Empatia procura-se

No nosso dia-a-dia temos a oportunidade de nos cruzarmos com outras pessoas. O vizinho da frente que rega as plantas à hora que saio de casa e ainda assim o cumprimento de sorriso rasgado; a colega da secretária em frente que gesticula de uma forma estranha quando fala ao telefone e a imagino a fazer o mesmo comigo noutro dia; o homem que sempre encontro no jardim e conhece o nome do cão que levo desde o primeiro dia. E depois há a Leonor.

Eu não a conheço, mas a Leonor é uma menina que nas pautas da escola tinha o seu nome em branco. Uma menina que entrava em pânico quando precisava ir à casa de banho nos intervalos, que chorava ao colo da mãe desde os três anos por ter nascido diferente daquilo que é, daquilo que hoje compreende e sente. Também hoje temos lutas políticas que instrumentalizam o sofrimento da Leonor. Que a validam como “minoria de estimação”, que procuram anular despachos importantes na criação de um ambiente escolar mais saudável e protetor à Leonor e outras crianças e adolescentes cuja identidade ou expressão de género não são seguidos pela maioria da população.

Todo este irresponsável embate político tem consequências imediatas. Do deputado Bruno Vitorino, ao líder da Juventude Popular, Francisco Rodrigues dos Santos, passando também agora pelo líder da oposição, Rui Rio, todos eles são uma ameaça ao bem-estar e à segurança destas crianças e das suas famílias. Porque estamos a falar de um dos grupos mais estigmatizados pela sociedade, um grupo historicamente perseguido, invisibilizado, assassinado.

É neste contexto que, sem meias-palavras, importa perceber que esta campanha política não é mais que a validação de todo ódio, desinformação e demagogia usados vezes sem conta pelos movimentos da extrema-direita. Pergunto, onde está a sua empatia?

Numa lógica, talvez desesperada, de evitar a derrapagem nos próximos resultados legislativos, existe uma autêntica bolsonarização do rumo e da linguagem usada por quem nos representa. Está hoje do nosso lado defender a Leonor e as centenas de crianças e adolescentes que em breve começam um novo ano escolar. Está do nosso lado mostrar que este discurso preconceituoso, demagógico e absolutamente transfóbico não tem outra repercussão política que não uma clara reprovação nas eleições em outubro. Porque este não é o modelo de sociedade livre e inclusiva que queremos para Portugal. Porque a Leonor merece ter um dia um pouco mais fácil, uma ida à escola mais descansada para que possa crescer e desenvolver a sua formação saudavelmente. Mas não o fará sozinha, com ela estará todo o universo escolar que a acompanhará ao longo dos anos. E é aqui que entra a questão da empatia, porque é com ela que poderemos proteger uma menina como a Leonor. Porque mesmo que nunca me cruze com ela, ficaria tão mais aliviado ao saber que teve um belíssimo dia na escola, aliás, como qualquer outra criança. Haja empatia para tal.

Fotografia por Eliott Reyna.

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