A Carta

Meu amigo, há muito tempo que eu não escrevia uma carta. Vives numa cidade que eu não conheço, num país distante. Durante muitos anos, viveste na sombra e no medo. Quando foste criança, não houve quem te dissesse que o amor é lugar para todos e que não é vergonha, nem defeito, nem doença. Nessa altura, não podias querer certos brinquedos, nem vestir todas as cores. Foste descobrindo muitas formas de fechar, subtis e silenciosas.

Aos poucos, foste percebendo que era preciso cuidado — no que dizias, para quem olhavas, na música que ouvias, na forma como caminhavas — porque um gesto ou uma palavra podiam arruinar o teu segredo. Eras feito de incerteza. Nos livros que lias na escola não encontravas ninguém como tu. Nos filmes que vias em casa, com a tua família, ninguém como tu. Nem as ruas traziam alguém como tu. E se, por breves instantes, te contavam qualquer coisa, um pormenor, uma história, de alguém como tu, nunca trazia um sorriso. Para os outros miúdos eras estranho, diferente. Foste crescendo e as palavras também foram mudando e magoavam mais, calavam-te mais.

Um dia, quiseste dar a mão ao teu melhor amigo e levá-lo ao cimo de uma montanha, longe da cidade, onde pudesse haver um beijo. Contaste-lhe o teu sonho e ele nunca mais te falou. Durante muito tempo, prometeste esquecer quem eras e o que realmente sentias, até finalmente perceberes que o silêncio pode ser uma prisão difícil de suportar. Falaste com os teus irmãos, ao fim de muitas noites, muito medo e muitas pausas. Eles forçaram-te a uma promessa. Os pais não podiam saber. Nunca. Seria um desgosto irreparável, uma vergonha demasiado pesada, um luto que não teria fim. Era preciso esconder, mais uma vez. Fingir. Deixar curar.

E os anos passaram. E os teus pais, enfim, descobriram. Uma fotografia com o teu namorado, perdida num livro. Trancaram-te em casa, assim que chegaste, até lhes prometeres que nunca mais deixarias a máscara, que nunca mais voltarias àquele rapaz nojento e doentio. Ameaçaram-te e denunciaram o teu namorado às autoridades. Não demorou a cumprir-se a sentença. Despiram-no, vendaram-no, lançaram-no de um prédio e, mesmo tendo sobrevivido, foi ali mesmo apedrejado pela multidão que assistia. Pensou em ti, antes da queda. No teu nome, nos teus olhos, no teu abraço. Pensou no teu casaco, no dia em que se beijaram pela primeira vez. Foi assim que ele se despediu de ti.

Ninguém é inquebrável. Por isso, decidiste fugir. Para outra cidade, onde ninguém te conhecia. Pensaste na tua morte, várias vezes, noutro país, talvez, mas essa terra tem tanto de ti, e tu tanto dela, que seria tenebroso partir. Trabalhaste, vieram novos amigos, outra rua, mas os teus irmãos nunca te foram visitar e os teus pais morreram sem realmente te conhecer. Uma noite, vieram buscar-te e levaram-te para longe. Foste humilhado. Não sabemos quem. Foste torturado. Não sabemos onde. Pelas tuas fotografias, chegaram a outros e também os levaram. Outros como tu. Outros como eu. E agora estás aí, deitado na tua cela. Amanhã serás enforcado e eu não vou lá estar para te salvar.

Como é que eu posso dizer que tudo vai melhorar? Para que serve esta carta se não te liberta? Quem é que vai ouvir? Como seria bom estares deste lado. Poderes sair com os teus amigos, com o teu namorado, deixar-lhe mensagens. Poderes convidá-lo para jantar, dar-lhe a mão pela rua, fotografá-lo, dançar com ele. Um beijo, enquanto esperam pelo autocarro. Poderes apresentá-lo à tua família, organizar-lhe uma festa de aniversário. Dizeres no trabalho que foste de férias com ele, que ele te pediu em casamento. Sem serem perseguidos nem vigiados nem insultados. Sem serem detidos, condenados, enforcados e depois esquecidos.

Porque isto não é só uma história. Porque isto não é só uma carta. Porque afinal tu também vives no meu país, tu também dormes nesta cidade. És meu vizinho. És meu colega de trabalho. És meu amigo. Tu pertences. Para ti, não é tarde demais. Para muitos, a vida está agora a começar. Não tenhas medo. Continua. Tudo pode melhorar. Tudo vai melhorar.

Lisandro Castro

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