.

É difícil entender o descrédito que apresentou numa questão que é um dos pontos basilares do feminismo: o género. O que é, o que representa, quão prioritário é e, aparentemente, quem dele toma posse. A autodeterminação de género, ainda que diga respeito a uma minoria, abarca sim todas as pessoas que pretendam desconstruir a inflexível rigidez imposta ao que é ser-se homem e mulher.

Dar a entender que é uma perda de tempo a discussão que houve no Parlamento, por influência dos meios de comunicação, é descredibilizar toda uma luta que tem sido construída ao longo dos últimos anos em Portugal para que vivamos todos e todas num país com uma das leis mais evoluídas no que toca à autodeterminação de género. Esta é uma luta que, apesar do veto do Presidente da República, ainda poderá ser ganha este ano no dia 12 de julho.

A questão da habitação é um debate que importa igualmente ter, é certo, mas não devemos colocar em confronto com outros assuntos, como se se excluíssem mutuamente, como se não pudéssemos ter uma discussão séria e aprofundada sobre um e outro. Forçar a escolha entre um tema ou outro apenas insinua desconforto sobre um deles, o que, precisamente pela discussão alargada que ocorreu no Parlamento nos últimos meses no que toca à autodeterminação das pessoas trans, não pode servir de desculpa para uma das mulheres que mais lutou por um país mais igualitário e livre para as suas mulheres. Desta forma, e ainda para mais vindo de dentro do movimento, soa a pouco, apenas isso.

Fonte: Imagem.

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