O que significa para ti o Natal?

O que simboliza para ti o Natal? Esta é uma época de significado múltiplo, pois cada pessoa a vive de forma distinta. Para algumas poderá ser uma altura de reencontro com familiares que não veem há demasiado tempo, para outras será de celebração com as suas crianças. Mas importa igualmente não esquecer que, para algumas pessoas, o Natal também poderá ser um momento de silêncio, de armário, de separação.

Não deixa de ser uma altura verdadeiramente simbólica, em particular para a população LGBTI, pelo significado duplo que ganha. São duas faces da mesma moeda que podem ser vividas em simultâneo: a partilha da felicidade com o nosso núcleo, o nosso ninho, a nossa família; ou, simplesmente, a sua ausência. É nesta dualidade que vivemos vários momentos das nossas vidas. A simbologia na comunhão com as pessoas que nos são mais próximas, mas também o seu afastamento. Por vezes distante, como nos casos de famílias que expulsam filhos e filhas; por vezes no outro lado da mesa de Natal, num silêncio imposto e ensurdecedor. Cruelmente, nem sempre conseguimos fazer a ponte entre estas realidades e uma verdadeira união familiar. Dirão que essa desunião é a realidade de muitas outras famílias, mas estes casos são uma agravante sobre esses problemas, digamos, universais. Além disso, existe muitas vezes o preconceito à mesa de Natal.

É pela sua teimosa existência que é também de extrema importância o trabalho da comunidade na resposta a estas situações. É assim que surge, por exemplo, o jantar e o almoço de Natal promovido pela ILGA Portugal ou o REAJO, o projeto de acolhimento e acompanhamento de jovens LGBTI dos 16 aos 23 em situações de violência doméstica e/ou sem-abrigo da Casa Qui. Porque esta é uma realidade atual, que nos destrói um pouco, por vezes completamente até, nestas épocas festivas.

Mas importa aqui relembrar a resposta comunitária, associativa e política que tem havido para colmatar a profunda necessidade que, em pleno final de 2019, existe. Ainda que por vezes não ao ritmo desejado e de forma deficitária, a verdade é que o apoio tem surgido e a resposta tem cumprido o mínimo dos mínimos sobre estas necessidades. Porque estamos aqui a falar, repito, do mínimo dos mínimos. Ter uma porta aberta para acolher, nem que seja por uma noite – e que noite essa, a do Natal! –, e permitir a existência de um evento que promove os laços entre pessoas, lhes dá o calor de um espaço também ele simbólico, um refúgio, um porto seguro, no final de contas, uma família é dar o mínimo dos mínimos.

Entenda-se, este é um esforço tremendo, mas nunca, jamais, um fardo, mesmo que por vezes o possa parecer. Porque somos humanos, porque também vivemos as nossas fragilidades, porque, por vezes, nos revemos na amargura da pessoa que temos diante de nós e nos pede ajuda. E, de repente, somos remetidos e remetidas para um passado ao qual não queremos voltar, mas com que precisamos de lidar ano após ano. É também por isso, pela empatia absoluta, pela troca de olhares, pela partilha e aprendizagem mútuas que tudo, de alguma forma, me faz sentido. Aqui entre nós, eu e tu nunca ficaremos sós. E é isto que, para mim, significa o Natal. O entre nós.

Boas festas.

Nota: Texto revisto pela Ana Teresa.


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