O amor inseparável de Terry e Pat: Porque também merecemos finais felizes

O documentário Um Amor Secreto (A Secret Love, no original) conta-nos a história do Amor de seis décadas de Terry Donahue e Pat Henschel. Conheceram-se em 1947, numa altura em que a homossexualidade era perseguida e criminalizada. Mas não foi isso que as demoveu de se amarem, porque desde cedo provaram ser mulheres com garra. Por exemplo, numa emboscada a um bar de lésbicas, Pat conta que fugiu pela janela e correu até não poder mais. You go, girl!

Desde que se conheceram, nunca mais se afastaram. Sim, houve pretendentes, mas, em plena II Guerra Mundial, muitos faleceram antes de haver hipótese do esperado casamento. E aos outros fugiram ambas pela porta de serviço quando era preciso. Até decidirem fugir, de vez, do Canadá para os Estados Unidos.


O documentário esteve em foco e discussão no Podcast Dar Voz A esQrever 🎙🏳️‍🌈, oiçam:


Aí fizeram história, mais especificamente Terry, que pertenceu à equipa feminina de basebol que, durante a Grande Guerra, competia e entretinha as populações famintas de diversão. Mas se as expetativas eram de “brincadeira de meninas”, a verdade é que estas mulheres quebraram barreiras e mostraram-se altamente competitivas e o público começou a apoiá-las. Mais, fizeram tanto ou mais que as equipas masculinas… com equipamento desadequado, as minissaias, ao contrário das calças dos homens, que podiam escorregar no chão de forma mais ou menos segura, significavam várias escoriações durante os jogos, mas estas campeãs não se deixaram levar por essa obrigação imposta por – adivinhe-se! – homens e deslizavam a própria pele na terra. Alguns obstáculos só são transpostos se, efetivamente, dermos o corpo ao manifesto.

Uma das coisas que mais surpreende neste documentário da Netflix é aquilo que estas mulheres, guerreiras, invencíveis e orgulhosas, tiveram de se submeter para salvarem a sua relação. E percebemo-lo desde cedo quando Diana, sobrinha muito próxima do casal, conta que, em mais de cinco décadas de vida, só soube que Terry e Pat eram um casal há quatro anos. O receio de serem descobertas, serem separadas e serem enviadas de volta para o Canadá era tão grande que estas duas mulheres esconderam a relação da família direta e viveram uma vida dupla com a família escolhida que tiveram posteriormente. Uma família de amigos gays e amigas lésbicas, da qual a de sangue tomou conhecimento por fotografias num álbum de memórias.

Terry justificou-se, emocionada, com o tremendo receio de perder o amor da sobrinha e da restante família. Do outro lado, Diana lamentou que a tia estivesse numa posição que achasse que ela deixaria de a amar por ser lésbica. A verdade é que estes receios, ainda para mais quando alimentados durante décadas por leis e comportamentos homofóbicos, são vividos de forma muito intensa pela população LGBTI. Ainda hoje, décadas passadas, não é fácil sair do armário e ponderar consequências de tal decisão. A segurança, física e emocional, ainda depende dela.


Em pleno mês da Visibilidade Lésbica, a Ana Vicente esteve à conversa no Podcast Dar Voz A esQrever 🎙🏳️‍🌈, oiçam:


Estes cuidados, que hoje nos podem parecer exagerados, tornam-se bastante claros quando, num dos momentos mais enternecedores do documentário, Diana encontra umas cartas que Pat escreveu a Terry no início da sua relação. Terry lê uma delas em voz alta:

Sempre recordarei esta noite

Pode ter sido só mais um passeio sob o tom do luar
Mas significou tudo, porque foi contigo que fui passear
Pode ter sido só mais uma noite, uma única noite de sete
Minha querida, estavas lá comigo
Foi mais uma noite no paraíso
Seguimos quase sem falar pela rua banhada pelo luar
Fui invadida por uma felicidade sem fim
Quando sorriste e chamaste por mim
As horas voaram como momentos breves
Andámos sozinhas, de mãos dadas
Foi uma noite para recordar
Outra noite nossa, minha amada

É um momento emocionante, é recuar mais de cinquenta anos e ver que aquelas duas mulheres ainda ali estão, juntas e a combinar o seu futuro (estavam a escolher uma casa de repouso). Quando Diana repara que todas aquelas cartas estão rasgadas da parte inferior pergunta-lhes porquê. A resposta é simples: caso a família ou alguém as descobrisse, jamais saberiam quem as tinha escrito. Numa altura em que famílias deserdavam familiares queer ou o estado as criminalizava, aquele Amor não podia afirmar-se com uma assinatura que fosse.

Mas foi esse o risco que, seis décadas passadas e depois de todas as resistências que compreensivelmente foram ganhando ao longo da vida, tomaram: Terry e Pat casaram, por fim, na casa de repouso rodeadas de família, amizades e um Amor inseparável com seis décadas de irrefutáveis provas. Porque as nossas histórias, acreditemo-lo, também merecem finais felizes.

Nota: Texto revisto pela Ana Teresa.


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