O estranho mundo de Luna, a criança trans que apenas a mãe quis proteger

O caso de Luna começou a ganhar especial atenção há uns meses. O pai, Jeffrey Younger, lançou uma campanha para ganhar a custódia total de Luna e do irmão gémeo, contra a sua ex-mulher, a pediatra Anne Georgulas. A acusação? A mãe quereria forçar Luna, uma criança trans, a fazer a transição de género contra a vontade da mesma. Mas até que ponto a mentira e a desinformação criaram o caos na família numa situação já de si sensível?

O pai, devoto ortodoxo, começou por duvidar das suspeitas da mãe e do primeiro diagnóstico de disforia de género feito por uma terapeuta. Quando a mãe acatou pedir um segundo diagnóstico a uma especialista em crianças trans o pai demonstrou rejeição quando descobriu que a nova pediatra vivia com outra mulher. Após insistência de Anne perante a reprovação do pai, a pediatra confirmou novamente o diagnóstico.

A verdade é que desde cedo a mãe suspeitou que Luna, agora com sete anos, poderia ser uma menina trans. Pelos vestidos que pedia para vestir, pelos nomes femininos que procurava tornar seus, havia indícios que podiam dar no diagnóstico clínico que mais tarde se veio a confirmar. Há que entender que o diagnóstico é o primeiro de muitos outros possíveis – mas não mandatórios – passos que uma criança trans, rapariga ou rapaz, poderá dar até à sua idade adulta.

Jeffrey, com ajuda da Igreja, lançou uma brutal campanha de difamação à mãe e de angariação de fundos para “salvar o seu filho“. Acusou Anne de forçar a criança a vestir-se de menina quando, na realidade – e como foi testemunhado em tribunal e confirmado por Luna – a mãe nunca limitou a escolha de Luna no que toca à forma de se vestir, tendo roupa para menino e para menina em casa, a escolha, lá está, era – e é – a de Luna. Já Jeffrey, que disse que Luna preferia vestir roupas de menino em sua casa, não lhe deu outra escolha senão essa, dado que não possuía roupas de menina na sua própria casa. Luna, portanto, não tinha outra hipótese senão vestir roupas de menino quando ia visitar o pai. Esta é uma realidade que apenas espelha a interação entre pai e filha: o desconforto e o receio sentido por ambas as partes, tendo sido entendido em tribunal que a Luna cedia aos pedidos do pai, uma figura autoritária, para não haver conflito. No entanto, é sabido o quão nefasto pode ser este tipo de atitudes na saúde mental de uma criança trans, algo que Jeffrey não reconhece.

Acusou igualmente a mãe de querer fazer tratamentos hormonais e operações a Luna que a tornariam estéril. Como foi dito anteriormente, há muitos passos que podem ser dados no processo de vida de uma criança trans. Estes devem ser equacionados na devida altura e com o acompanhamento de pessoal especializado de forma a permitir uma vida saudável às crianças transgénero. As acusações que o pai de Luna fez não têm especial sentido numa criança de sete anos, porque essas decisões só serão questionadas a seu devido tempo e as definitivas em idade adulta. Não cabe, portanto, nem ao pai – nem à mãe – tomá-las, mas sim caberá um dia à Luna.

Para além do apoio de grupos religiosos conservadores escamoteados de associações de pediatras, como a American College of Pediatricians – que defende o modelo único da ‘família tradicional’, a abstinência e se opõe à interrupção voluntária da gravidez – Jeff viu a sua campanha replicada pela internet. Primeiro em sites assumidamente religiosos, depois em tweets virais – até foi espalhado em Portugal por um ‘liberal insurgente‘ – e, por fim, em jornais tablóides. Em todos eles há uma linha-comum: contam a versão do pai.

Não deixa de ser igualmente transparente da falta de noção e preocupação de Jeffrey nas acusações que fez quando o mesmo tornou disponível no site da sua campanha difamatória os depoimentos completos dados em tribunal por ele, pela Anne e pelas equipas de apoio a Luna [acima]. É difícil entender por completo a razão por que o fez, mas expôs assim facilmente todas as mentiras que andou a disseminar.

