#culturaqueer_6 “Histórias de São Francisco”: travecas, bichas e outres que tais

#culturaqueer é uma proposta de rubrica mensal com reflexões críticas sobre objetos artísticos que interliga cultura visual e questões de género, sexualidade e feminismo. Escrevo com a intenção não de tornar as minhas palavras uma verdade absoluta, mas de proporcionar um diálogo saudável entre membros da comunidade LGBTQIA+ e seus aliados, funcionando também como uma plataforma de aprendizagem pessoal. Por isso, convido-vos a enviarem as vossas propostas de análise, sejam exposições, obras de arte, obras literárias, música, teatro ou filmes – sharing is caring! – ou a partilharem as vossas opiniões. Começamos?

“Histórias de São Francisco”: travecas, bichas e outres que tais

Spoiler alert: Este artigo contém spoilers do episódio 4 “O preço do petróleo” da série “Histórias de São Francisco”.

O suor molhado escorria-me na testa. Sentia as calças a tornarem-se pele. Arfava que nem cão. Respiro muito alto quando tenho phones nos ouvidos, acho que tenho medo de me esquecer de respirar no universo paralelo em que os sons do mundo cessam a sua existência. Isso e estava a andar de bicicleta, exercício que provoca aceleração do ritmo cardíaco e consequente necessidade de oxigenação, obtido através de uma maior frequência do ritual respiratório. O senhor ao meu lado, por vezes, espreitava-me. Sentia o olhar em mim. É a minha respiração, estou a respirar demais outra vez. Além disso, o sol morno que se erguia entrava pela janela do ginásio, deturpando ligeiramente a minha visão do ecrã diminuto do meu telemóvel que eu tão encarecidamente tinha colocado à minha frente, num esforço para diminuir a tortura que é o exercício físico. (Sou prisão dos estereótipos de beleza da sociedade ocidental, então faço coisas desagradáveis que achava que só tinha que fazer até acabar o liceu, nomeadamente o dito exercício físico. Não me julguem.)

Eu não sou muito pessoa de séries, devo admitir. As duas séries que vi até ao fim foram “The L Word” e “Lip Service” (que, para meu desgosto, foi descontinuada), na altura em que eram as únicas referências de casais homossexuais no feminino (quase exclusivamente cis) e em que eu começava a descobrir a minha sexualidade não-normativa. Penso que é porque não vejo as séries como algo de produtivo e, infelizmente, eu tenho a tara de que tudo o que faço deve ter um propósito – e o mero entretenimento não é suficientemente valioso para que eu despenda o meu precioso tempo de forma exclusiva a engolir episódios inteiros e sorver os restos. Por isso, quando vou ao ginásio, junto o útil ao agradável. E foi assim que comecei a ver “Histórias de São Francisco”.

Antes de mais, gostaria só de deixar uma nota sobre diversidade e representação na série. Os personagens provêm de diferentes backgrounds, quer a nível de classe, etnia, idade, género e orientação sexual. Foi aquilo que me agarrou à série inicialmente, porque, sinceramente, achei-a um pouco aborrecida. Não tivesse eu insistido em vê-la após o primeiro episódio, não estaria preparada para assumir um compromisso com ela. De qualquer modo, “Histórias de São Francisco” tem alguns momentos interessantes e é sobre um desses momentos que gostaria de dissertar.

Retirado de artigo no The Advocate

No quarto episódio, existe um momento em que Michael leva o seu namorado Ben a uma festa íntima a casa do ex-namorado, Harrison. Nessa festa, os convidados, tal como Michael e Harrison, têm à volta de 50-60 anos, sensivelmente; Ben tem 28 (isto será relevante entretanto). Durante o jantar, os amigos de Harrison falam sobre uma viagem ao Peru, fazendo alguns comentários racistas sobre os peruanos. Entretanto, um deles começa a contar uma aventura, numa noite em que lhe tinham indicado uma discoteca gay para ir e, após grande esforço para encontrar o local, este encontrava-se, e passo a citar, “full of trannies” (“cheio de travecas”). Ben, depois de ouvir tal coisa, afirma “I don’t think that we use that word” (“Acho que não usamos essa palavra”). Silêncio.

