Le Mal(e)

Surgiram fotografias antigas de um dos novos deputados eleitos com o seu companheiro de quarto. Falamos de uma pessoa com posições xenófobas, racistas e LGBTIfóbicas e que brevemente as defenderá no Parlamento. Estas são, ainda assim, fotografias com dois homens em pleno convívio, abraçados, a beber e a fumar, “todo um cenário homoerótico a que é impossível escapar“, segundo João Quadros. Como se não bastasse, o Insónias em Carvão tornou uma das fotografias num verdadeiro meme [acima]. Fazem estas frentes de batalha sentido? Insinuar sobre a orientação sexual do deputado é homofóbico? Como em tudo, importa perceber o contexto em que é dito um comentário ou feita uma piada. Vejamos.

Foram estas questões levantadas numa acesa discussão que importam aqui desconstruir. Não, a piada não é homofóbica quando é ele que, no Parlamento, irá defender as sua posições LGBTIfóbicas, nomeadamente contra uma alegada ‘ideologia de género‘. Qualquer insinuação deste teor só faz sentido dado o contexto de ódio da própria pessoa, porque é essa a sua incoerência. Por isto, não faria sentido repetir a piada com alguém que se posiciona a favor da liberdade e da igualdade de toda a população e que não espalha ódio contra minorias nos seus discursos e campanhas políticas. Até porque não é a homossexualidade (ou expressão de género até, se preferirem) que é aqui a punchline, mas sim ele próprio quando tão fortemente se opõe à mesma.

Não há receitas certas e absolutas na frente da batalha, todas elas são, na realidade, falíveis, como se tem visto pela ascensão da extrema-direita um pouco por toda a Europa ou com as eleições de Trump ou Bolsonaro. Isto não quer dizer que qualquer tipo de exposição é certeira, mas a sátira continua a ser uma das ferramentas mais eficazes no combate ao populismo crescente do discurso político. Até porque acreditar que é possível ter uma discussão séria (passo o pleonasmo) com um sujeito destes é uma questão de fé, porque ter uma conversa baseada na seriedade, na lógica e no respeito não é seu objetivo. Pretenderá, sim, entrar em populismos, alarmismos e desinformação. Ora, combater esse tipo de discurso sem perder postura séria é uma tarefa verdadeiramente gargantuana. Diria que até será impossível dada a especialização por parte de sujeitos como o do deputado recém-eleito. Talvez por isso mesmo assistimos a um debate pré-eleitoral em que a deputada Mariana Mortágua decidiu não lhe dirigir a palavra, nem sequer olhar para ele. Já a igualmente recém-eleita Joacine Katar-Moreira preferiu despedir-se do dito cujo sem lhe apertar a mão (ainda que tenha aceitado cumprimentá-lo assim antes do debate). E ainda assim não escapou a um episódio de vitimização por parte do pobre coitado que apenas a despreza no seu auto-entitulado discurso “anti-sistema” embora tenha sido o sistema político que o lançou com o carimbo de Passos Coelho, coerências

Este é um jogo político e social deveras complexo em que todas as partes falharam e falharão enquanto vêem adversários comuns avançar nas intenções de voto de uma população que, no meio deste alvoroço e por alguma razão, contra ela mesma vota. E isso, apesar da perplexidade e frustração que nos possam causar, não nos fará desistir e ver o futuro crescimento da extrema-direita como inevitável. Perguntemo-nos então, como travar este movimento? Como não sucumbir às suas exigências? Como não cair no seu jogo e tornarmo-nos pessoas realmente odiosas, estateladas na lama do seu ordinário jogo?

Ainda que imperfeita, levar ao ridículo as incongruências que tem um deputado de extrema-direita pode ser uma forma eficaz de o combater. E, neste caso concreto, a arma é atirar-lhe de volta com a homofobia e a transfobia que ele próprio difunde. Esta está longe de ser uma técnica nova, basta recordar o episódio em que Natália Correia (PPD) ridicularizou a posição contra a interrupção voluntária da gravidez do deputado João Morgado (CDS) em 1982, como bem recordou Francisco Louçã esta semana no Expresso.

Lembram-se do poema de Natália Correia sobre o ilustre deputado Morgado no debate sobre o aborto? Foi ela quem ditou a sentença e ele quem a mereceu. Antes de se atirar contra alguma frase venturista ou de levantar a sua indignação contra o que ele vai fazer todos os dias, pergunte-se como diria Natália Correia, que poema leria ou que imagem apreciaria. Seja Natália Correia. É que não há melhor forma de destruir o que não é sério do que tratá-lo como o que é realmente. O modo de sarcasmo em vez do modo de pânico é agora a resposta mais forte no espaço mediático e da opinião pública.

Usemos o sarcasmo para, sem entrar na fórmula de quem nos minora, elevarmos aquilo que defendemos. E uma pitada de inspirado humor não faz mal a ninguém, porque para chamarmos as coisas pelo nome meia palavra basta.


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Sucesso! 🌈
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