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Vamos falar de TQIA+

Queer TQIA Identidade Género Pansexualidade Pansexual

Hoje aconteceu-me algo que já há alguns anos não experienciava. Recordo-me de uma das primeiras vezes que tal se sucedeu comigo, teria eu 17 anos e estava com amigas a passar férias em Peniche (ou Péniche, como gostamos de dizer). Lá, conhecemos dois rapazes gays com quem começámos a sair à noite e a ir à praia. Numa dessas noites, já só restava eu e um dos rapazes, conversávamos com dois homens cis heterossexuais sobre sexualidade e identidade sexual. Na altura, identificava-me como lésbica e, quando assumi isso, obtive a resposta: “Ah, isso é porque ainda não encontraste nenhum homem que te satisfizesse.” Por mais que a teoria da “pila certa” fosse verdadeira relativamente à performance dos meus anteriores parceiros sexuais, essa não era, obviamente, a razão para eu me identificar como lésbica.

O que ocorreu hoje foi algo semelhante. Conversava com amigos no café já não me recordo bem sobre o quê, tal foi a minha intempestividade, e um dos meus amigos diz-me: “Deixa lá, os homens casam com magras e depois traem-nas com as gordas.” Ora, esta expressão por si só já levanta alguns problemas, os quais não abordarei pela sua evidência. Respondi “Eu não me quero casar com um homem (entenda-se cis).”, “Então queres casar-te com uma mulher?”, “Não, não me quero casar. Mas não me vejo a passar a minha vida com um homem. Poderá ser uma mulher ou uma pessoa de outro género, mas homem duvido.”, “Pessoa doutro género como assim? Só há homem e mulher.

Ora, aqui começou a parte complicada. Tentei explicar que me identificava como pansexual e demissexual (a última foi imediatamente designada como uma espécie em vias de extinção). A pansexualidade foi equiparada com a bissexualidade. Expliquei que não eram noções sinónimas, mas a questão permanecia: que outros géneros? Disse que existiam pessoas trans, pessoas agénero, pessoas andróginas, pessoas que se identificam com os géneros masculino e feminino simultaneamente, pessoas queer, butch, femme, só para dizer alguns. Resposta imediata: “Oh, isso são tudo paneleirices!” (novamente, expressão problemática sintomática de homofobia internalizada). “Então e a biologia?” foi outra questão colocada. Expliquei que o género é uma construção social, pelo que não nascemos condicionados a ser “homem” ou “mulher”. “Então tu és o quê?” Boa pergunta. Há muito que questiono o meu género. Sei que não me sinto homem trans, nem mulher cis. Sinto-me uma pessoa “Queer.”, respondi. “Oh, deixa-te de tretas.

Esforços educativos à parte, vou partilhar o que senti. A descoberta da minha sexualidade foi e ainda é um processo doloroso de crescimento, resultado de vivências por vezes não muito agradáveis. Foi através de uma série de experiências sexuais frustradas que eu me apercebi que não tinha prazer no sexo se não tivesse estabelecido previamente um laço com a pessoa. Foi a ver programas como RuPaul’s Drag Race e Naked Attraction (don’t judge), filmes como Boys Don’t Cry e Something Must Break e vídeos no YouTube de ContraPoints e Riley J. Dennis que descobri que me sentia atraída por pessoas que não se identificam com o binário de género. Foi quando comecei a ter disforia corporal, ou melhor, quando percebi que aquilo que sentia relativamente ao meu corpo era disforia corporal e quando comecei a ler mais sobre questões de género que questionei a minha identidade enquanto mulher cis. Ora, ter dois homens cis heterossexuais a dizerem-me que a compreensão que eu adquiri da minha sexualidade e identidade de género é algo que não deve ser tomado a sério porque “hoje em dia inventam nomes para tudo, até para coisas que não existem” é precisamente o mesmo tipo de situação que aconteceu comigo há uns anos – tentam tornar-me invisível. Senti-me ofendida, com raiva, triste, invalidade, abjeta, como se a minha vida não fosse tão digna de contar como “vida” porque se baseia em conceitos sobre sexualidade que para eles não são concebíveis. Então, como poderei eu existir, para eles?

Este momento também foi importante para mim porque pela primeira vez admiti perante alguém que me identificava como queer e como pan. Provavelmente, não foi o momento certo, nem pelas razões certas, nem com as pessoas certas. Aliás, foi uma atitude impulsiva, um manifesto da raiva que se estava a fazer sentir em mim, uma forma de sugar as lágrimas que queriam escorrer cara abaixo. Desvalorizaram-me e às pessoas da minha comunidade. Ridicularizaram uma parte da minha identidade que para mim é tão crucial. Contudo, continuo aqui. Não foram capazes de me apagar. A minha presença, a minha voz, as minhas expressões faciais, as minhas afirmações, a minha confiança incomodam-nos. Mas eu estou aqui. Sou queer. Sou pan. Sou pessoa, não menos que outras pessoas. Por isso, não tentem convencer-me de que a minha vida é menos que a vossa, que a nossa. Tenho orgulho em pertencer a TQIA+.  Nós existimos. E não arredaremos pé.

 

Max

 

Fonte: Imagem.

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