O que significa hoje um CDS mais pobre?

Nos últimos dias temos assistido a voltas e reviravoltas na polémica proposta do CDS sobre as passadeiras arco-íris. Se de início a iniciativa levantou inúmeras dúvidas sobre as reais intenções do partido, a verdade é que, pouco depois, facilmente percebemos que não era simples areia para os nossos olhos, era, na realidade, muito pior que isso.

E não me refiro aqui à proposta das orgulhosas passadeiras, mas sim à forma como o partido reagiu às mesmas e este tema se tornou num caso político nacional, obrigando a líder do CDS, Assunção Cristas, inclusive, a afastar-se da iniciativa: “O CDS não se revê neste tipo de iniciativas e a estrutura concelhia de Lisboa garantirá que situações destas não tornem a ocorrer.” Aliás, mais do que se afastar, repudiou-a. E o que significa então isto para o CDS?

Pelo menos já houve duas respostas. Contra esta tomada de posição partidária, influenciada também por movimentos ultra-conservadores dentro do partido, o vereador Vítor Teles, um dos autores da proposta, desvinculou-se do CDS, tal como o fez hoje também Romeu Monteiro, até então um militante do partido assumidamente gay.

E é nisto que o CDS fica, mais uma vez, a perder. É que em vez de começar, por fim, a dar provas de humanismo através da defesa dos direitos humanos, LGBTI incluídos, tal como restantes partidos começaram a fazer há mais de uma década, afunda-se num conservadorismo que apenas valida e dá força aos movimentos partidários da extrema-direita. Apesar de todas as críticas que por vezes aqui escrevo à Direita portuguesa, acredito piamente que os direitos humanos não são, nem devem ser, bandeira exclusiva da Esquerda portuguesa.

Ao serem usados argumentos decalcados daqueles que a extrema-direita usa, o CDS pode julgar estar a demarcar-se da esquerda, mas a verdade é que se está, sim, a colar ao grupo mais conservador que encontra no seu núcleo e à sua direita. Este é precisamente o tópico errado para procurar demarcações, porque se tratam de direitos fundamentais e esses deviam ser defendidos em uníssono por todos os partidos, da esquerda à direita.

Ao escolher a colagem ao discurso mais conservador – e homofóbico e transfóbico e xenófobo – o CDS está a empobrecer os seus valores humanistas, dando voz e poder àqueles que sempre tiveram este tipo de discurso. Porque, desengane-se Cristas e influências internas partidárias, os votos serão perdidos para os partidos assumidamente LGBTI-fóbicos, porque são eles the real thing.

A resistência dentro do CDS a estes movimentos seriam agora de especial importância, mas o partido, que leva nas suas listas às eleições legislativas nomes assumidamente preconceituosos, parece estar a caminhar para um ponto de não retorno. A ânsia de regressar ao poder parece ter-lhe espicaçado uma tomada de posição ainda mais conservadora do que aquela que, na realidade, sempre encontrámos. Encontrar um ponto de ruptura com esse lado obsceno da história do partido (que todos os mais antigos partidos terão) seria precisamente um ponto de diferenciação, humanismo e pujança política. Assim, Assunção soa simplesmente a derrotada pelo que de pior tem o seu partido. Em vez de uma epifania, Cristas troca um novo futuro do partido por trinta moedas de obscurantismo. Ao contrário da população LGBTI portuguesa, de pouco lhe valerá.


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