Bem, vamos lá falar da Marcha do Porto

Na passada semana decorreu a Marcha do Orgulho LGBT+ do Porto e surgiu uma polémica entre um grupo anticapitalista e uma associação de empresas e turismo LGBTI, a Variações. O primeiro tentou impedir que a segunda participasse no evento. Há vários pontos que importam aqui referir, pois os comunicados que a organização da manifestação e a Variações espelham bem aquilo que está aqui em causa: de quem é, afinal, a Marcha?

Esta questão inicial não deixa de ter o seu grau de provocação, afinal de contas a Marcha é organizada e/ou participada por diversas pessoas, grupos, associações e partidos. Não será difícil de entender que haverá pontos e ideologias, arrisco aqui dizer, radicalmente distintas entre todas estas entidades, pessoais ou organizadas. É pois responsabilidade da organização de um evento público como a Marcha criar as condições necessárias a que todas as partes participem na mesma e façam parte do evento, numa lógica de inclusão, ainda que haja posições díspares entre elas. Dito de outra forma, a Marcha, sendo uma manifestação pública, é de todas as pessoas que nela queiram participar.

Mas, e embora a inclusão seja aqui um ponto fulcral nesta questão, não significa obviamente que esteja a defender trazer-se para a Marcha um grupo que coloca em causa os pilares da mesma ou surja como uma contra-manifestação, por exemplo, por parte de um grupo fascista. Estamos aqui a falar, relembro, de uma associação de comércio e turismo LGBTI de Portugal sem fins lucrativos. É pois uma associação que representa pessoas empregadoras cujas empresas estão focadas no público LGBTI e que igualmente empregam pessoas LGBTI. Ou seja, ainda que possa ter como base, genericamente falando, um sistema imperfeito, existe neste caso concreto um empoderamento da população representada no evento em questão.

Ora, quando a Organização da Marcha do Orgulho LGBT+ do Porto decide vetar a presença do autocarro da associação em causa pois “entende que as associações devem fazer-se representar em pé de igualdade e não mediante o poder financeiro para exibir as suas bandeiras” é uma decisão, no mínimo, questionável. Porque, e volto mais uma vez a frisar, a Marcha é uma manifestação pública e, como tal, está no direito de uma associação – ainda para mais sem fins lucrativos, mas ainda que fosse! – de participar na mesma. Cabia, sim, à Organização arranjar forma de entidades externas à mesma poderem participar devidamente no evento, tal como acontece noutras Marchas do país, aliás. Sugerir que “utilizassem os materiais usados pela maioria das pessoas presentes na Marcha (faixas, pancartas, cartazes, palavras de ordem)”, é limitar a liberdade na forma de se exprimir um coletivo de pessoas. Soa a autocensura, soa a rasurar por baixo todo o trabalho que é desenvolvido para que a manifestação aconteça.

Quanto ao contacto da Variações sobre o autocarro às entidades públicas (PSP e CMP), esta não fez mais do que o seu dever, dado que é sua responsabilidade o aviso prévio para que pudesse participar, como é seu direito, na manifestação.

No próprio dia, “um grupo de manifestantes impediu a circulação do veículo, exibindo uma faixa [anticapitalista] e proferindo insultos às pessoas LGBTI e outras que se encontravam a bordo.” Ora, este cenário aproxima-se precisamente do de uma contra-manifestação, em que um grupo de pessoas impede outras de participarem livremente na Marcha que estaria prestes a ter início. É a este grupo de contra-manifestantes que importava ter tido a ação devida por parte da organização no próprio dia, ou, não sendo possível, no comunicado partilhado dias depois.

Acredito que possa ter havido algum problema de comunicação entre as partes envolvidas, algo que tende a acontecer neste tipo de eventos. Ainda assim, importa que se rectifique devidamente estas falhas, mas também que fique clara a resposta à questão inicial aqui lançada. Não, um evento público como uma Marcha do Orgulho LGBTI não é de capitalistas, nem de anticapitalistas, nem de esquerda, centro ou direitas políticas, não é de A ou B, nem minha nem tua. A Marcha do Orgulho LGBTI é de todas as pessoas e entidades que nela queiram participar respeitando o Estado de Direito Democrático.

Cabe portanto a quem, com esforço, dedicação e orgulho, organiza um evento destes criar as condições que permitam a coexistência de todos estes grupos. Porque a Marcha é de e para todas as pessoas que ali se fazem representar. É esse o desafio para 2019.

Anúncios