A subversão drag dos Boulet Brothers e de Dragula

A última década tem visto o ressurgimento de uma idade de ouro para a arte do drag. Não há como negar a influência de RuPaul neste fenómeno. Drag Race começou por ser um pequeno objeto de culto da comunidade LGBTI e transformou-se num produto de consumo massivo que  conta agora com 15 temporadas e dois spin-offs — na Tailândia e, mais recentemente, no Reino Unido. 

Hoje, o drag é um fenómeno global, e Portugal também tem visto a sua reinvenção do travestismo tradicional, tanto nas noites das típicas discotecas gay como na aparição de concursos como o Miss Drag Lisboa. Mas a explosão causada por RuPaul’s Drag Race é, como tudo o que se torna popular ao fim de algum tempo, objeto de escrutínio, particularmente dentro da comunidade. Se, por um lado, está a contar histórias de pessoas LGBTI numa plataforma global, por outro, a representação é muito diminuta, muitas vezes restrita a homens gay cis e, frequentemente, brancos. E muitos pensam que isso causou uma homogeneização do que é o novo drag, a geração Ru, que muitas vezes encontra dificuldade em encontrar a sua identidade.

É natural que surjam outros movimentos em reação ao fenómeno, e poucos têm sido tão audaciosos e polémicos como o Dragula dos Boulet Brothers, a versão gore e negra de RuPaul’s Drag Race. Estes irmãos fantasmagóricos não são de facto irmãos, mas um casal, já há 20 anos, que começou por trabalhar em eventos especiais e discotecas, sempre com um tom de horror. Dragula era uma festa que ambos, Dracmorda e Swanthula, promoviam para exibir uma versão underground de drag e que se transformou agora num programa de televisão em que a definição do drag é testada para, finalmente, se perceber que não existe. 

Não estamos aqui para julgar o vosso drag. Drag é arte, e a arte é subjetiva, estamos aqui para julgar o vosso drag nos limites deste programa“, dizem em cada episódio antes da deliberação. Os desafios são muito diferentes e sempre inspirados no cinema de terror, dando aos participantes a oportunidade de reinterpretarem o que o drag pode ser. E pode ser verdadeiramente horrífico. A caracterização e maquilhagem de efeitos especiais estão a anos-luz de tudo o que se vê no programa-irmão, e a arte aqui injetada é realmente fascinante. Os processos de eliminação são exasperantes e não se aconselham aos mais fracos de coração, já que incluem perfuração por agulhas gigantes, um manjar de comida crua, entre muitos outros exemplos.

E as histórias das pessoas por detrás da maquilhagem são verdadeiramente representativas da comunidade LGBTI, nomeadamente de sectores mais marginalizados dentro desta. Aqui não há restrições no tipo de drag ou de pessoas que se apresentam. A última temporada, a terceira já, contou não só um drag king, como uma bio queen, e a partilha das histórias entre todos e todas só as torna mais ricas e significativas. Dragula nunca será mainstream, porque é, na sua génese, o enaltecimento do que é marginal e odiado. Nunca será seguro ou polido. Existirá sempre nas sombras do que é brilhante, pronto para atacar. Ou não fosse esta a busca do próximo supermonstro drag.

Dragula: SPOILER ALERT e NAUSEA ALERT

Nota: Texto revisto pela Ana Teresa.

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