Nuno Melo sexual

A obsessão dogmática do Nuno Melo com a sexualidade é notável, basta ter alguma atenção aos tópicos que mais pujança lhe dão para entender que Melo, além de eurodeputado, é diácono dos costumes. Pior, é um diácono dos costumes que tem por hábito partilhar notícias falsas e prontamente desmentidas. A mais recente aconteceu esta mesma semana.

Se recuarmos umas semanas, e aquando da polémica sobre a série juvenil Destemidas, Nuno Melo acusou a RTP de ter sido colonizada para “destilar ideologia e promover essencialmente o que cheire a esquerda”. Relembro que a série abordou temas como a interrupção voluntária da gravidez, a homossexualidade, o feminismo, o divórcio e a religião, ou seja, temas e direitos que estão consagrados na lei portuguesa e que fazem parte da história democrática do país. Aparentemente, estes são ainda tópicos que, décadas passadas sobre a sua consagração, não entranharam no fabuloso escalpe de Nuno Melo.

Este ingrato combate de Melo voltou a tomar contornos de cegueira, especialmente quando se tornou num veículo de notícias falsas ao criticar o chumbo de dois alunos por não terem comparecido a aulas de “Sexualidade, Género e Interculturalidade”. Ora, para começar, a disciplina chama-se Cidadania e Desenvolvimento, mostrando como a referida obsessão de Melo enviesa a sua argumentação para fazer passar de forma mais clara a sua ideologia. O eurodeputado defendeu igualmente o direito dos pais destes dois alunos à objeção de consciência para não frequentarem esta disciplina, que tem como programa foco nos “direitos humanos, desenvolvimento sustentável, educação ambiental, saúde, bem-estar animal, voluntariado e segurança rodoviária, entre outros”. E, sim, sexualidade, género e interculturalidade. Além de a objeção de consciência ser pessoal e intransmissível, a retórica que Melo tenta impor não é, portanto, verdadeira e espelha apenas os dogmas sexuais e de género que tão importunam Melo. A educação sexual é uma das maiores ferramentas que podemos dar às nossas crianças e adolescentes porque, além da linguagem e dos temas apropriados às suas idades, empoderam e informam sobre os seus corpos, direitos, o consentimento ou a variedade das nossas identidades, sejam elas quais forem.

Importa igualmente referir que, neste caso, Melo fez questão de divulgar um do site “Notícias Viriato”, uma plataforma associada à extrema-direita e ao fundamentalismo LGBTIfóbico e racista. O eurodeputado gosta assim de enterrar a sua enorme reputação naquele lugar pecaminoso.

Por fim, esta semana, Nuno Melo voltou a denunciar uma alegada palestra que aconteceu numa escola no Porto, onde “uma aula de educação física foi interrompida para dar espaço a palestra com uma associação sobre 67 tipos de sexualidade, como a a [sic] atração sexual por objetos inanimados”, rematando que “são anormalidades assim que pais não podem rejeitar no âmbito da disciplina de Cidadania. São anormalidades assim que a extrema-esquerda que desatou a debitar insultos por cá quer que os alunos deste país achem que são padrões de normalidade. Não são. São mesmo anormalidades e, muitas vezes, casos de psiquiatria“.

Dada a quantidade de dúvidas e enviesamentos a que o eurodeputado nos habituou, gostava que ele indicasse a associação em causa; que mostrasse aquilo que considera “anormalidades” em termos de orientação sexual e identidade de género; que apresentasse os estudos psiquiátricos que fundamentam as acusações que aponta; e, já agora se não for incómodo, que parasse de ser LGBTIfóbico.

Bem sei que a posição de missionário entre um macho e uma fêmea reinará na mente puritana de Nuno Melo, percebo também que para ele tudo o que não seja bem definido dentro dos padrões dominantes sociais, nomeadamente sermos heterossexuais, cisgénero e apagar a luz quando for hora para procriar, será considerado anormal. Mas acontece que os tempos do obscurantismo e da ignorância sobre os nossos corpos e as nossas identidades não cabem num Estado que se diz de direito. Os dogmas religiosos e sociais contra os mesmos expiraram em Portugal há várias décadas e tentar perpetuá-los e impô-los à população é apenas uma forma de a controlar. Nuno Melo precisa de uma revolução sexual e de olhos bem abertos.

Nota: Texto revisto pela Ana Teresa.

Fonte: Imagem.


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