Reação a um artigo de “opinião”

“O autista não é “doente” (tal como o homossexual)

Se o gay não tem de ser hétero, se o canhoto não tem de ser destro, o autista não tem de ser neurotípico. O autismo não é doença, não tem cura. O autismo, devido às características especiais que dá ao seu portador, até pode ser cura de muita coisa.”
Henrique Raposo, Expresso

Assim começa o artigo de “opinião” de Henrique Raposo, colaborador do Jornal Expresso e ao qual, um grupo de pessoas LGBTQI+ e aliadas decidiu responder em tom de indignação, com e-mails dirigidos ao diretor do jornal, João Vieira Pereira.

Nesta resposta foram frisados vários pontos, como:

Em primeira instância, a homossexualidade já não é considerada doença desde 1990, por este motivo, não faz sentido alocar este tema à comunidade, perpetuando-o, quando lutamos por nos distanciar deste estigma há tantos anos;

Segundo, o autismo é um transtorno mental, denominado pelo DMS-5 (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais). Como tal, importa explicar que, variavelmente consoante o seu grau, poderá levar o seu portador a ter determinados comportamentos como dificuldades na comunicação e interação social, atividades e interesses repetitivos e ou estereotipadas.

Se calhar, o autismo não devia estar considerado no DMS-5, contudo, está e, por isso, torna-se um desserviço compará-lo à homossexualidade.

Com este tipo de abordagem presente no artigo de “opinião”, podemos até questionar onde começa e acaba a liberdade do outro, não é? Pois, é! Foi o que o diretor do Expresso nos respondeu. Afirmação com a qual não podíamos estar mais de acordo. 

“(…) o Expresso é um espaço de liberdade. Isso significa não colocarmos entraves à opinião dos nossos colaboradores, a não ser que os mesmos esbarrem na Constituição da República Portuguesa ou até mesmo no bom senso. A liberdade de uns termina onde começa a liberdade dos outros e para sabermos viver em comunidade temos de aprender o que isso significa. E isso passa pela tolerância com quem pensa de forma diferente de nós.”

Diretor Expresso, João Vieira Pereira

Vamos falar sobre o que pode (ou não) fazer parte de um artigo de opinião: será que uma questão sensível como direitos humanos de pessoas LGBTQI+ pode ser enquadrada em títulos sensacionalistas como este que vimos neste artigo? Será que isto é mesmo uma questão de opinião? Não, isto não é uma questão de opinião. O racismo não é uma questão de opinião. A xenofobia não é uma questão de opinião. Qualquer tipo de discriminação não é uma questão de opinião. Posto isto, o bom senso aqui não existe, bem como o cumprimento da Constituição da República Portuguesa.

Basta lermos o artigo 13 da referida Constituição, que se debruça sobre o Princípio da Igualdade e a lei nº 59/2007 que prevê, no Código Penal, a proteção das pessoas LGBTQI+ da discriminação e ofensas à integridade física.

Pegando agora na temática da liberdade, mais uma vez, estamos totalmente em sintonia com João V. Pereira. Por esse motivo, achamos melhor clarificar o porquê de nos sentirmos invadidos e postos em causa, quando somos tomados por pessoas com algum tipo de transtorno.

“Tal como a homossexualidade, o autismo não é uma doença, é uma condição ou natureza diferente.”
Henrique Raposo

Achamos, por isso, que Henrique Raposo passou altamente os limites da liberdade dele, a partir do momento em que sentimos que a nossa (liberdade) foi amplamente invadida.

Relativamente à tolerância que J.V.P menciona, por mais incrível que pareça também estamos de acordo. (Não é genial estarmos a concordar com tudo? Até parece que isto nem foi um problema.)

No entanto, devemos recuar uns anos na história. Deixamos aqui um pequeno cartoon que elucida um pouco melhor a nossa linha de pensamento. Pode ser que com bonecos, seja mais fácil de entender.

Em suma, com este artigo (e outros tantos do mesmo gabarito e autor), o resultado é darmos vários passos atrás naquilo que é a liberdade, inclusão e aceitação da diversidade, dando espaço a que existam comentários homofóbicos e de ódio, algo que nunca pensámos ver associado a um meio de prestígio e informação, como o Jornal Expresso é conotado. Se continuarmos assim, o que alcançamos vai ser sempre a desinformação e ignorância.

P.s. – Para além da tolerância, achamos que a empatia também é uma característica importante a ser trabalhada. Termos noção do nosso privilégio e sabermos pôr-nos no lugar do outro é fundamental para que este tipo de problemas, deixem de o ser.

Causa Urticaria
9.08.2020


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