Debaixo de uma pedra mármore

Foi após a 20ª Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa que, chegado a casa exausto mas ainda em euforia da celebração das últimas horas, decidi tirar uma fotografia com uma bandeira arco-íris atrás de mim. Era uma espécie de ponto final àquele percurso, iniciado meses antes, e que tinha culminado nas 15.000 pessoas que se juntaram para celebrar efusivamente o Pride. Publiquei a fotografia julgando eu ser o meu ponto final sobre o assunto. Na manhã seguinte tive duas pessoas a responderem que achavam que eu ficava melhor “debaixo de uma pedra mármore.” Que é como quem diz “morto.”

A liberdade de expressão não é – nem pode ser – absoluta e vazia, porque traz no seu conceito a proteção de grupos historicamente perseguidos. A Liberdade não é carta-branca para o discurso LGBTIfóbico, racista, xenófobo, misógino ou religiosofóbico. E, no entanto, aqui está quem o faça e se proteja debaixo de uma alegada liberdade de expressão. Recordemos que “a liberdade de expressão está balizada na lei. O discurso de ódio e as ameaças de morte configuram crimes previstos no Código Penal. A liberdade de expressão é inclusiva e estas pessoas em concreto apenas querem legitimar a violência e a opressão homofóbica.

Confesso, na altura nem me apercebi do impacto que aquelas mensagens de ódio iriam ter em mim. Afinal de contas não foram sequer a primeira vez que me foram dirigidas mensagens deste teor. De início fiz-me forte, respondi-lhes à altura e denunciei-as, mas, à medida que as horas passavam, aquelas palavras foram tomando-me a mente. Estaria eu melhor debaixo de uma pedra de mármore? Estaria eu melhor morto? Para quem outrora ponderou essa hipótese, é uma questão que me assombra de tempos a tempos, e é especialmente cruel quando alguém nos força a pensar nela. Questionar-se-ão sequer do impacto que tamanha barbaridade tem em alguém numa altura de maior fragilidade?

O que aconteceu a seguir foi um momento de união e partilha por pessoas que não podiam ser mais diferentes entre si. Para além do apoio na denúncia das mensagens de ódio e ameaças de morte que levou o Twitter a remover as ditas respostas, descobri, por exemplo, que a única confusão que o sobrinho do Afonso sente ao ter dois tios é que ao chamar por um respondem sempre os dois; que numas festas populares alguém decidiu abandonar o espaço, pois já estava farto de ouvir piadas sobre gay e ameaças indirectas de “hoje apetece-me bater em alguém”; que o Trumps foi a primeira discoteca gay do Hugo, tinha ele 24 anos, e foi a primeira vez na vida em que se lembra de dançar livremente, sem pensar duas vezes; que o João arrepiou-se e chorou ao fim da tarde quando um amigo, estreante no Arraial Lisboa Pride, lhe disse ser uma pena que só ali consiga sentir o que sabe ser; que o André conhece casos de miúdos quase rejeitados pelos pais na adolescência por saírem do armário, “conheço depressões e conheço tentativas de suicídio.

A quantidade de mensagens e histórias que vi partilhadas como resposta aos comentários de ódio, de todo o tipo de pessoas, e ainda que no micro-cosmos do Twitter, mostrou-me, mais uma vez, como as nossas semelhanças têm o poder de nos unir muito mais que as nossas diferenças. Porque a diversidade das nossas vidas não nos exclui, mas une.

A onda de apoio nos últimos dias deram-me assim força imensa para continuar a luta, porque, felizmente, tenho também uma rede de salvação, pessoal e profissional, que me ajuda a ganhar foco no caminho que preciso fazer. Espero estar à altura sempre que tente retribuir para este desafio da luta pelos direitos humanos. É a única resposta possível para que isto valha a pena.

Imaginem o que é viver isto escondido, armariado, sem uma rede de apoio por parte de família ou amizades. Imaginem enfrentar este tipo de discurso de ódio e ameaças de morte na solidão, na vergonha. Felizmente, já não sou – por completo – uma dessas pessoas, mas já o fui. Alguém com medo de ser adivinhado, medo de falar, medo de sentir, medo em ser. E, no entanto, sei de várias pessoas que ainda não conseguiram dar esses passos. Não por fraqueza, mas pela pressão descomunal que este ódio gera nelas. É por isto que a saída de armário é transversalmente difícil e muitas vezes hesitamos, negamos, mentimos. Muitas vezes por uma questão de sobrevivência, e dessas umas quantas de forma literal. Imaginem a simples presença em espaços públicos poder ser-nos uma ameaça. Ainda esta semana, não por acaso, foi noticiado o caso de um jovem, o Gonçalo, que foi vítima de ataques transfóbicos em plenas ruas de Coimbra. Também pelo Gonçalo e por todas as pessoas que de alguma forma já sofreram este tipo de ataques – e muitas sofrem-no diariamente – precisamos de mais Arraiais, mais Marchas, de muito, muito mais Orgulho!

Por isso celebramos quando alguém sai do armário, porque obriga a que tenhamos uma reflexão solitária sobre o que somos, obriga a uma tomada de coragem para que, emancipados e emancipadas, possamos enfrentar o futuro de cabeça erguida. É este o Orgulho que falo, verdadeiro rugido de quem, perante todas as adversidades que lhes são impostas, se afirma acima de todas elas.

Ainda que “apenas” online, ouvir alguém desejar-nos a morte é sempre um murro no estômago. Recebi naquele domingo dois deles que foram deixando marcas ao longo do dia. Sararão, eventualmente. Convosco um pouco mais rápido. Obrigado ❤️

Se forem vítimas ou assistirem a algum incidente/crime/abuso LGBTIfóbico devem reportá-lo no Observatório da discriminação contra pessoas LGBTI da ILGA Portugal. Anonimato garantido numa das ferramentas mais importantes contra a LGBTIfobia em Portugal.


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