Apesar de toda a informação facilmente disponível que contradiz a acusação de Jeffrey, existe ainda assim a propagação cega das suas mentiras, e – pior – não há qualquer respeito pela forma como abordam e mencionam Luna: no masculino, o nome que lhe foi atribuído à nascença é repetido inúmeras vezes quando aquele que a criança responde como seu por vezes nem mencionado é. Isto vai contra todas as diretivas no que toca à abordagem de um tema tão sensível como este.

Desde o início do julgamento, na semana passada, vários meios de comunicação conservadores reclamaram da situação, alegando que Anne pretenderia mutilar e castrar quimicamente Luna. O caso chegou a pelo menos três republicanos do Texas, incluindo o senador Ted Cruz, que chamou a criança de “um peão numa agenda política de esquerda“.

Que fique claro que a politização de um caso destes ameaça a própria criança que, num ambiente familiar de aceitação, teria um acompanhamento especializado clínico. Para uma criança de 7 anos, isso pode significar conversar com especialistas que a ajudarão a fazer uma transição social – como é o caso de Luna -, que pode incluir a troca de roupas, penteados ou pronomes. Por volta dos 10 aos 13 anos, pais, mães, profissionais de saúde e a criança podem decidir tomar bloqueadores da puberdade que atrasam o desenvolvimento das características sexuais secundárias, como pêlos faciais ou o aumento das mamas. Estes podem ser interrompidos a qualquer momento e a puberdade continua como normalmente.

Na passada terça um júri em Dallas negou a custódia total de Luna e do irmão a Jeffrey, declarando que não havia indícios de qualquer tipo de abuso por parte de Anne. O caso ganhou ainda mais atenção dos meios de comunicação, ficando marcado profundamente pela insensibilidade no que toca à identidade de género de uma criança, ao conflito familiar e à desinformação viral propagada por círculos conservadores.

Esta quinta, 24 de outubro, a juíza Kim Cooks deliberou que Luna e o seu irmão gémeo permaneceriam sob tutela de gestão conjunta entre Jeffrey Younger e Anne Georgulas. Cooks também deu aos dois pais a tomada de decisão conjunta sobre todos os cuidados médicos e psiquiátricos das duas crianças, indicando que o pai e a mãe precisam consentir sobre o uso de bloqueadores da puberdade ou outros aspectos de uma “transição médica”. Cooks também emitiu uma ordem que impede Jeffrey de voltar a comentar o caso publicamente.

Esta decisão num caso tão complexo como este é perigosa, pois pode abrir caminho a novos casos de abuso e violência sobre crianças trans. Em vez de se educar e seguir os métodos científicos que permitiriam uma transição o mais suave possível, o preconceito e o extremismo religioso venceram. Este caso trouxe igualmente um custo colateral, assim validado por esta decisão: a mãe de Luna enfrentou ameaças, assédio e vandalismo, tendo sido “violentamente atacada e ameaçada por completos estranhos com base em declarações falsas” da campanha promovida pelo ex-marido. É impossível ignorar que, além de toda a questão da identidade de género, existem também aqui claros sentimentos misóginos e machistas sobre Anne que foi assim descredibilizada, desumanizada, agredida e odiada. Aliás, tal como Luna.

Este é um estranho mundo para uma criança que só o conseguirá conquistar se lhe derem a hipótese de ser ela mesma. Para tal, tem a sorte de contar com a proteção e a coragem incansáveis de Anne. Que esta mãe e filha guerreiras tenham a força e a coragem para dar os passos seguintes num mundo que ainda só agora começou a surgir-lhes adiante. E porque o mundo é também aquilo que fazemos dele, não nos iludamos, cabe a nós permitir-lhes essa dignidade.

Para quem tiver interesse em aprofundar esta história, recomendo o seguinte vídeo:

Fotografia por Emma Simpson.


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