O que acontece a seguir é interessante. Um deles reage, dizendo que não necessita de policiamento num jantar de bichas, ao que outro retorque que Ben também deve achar “bicha” um termo ofensivo. Enquanto Michael e Harrison tentam desviar o assunto, um dos convidados pergunta a Ben porque é que a geração dele (que é a minha também) é obcecada com rótulos. Ben responde que é uma questão de dignidade e visibilidade, que “devemos chamar às pessoas aquilo que elas querem”, especialmente quando nos encontramos numa posição privilegiada. Um dos senhores toma esta atitude como ofensiva e, condescendentemente, pergunta a Ben a idade, iniciando um discurso em como a sociedade os cuspia outrora, em como o mundo “não queria saber se [eles] viviam ou morriam”, em como o privilégio que ele possui enquanto homem branco de classe alta foi conquistado a muito custo, em como quando tinha a idade de Ben ia a funerais dos amigos que morriam de sida em vez de ir a festas, em como tudo o que a geração millenial pode agora gozar foi pelo esforço e luta da geração anterior. Ben abandona a mesa. Michael segue-o e o casal discute. Ben repete “A society that doesn’t care if we live or die.” Enquanto pessoa negra, Ben tem consciência de que os restantes navegam a vida de uma forma muito diferente devido cor da sua pele.*

Ora, para mim a resposta óbvia ao rant do cavalheiro seria “sim, isso é horrível e nunca perceberei o que é perder pessoas dessa maneira. Contudo, só porque as pessoas deixaram de vos chamar nomes, não significa que agora têm o direito de ofender outras pessoas, principalmente sabendo o que é ser ostracizado. Agradeço-te e à tua geração por tudo aquilo que fizeram em prol dos nossos direitos, mas isso não vos concede (ou não deveria conceder) o poder para humilhar os restantes membros de uma comunidade com uma diversidade imensa.”

Retirado da página do Facebook Pluriafetividades Diversas

Muitas vezes, oiço pessoas dizer “Ai, agora há nomes para tudo, para que é que complicam?” Isso irrita-me profundamente. A existência de mais vocabulário para descrever a identidade sexual de um sujeito não prejudica em nada a existência da pessoa que tece este tipo de comentários maldizentes. Em suma, é uma simples questão de “mais vale a mais, do que a menos”. Não preciso de saber de cor todo o nome para identificar toda a gente. Pode-se aprender à medida que é necessário. Poder-se-ia aprender mais se, de facto, a educação sexual no ensino público fosse devidamente planeada [recentemente soube que, na teoria, apenas se falam de questões LGBT (esqueçam lá o resto) no 12º ano, com um foco biológico e não social], mas isso é outra história.

Retirado da notícia no Out

Existem ainda outras posições perigosas para aqueles que, dentro da comunidade, possuem mais privilégio, nomeadamente pessoas LG. Exemplifico com um caso controverso que ocorreu no Manchester Pride, em que um grupo de lésbicas marchou com cartazes em que se liam mensagens como “A ideologia de género prejudica as lésbicas” e “Lésbicas não têm pénis”. Isto é grave. Primeiro, não percebo como é que a organização do evento deixou tal coisa acontecer. Segundo, são pessoas da comunidade a utilizar expressões de extrema direita (ideologia de género) que, na sua génese, envolvem a exclusão de indivíduos pertencentes a essa mesma comunidade. De que modo é que a existência de identidades de género trans ou não-binárias magoa pessoas que se identificam como lésbicas? De que modo é que este discurso de ódio, que surge num evento que deveria ser um espaço seguro para manifestação e celebração de identidades sexuais não-normativas, é aceitável, em nome de uma falsa noção de liberdade de expressão? E voltamos ao caso do senhor que acusa Ben de o censurar porque o último quis promover um discurso de aceitação de outros membros da comunidade LGBTQIA+. É o paradoxo da tolerância: ao tolerar o intolerante, o último prolifera.

Gostaria de concluir, pedindo a todes que sejam Ben’s e, quando alguém tecer um comentário malicioso, se manifestem. A assertividade em prol da igualdade é não só uma coisa bonita, mas uma pequena forma de sermos ativistas no quotidiano.

*Obrigada à Sara De Noronha Penaguião, que salientou a importância da identificação de Ben enquanto afro-americano, frisando assim a importância da interseccionalidade que o outro indivíduo desprezou no seu discurso.


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