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A Liberdadezinha de Rita Fontoura

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Será que se fizesse uma birra sobre a minha vontade de ser rapaz, daquelas que deixam os pais doidos, que os fazem desesperar e por fim desistir, poderia vir a ser rapaz?”

É com este nível de argumentação que Rita Fontoura escreve no jornal Observador. Para ela, o sofrimento pelo qual as pessoas trans passam não passa de uma birra de crianças. A desonestidade intelectual é tanta que a cronista questiona ainda por que não pode ela então, na sua liberdade identitária, assumir-se “um golfinho ou astronauta?” Ora, confundir propositadamente noções do que é uma espécie e um canudo com as questões da identidade de género é, simplesmente, ofensivo. Ser-lhe dado espaço num jornal online é, no mínimo, preocupante. Mas a Rita não se fica por aqui…

Já muito se disse sobre a ideologia de género que nos tem vindo a ser crescentemente imposta sob o argumento da liberdade. Deixo para os juristas e para os médicos as explicações, que darão muito melhor do que eu, sobre os perigos das questões relacionadas com a vontade velada de baralhar os nossos jovens no que respeita ao seu sexo.” Não, cara cronista, os perigos que jovens enfrentam sobre a sua identidade de género passam precisamente por crescerem com a ideia, passada por pessoas como a Rita, de que não sabem quem são, nem sabem o que sentem. É precisamente essa a sua liberdade. E se a tão esclarecida comentadora não acredita, basta que efetivamente escute o que profissionais de saúde e pessoas que lidam diariamente com crianças e adolescentes trans têm a dizer sobre o assunto.

Rita Fontoura parece continuar na sua cruzada contra tudo o que são questões LGBTI e de Género, um mimo para este espaço, portanto. Ainda esta semana, sobre um relatório que denunciou que um terço de jovens LGBTI teme pela sua segurança em ambiente escolar, achou-se convencida de que a própria “recolheria com grande facilidade mais de 600 questionários em que a resposta seria que não existe homofobia nas escolas para os alunos com preferências sexuais alternativas.” A Rita tem tantas certezas sobre esta temática que se esquece de questionar o porquê da sua crença. Mas antes disso, importava que se desse ao trabalho de se informar e, se fosse realmente interessada como os seus vários textos o deixam adivinhar, fosse para o terreno e conhecer jovens e adolescentes que se deparam com preconceitos e ódios contra si por serem LGBTI. Mas essa é uma realidade que não comprovaria a sua falácia e, como tal, não tem interesse explorar para lá de algumas crónicas de um jornal online, não é verdade?

E, já agora, a expressão preferência sexual (ou opção sexual) é um termo que entrou em desuso há mais de duas décadas, pensar-se-ia que para uma pessoa com um trabalho como comentadora seria tempo suficiente para entender aquilo que quer dizer: orientação sexual. Mas, lá está, não convém ao seu discurso a claridade do termo contra o peso da expressão que utilizou. Não, Rita, as pessoas LGBTI não têm preferência em serem quem são, não o escolheram, tal como, aliás, as pessoas cis e hetero não escolheram sê-lo. Não julgue que nos apanha com essas insinuações nas entrelinhas, mas continuemos para acabar:

Infelizmente, em geral o que ouve um jovem que se depara com uma atracção pelo mesmo sexo é: “Boa, és gay, quando vais assumir?” em vez de “Já pensaste no que isso pode querer dizer? Nós sentimo-nos atraídos por aquilo que vemos como um bem, algo que queremos para nós. Nesse sentido será que a tua atracção não será porque gostavas de ser como ele?”

Volta a haver tanta coisa errada em apenas um parágrafo que não tem ponta por onde se pegue, mas tentemos: primeiro, não é infeliz que uma pessoa assuma a sua identidade perante outrem. Tenho igualmente sérias dúvidas que, tirando no seu núcleo seguro que muitas vezes não faz parte a própria família, um ou uma jovem obtenha esse tipo de resposta. A experiência assim mo diz. A argumentação da diferença entre o ‘desejar ser como fulano tal’ ou ‘desejar estar com fulano tal’ é de uma criancisse tremenda. E noto, como quase sempre noto, o exemplo sempre no masculino, como se fosse esse, e só esse, o exemplo digno de referência, imagino pela maior gravidade.

O crescimento de qualquer pessoa passa por esta tentar definir-se. Nessa busca encontramos muitas vezes formas que, percebemos mais cedo ou mais tarde, não são partilhadas com a maioria da população. E garanto-lhe, cara Rita, que a orientação sexual de uma pessoa não é influenciada com uma milagrosa pergunta e uma pacandinha nas costas. Para uma pessoa que tanto escreve sobre liberdade, posso garantir-lhe que são essas pancadinhas nas costas – e quando não são verdadeiros punhais – que nos atormentam desde crianças, que nos fazem encerrar do mundo pela vergonha com que – desde crianças, relembro – nos tratam, nos manipulam e nos afastam. Tome de vez consciência que o tempo do armário e do diagnóstico que atesta quem somos pertence ao passado e que, indubitavelmente, as suas palavras causam dano. Não precisamos da sua liberdadezinha para nada!

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