Garantir Amor

Pleno ano de 2019, sendo que ainda faltam quatro meses para terminar, e continuam a existir headlines homofóbicos e promotores da propagação de discursos de ódio contra os indivíduos que não seguem a heteronormatividade imposta pela sociedade. Confesso que, sendo eu homossexual, quando leio tais fico revoltada, chocada, magoada e perplexa, é inconcebível em pleno século XXI com o avanço científico, tecnológico e económico constatado, que tenhamos retrocedido tanto a nível humano!

Estamos perante um problema à escala mundial (i.e., a homofobia instalada na sociedade) que está condicionado por um conjunto de inúmeras variáveis de distintas naturezas, são elas: culturais, socioeconómicas, políticas, científicas, interpessoais e intrínsecas ao sujeito. Neste sentido, estamos a falar de um tema sensível e de difícil solução, que exige um trabalho conjunto das várias esferas promotoras da ordem social.

Confesso que ainda tenho a utopia de um dia acordar e ser possível pegar na minha namorada e passear de mãos dadas sem ter de lidar com olhares de repugnação, de a levar a uma festa/jantar da minha empresa, de orgulhosamente a poder chamar de namorada e companheira aos 7 ventos, mas até lá teremos de debruçar sobre este problema tão tóxico e angustiante, que como todos nós sabemos é promotor de consequências nefastas para o ser humano (e.g., suicídio, depressão, baixa autoestima), com delicadeza, com empatia, com amor, com respeito.

A título de exemplo destes headlines, cito os seguintes: “Casal lésbico espancado em autocarro de Londres por recusar beijar-se” (Jornal de Noticias, 2019), a minha questão é quando eu passar por um casal heterossexual se também poderei solicitar um beijo para satisfazer as minhas fantasias sexuais (prometo não utilizar violência)? Uhm, mas vá deixando o sarcasmo de lado, até porque sou uma mulher bem resolvida no campo da sexualidade, a adoção destes comportamentos agressivos por parte destes senhores representa não só a sobreposição do seu ego aos demais, ultrapassando a linha do respeito, bem como os parafusos a menos que têm e deveriam ser ajudados nesse sentido. Ademais, para satisfazerem essas suas fantasias lésbicas sexuais recorram à pornografia disponível que cada vez mais é facilitado o seu acesso, existem inúmeras e de vasta variedade, se precisarem posso compilar e enviar (ridículo)!

Outro, “Mulher ameaça e insulta casal de lésbicas que se beijava” (SIC Notícias, 2019), alguns apontamentos a reter do vídeo divulgado: a senhora era mãe, tinha uma criança no carrinho, portanto Oh God este discurso de ódio passará para a futura geração da sua família; este episódio ocorreu em pleno transporte púbico, a única pessoa que interpôs a favor do casal foi uma, apenas uma! Revelador do fenómeno da responsabilidade difusa (pesquisem é interessante) basicamente refere-se a um processo de influência social, sustenta-se no seguinte pressuposto: se estou rodeada por várias pessoas, então não serei eu a intervir na situação, o que é lamentável; último apontamento, reparem só na linguagem corporal deste sujeito, a aversão, o ódio que saía de cada poro do seu corpo, como é que é possível tal manifestação negativa perante o amor, o carinho, o afeto partilhado entre dois seres humanos?

O prémio para o melhor headline vai sem dúvida para o seguinte “Brunei defende morte por apedrejamento para gays” (Observador, 2019), felizmente, devido à pressão económica e política exercida após esta decisão ter-se tornado pública, esta pequena ilha do Sudeste Asiático suspendeu a decisão de aplicar a pena de morte aos indivíduos homossexuais pela prática de sexo gay. De notar que a homossexualidade já era ilegal e punível em 10 anos na mesma, o que é escandaloso, mas sustenta o mencionado anteriormente, que são este tipos de variáveis culturais que influenciam a homofobia instaurada na sociedade. Vejam só o argumento que o presidente utilizou para sustentar as suas decisões políticas: “Não criminaliza nem tem qualquer intenção de vitimizar alguém com base na sua orientação sexual ou crença, incluindo relações entre o mesmo sexo. A criminalização do adultério e da sodomia é para salvaguardar a santidade da linhagem familiar e do casamento de muçulmanos individuais, especialmente as mulheres”, já agora estamos em que século!?

Sucintamente, ainda temos um longo caminho pela frente naquela que é a luta pela igualdade, equidade e liberdade, promotora de justiça social, caramba estamos a falar de direitos humanos, é assim tão difícil de perceber!? Sim, mudaram muitas coisas desde do evento de Stonewall (1969), mas infelizmente ainda precisamos enquanto seres humanos de lutar muito mais, nomeadamente, o nós e o vocês implementados muitas vezes nos discursos atuais sobre esta temática, deveriam ser erradicados, somos todos indivíduos que procuram amor, que procuram um outro que nos complemente, nos preencha.

A garantia que uns têm sobre a liberdade de se manifestarem carinhosamente em praça pública, o direito do casamento e da adoção, bem como a liberdade sexual, outros infelizmente não as têm, é aqui que se encontra o cerne da questão. A única garantia que devemos ter é a do pôr-do-sol, a do nascer-do-sol, a das 24h diárias, a das estações do ano, são eventos que são essenciais à estabilidade e equilíbrio do Universo, sem elas não existiria vida. Não deveremos dar como garantido o outro e a relação com o mesmo, porque a qualquer momento termina, escapa, foge, desvanece. Contudo, o nosso ego como necessita de se alimentar e de se satisfazer, bem como sentir-se desejado, procura o outro, assim sendo deveremos viver cada segundo com o outro com intensidade, com amor, com paixão, com carinho, com respeito, porque estamos a criar um história, seja por um dia, por um ano, ficará preservada para sempre na memória.

Caramba, tenho de confessar que o amor é um dos melhores sentimentos que o ser humano pode nutrir por si e pelo outro, independentemente, do corpo, do sexo, do género, do etnia, do ESE, e de tudo o que defina o outro. Nunca, mas mesmo nunca, devemos sentir-nos mal ou envergonhados pelo amor que em certa altura tivemos pelo outro, mesmo que tenha sido doloroso, far-nos-á crescer e conhecermo-nos melhor enquanto almas românticas que deambulam pela cidade. É assim que gosto de ver a sociedade, cada um de nós à sua maneira manifesta o seu amor de forma especial e única!

Devemos espalhar o amor ao invés de discursos de ódio! Termino citando Emily Dickinson “Tudo o que sabemos do amor, é que o amor é tudo que existe.

Imagem por Sam Manns.


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