Por mais equipas mistas e casas de banho livres

Ontem, o Pedro Carreira publicou aqui no esQrever um artigo sobre a lei escolar e, em especial, dando destaque à forma como Laurinda Alves, jornalista com carteira profissional, abordou o tema numa crónica do jornal digital Observador. No artigo do esQrever, apresentou-se alguns pontos da lei que as escolas devem seguir. Ainda que possam parecer inexequíveis, têm todo o sentido quando se fala em questões e identidade de género. No entanto, Laurinda Alves parece não compreender estes tópicos e ainda faz uso de uma ironia suja para expor a sua opinião num jornal cujo público alvo é, maioritariamente, as novas gerações.

Ao longo de todo o artigo, percebe-se que a jornalista é muito assertiva nos seus ideais. Rapazes para um lado e raparigas para outro. Como se tudo se resumisse a masculino e feminino. Pois, Laurinda Alves chega a escrever a palavra género entre aspas. Não compreendo onde pretende chegar com esse recurso gramatical. O que sei é que a identidade de género, a expressão e orientação têm pano para mangas, tal como já escrevi anteriormente. Para além do mais, a jornalista refere a balburdia que seria nas casas de banho, caso passassem a ser frequentadas por indivíduos de ambos os sexos. Citando a autora, “Nem é agradável a quem não nasceu com a faculdade de fazer chi-chi de pé”. Ora, e eu que sou homem e adoro fazer chi-chi sentado. É tão mais higiénico!

“Ou seja, para te poder ajudar tens que baixar as calças e mostrar-me primeiro do que é que estás a falar. Então sim, se vir com os meus olhos, posso ir a correr dizer ao tal responsável. Bonito. A caridade sempre ficou bem à humanidade, com e sem género. Adiante”. Nesta citação, que foi muito bem analisada aqui no esQrever, a jornalista recorre, mais uma vez, à ironia para levar a crer que pessoas com identidade de género fora da norma fazem de tudo para ser reconhecidas e, de alguma forma, privilegiadas. Está muito enganada! Não há necessidade de fazer uso de uma caraterística pessoal para sobressair na sociedade. É apenas isso, uma caraterística. Que em nada afeta a relação interpessoal na sociedade.

Mais chocante ainda é o parágrafo em que a jornalista refere que um estudante em transição social de identidade e expressão de género não pode usar um nome autoatribuído, sem que neste caso entre a legislação em vigor. Ora, cara Laurinda Alves, se eu lhe quiser chamar de Lau Lau, eu chamo. Se eu quiser fazer chi-chi sentado, eu faço. Se eu preferir entrar na casa de banho das mulheres (e até prefiro), eu entro. Faço tudo aquilo com o qual a minha identidade de género mais se identifica. Não depende apenas de liberdade, mas sim do governo que pouco ou nada tem feito no que diz respeito à sensibilização nas escolas.

A minha expressão de género sempre se orientou mais para o lado feminino e foi por isso que, na escola, sempre protestei com o professor de educação física para me inserir nas equipas femininas. É por causa disso que, hoje, opto muitas vezes por entrar nas casas de banho femininas com as minhas amigas. Porque os espaços públicos são isso mesmo, de todos e livres. E, cara jornalista, nunca ouse colocar no mesmo parágrafo a palavra doença e transição social de identidade e expressão de género. Não queremos que os leitores dos jornais pensem que a comunidade LGBT sofre de alguma enfermidade, senão a partir de amanhã ninguém aparece no trabalho por estar de cama. O título da sua crónica (“Minorias de Estimação”) é ridículo, e os recursos estilísticos nela utilizados também.

Uma crónica é isto. É opinião. A autora da crónica aqui analisada apresentou os seus ideais e eu apresentei os meus. Aqui, no esQrever, sou livre. E posso escrever que gosto mais de ir às casas de banho ditas femininas e que prefiro fazer chi-chi sentado. Obrigado, esQrever e Pedro. Esta crónica foi difícil e até esteve para nem sair e terminar aqui a minha colaboração com o site. Mas faz sentido! Este espaço é de liberdade e visibilidade, é para isso que serve o digital e a internet.

Imagem: Pixabay


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