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Orgulhosamente Arco-Íris

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Encontro-me em pleno século XXI e pertenço à geração mais nova, há quem diga até que sou uma millennial. Mas a verdade é que ainda não existe a liberdade plena para escrever sobre a temática da homossexualidade. Ainda me confronto com os seguintes números: 73 países a nível mundial que consideram a homossexualidade uma doença ou crime; e, apenas 23 países reconhecem e legalizam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em paralelo, torna-se deveras importante as seguintes datas: em 1975 a Associação Americana de Psiquiatria deixou de considerar a homossexualidade uma doença; nos anos 80 a homossexualidade é descriminalizada; e, em 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS) retira a homossexualidade da lista de doenças mentais.

Mediante tal, e conjugando com o panorama atual da realidade social específica da comunidade LGBTI, surge um cenário assustador e incongruente. Nos países que consideram a homossexualidade uma doença ou crime praticam-se terapias de reversão, mediante técnicas dolorosas e sofredoras para o indivíduo, bem como recorrem ao internamento em alas psiquiátricas. De notar que a criminalidade é praticada por via de agressões físicas, verbais e/ou psicológicas, pelos seus pares ou até mesmo no seio da sua estrutura familiar. Portanto, são países que não promovem a igualdade e que se regem fortemente pela heteronormatividade.

É importante mencionar que antes da descriminalização da homossexualidade os sujeitos sofriam de perseguições, internamentos e trabalhos forçados, uma vez que a sociedade se regia pela ideia de que os mesmos praticavam vícios contra a natureza, sendo assim definidos como criminosos.

Presentemente, e particularizando para os países em que a homossexualidade não é considerada crime ou doença, constata-se que existe uma acentuada incongruência entre a realidade social e as leis regentes. A verdade é que se verifica que a nível político existem ações no sentido da promoção da igualdade, permitindo assim que gradualmente assistamos a uma mudança geracional. Nomeadamente, nas gerações anteriores a discriminação era quase como normalizada, banalizada, na qual o problema se centrava na homossexualidade e desconhecia-se o conceito de homofobia. Tal já não acontece nas gerações recentes.

Contudo, a sociedade ainda não está preparada para fazer face a tal legislação, no sentido de promover a igualdade. É necessário consciencializar, instruir e educar os cidadãos, só desta forma é que será possível existir uma congruência entre a realidade social e as leis, gerando-se assim uma mudança profunda sobre o paradigma da sexualidade humana. Por conseguinte, tornar-se-á visível a discriminação e o preconceito, que ainda existe para com a comunidade LGBTI, sendo a mesma sustentada por argumentos de diferente cariz, por exemplo culturais, religiosos ou médicos (doença vs não doença, genes causadores), entre outros.

Ao refletir sobre esta situação e olhando para a história da sexualidade humana, na qual a homossexualidade era normalizada na Grécia Antiga e na Idade Média, não tendo qualquer julgamento associado, torna-se ridículo e irracional que tenhamos retrocedido…

Particularizando para um nível mais micro, mais individual, é relevante falar e focar sobre a dimensão psicológica, bem como emocional do sujeito homossexual. Confesso, sendo eu lésbica, que é muito difícil lidar com a sociedade em que me insiro! Sim, existe uma mudança significativa de como os demais encaram a homossexualidade, mas em última instância ainda não consigo ser eu mesma na minha plenitude. Mais, não preciso que me aceitem, mas exijo respeito. Posso não aceitar alguma situação específica do meu quotidiano, mas a minha educação e valores promovem o respeito para com tais. Para se viver em sociedade deve imperar o respeito.

A minha história sobre o coming out, na gíria popular utiliza-se a expressão “sair do armário”, não foi fácil. Inicialmente, deparei-me com um interesse físico pelos indivíduos do meu género. Sou capaz de ver um homem e não sentir nada, mas quando vejo uma mulher as pupilas dilatadas e o suor começa, típico desejo sexual! Contudo, sempre fui confrontada com a heterogeneidade instalada na sociedade, o normal é um homem com um mulher, e não um homem com um homem ou uma mulher com uma mulher. Então entrei numa fase de negação, sempre pensei que conseguiria esconder “isto” de mim, da minha família e dos meus amigos, pensei para mim mesma: “não, eu não posso e não sou lésbica”.

Confesso que cheguei a ter um namorado e a sentir-me “normal”. Meu Deus, o que é isto de normal!? A luta e a confusão instauradas no meu interior era demasiado e sufocante para mim, afinal de contas sou apenas uma criatura de um metro e meio! Para os mais atentos, no meu relato constata-se a predominância do verbo escolher, ou seja, eu escolhi por quem e de que forma me sentia atraída pelos meus pares. Esta conjugação está errada, eu não escolhi, eu sou homossexual. Nasci assim e orgulhosamente me identifico como tal!

Comecei então a iniciar este processo de autodescoberta e de fortalecimento da minha identidade na esfera da sexualidade. Confesso que não foi fácil, não está a ser, pois este processo de construção de identidade não termina, diariamente é reestruturado, fortalecido e construído.

Surgiu um dia em que decidi contar aos meus amigos e família… É complicado contar à família, uma vez que é um dos pilares mais importantes para a construção da identidade, bem como para o desenvolvimento do indivíduo. É mediante a mesma que obtemos os nossos modelos de referência, repertórios comportamentais, entre muito mais. Em simultâneo, existem expetativas geradas sobre os filhos, nomeadamente deixar descendência, e quando estas mesmas expetativas são destruídas promove-se um espaço para o sofrimento e desilusão entre os progenitores e os indivíduos homossexuais. Nestas situações específicas, deve imperar o amor incondicional, a aceitação e respeito pelos filhos.

Agora direciono-me a ti, tu que estás “dentro do armário”, acredita em mim quando te digo que não estás sozinh@, tudo vai correr bem, és e serás sempre amad@! Estaria a desvalorizar e descredibilizar a tua história ao dizer que sei o que sentes, que sei o que estás a passar. Posso é dizer-te que compreendo que seja um processo complicado, que seja sufocante e angustiante ter toda essa confusão dentro de ti… Mas, aqui no arco-íris consegues ser tão mais tu e o peso que perderás será enorme.

Cada um é como é, específic@, únic@ e especial, sempre que te disserem o contrário lembra-te de tal. Ah e não te esqueças foste o espermatozoide mais rápido a fecundar o óvulo e és feit@ de poeira estrelar, serás sempre @ melhor e cintilante!

Finalizo, citando Erik Erikson: “In the social jungle of human existence, there is no feeling of being alive without a sense of identity.

 

Fotografia por kevin laminto no Unsplash.

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