COMO SE CONSTRÓI UMA IDENTIDADE SONORA? DISCUSSÃO SOBRE O VÍDEO MUSICAL WATCH ME LAKSHMI FT. KARMA SHE [VERSION DE NUIT], DE ELECTROSEXUAL

A música e a sexualidade (e também o sexo!) costumam, muitas vezes, partilhar o mesmo espaço. Através da música, muitos artistas expressam a sua sexualidade. Por meio dessa mesma música, os musicólogos gostam de escavar os vestígios das identidades dos músicos. Robert Fink, um musicólogo especializado em música minimal escreve na introdução do seu famoso livro Repeating Ourselves: American Minimalism, a respeito da música eletrónica de dança: “a repetição como criação de desejo na sua forma mais descarada”. Pensar que a música é capaz de mostrar atrevimento e falta de pudor é uma visão interessante. Mas como é que isso é possível? 

Um músico empenhado em descobrir e explorar isso é Electrosexual. Francês, também conhecido como Romain Frequency, é precursor do estilo electro-sex (músicas feitas por meios eletrónicos e que têm como propósito a exploração de aspetos sexuais). No passado apresentou “Dark Room” onde abordou os espaços de experimentação sexual e também “Fetish [ASFR]” (alt.sex.fetish.robots) no qual desenvolveu as fantasias quanto a parceiros robóticos. No seu site oficial, as categorias que usa para descrever a sua música são eyeliner techno, queer acid e arpeggio fetishist, nomes deveras sugestivos. 

O vídeo musical WATCH ME LAKSHMI [VERSION DE NUIT] foi escrito e realizado por tomscodebp e tem música de Electrosexual e em colaboração com KARMA SHE (Carmel Michaeli). Três artistas queer com o propósito de transgredir o género, confundi-lo, dobrá-lo, politizar a discussão sobre as identidades e, acima de tudo, lutar contra o preconceito. O centro da discussão está no manifesto contra a homofobia e transfobia na Grécia e em especial as experiências de vida de membros da comunidade LGBTQIA+. Vamos desconstruir estes pontos para pensar sobre a construção desta identidade sonora.

Nesta “versão da noite” Electrosexual produz uma música quase totalmente instrumental. A voz de KARMA SHE fica em segundo plano e as múltiplas camadas de eletrónica simbolizam o ciberespaço onde a ação decorre. Outro aspeto a destacar é que a música é uma sequência linear, sem divisões claras e orientada por uma melodia constantemente repetida. O contínuo sonoro é representativo da viagem que Moona Quaria, a personagem principal, faz pela Electric City. No caminho é assediada, assobiada e atacada, e mesmo quando isso acontece a música não muda, segue o seu caminho. Não vemos quem são os opressores, mas sabemos que é salva no final. Shiah Feya, Alexxxia, Tomscode, Antigoni Bunny e Khai são vários artistas LGBT que participam como atores no vídeo. 

Lashmi, a deusa que os vigia, merece uma atenção cuidada. No hinduísmo significa prosperidade. Todavia, não podemos esquecer que um dos seus símbolos é a suástica. Todos sabemos que desde Adolf Hitler tem vindo a ser associada ao nazismo, à supremacia branca, “raça pura”, enfim… Outras culturas usaram-na para diferentes significados, mas é para o fascismo que este vídeo pretende encaminhar-nos. Se formos ler a descrição que o vídeo tem no YouTube, diz que Moona Quaria “is facing homophobic and transphobic attacks by fascists”.

Na luta, quatro palavras saltam à vista: “fuck patriarchy”, “fuck gender”. Rapidamente associei estas declarações com uma das perguntas mais declaradas a respeito de uma pessoa trans (e que também aparece escrito no vídeo): “is that a boy or a girl?”. Apreendemos a mensagem do vídeo se o ligarmos ao termo genderbender. Todos os corpos que observamos no vídeo estão a celebrar e, ao mesmo tempo, a politizar as suas identidades. Neste ciberespaço a heteronormatividade ficou de fora. Aqui abanam-se as estruturas que muitas vezes levam a que se diga: se “soa” ou “parece” uma mulher, então é uma mulher. Na música, o que mais se destaca é o modo como a voz de KARMA SHE (que nunca aparece no vídeo) é transformada informaticamente e, assim, representa o genderbender. Um pouco mais de manipulação e o seu timbre ficaria impercetível, perderia a clareza e a feminilidade que faria o ouvinte exclamar “ah, ali está uma mulher”.  

Para concluir, vamos regressar à afirmação de Robert Fink. Para isso gostaria que nos focássemos na imagem forte do corpo ensanguentado no chão. Será que a repetição musical coloca o desejo de modo descarado? Depende. De que desejo estamos a falar, é o desejo de destruir este corpo? Pode ser, mas para quem recorda a análise anterior que fiz ao vídeo de Arca, aqui não existe o disparo da pistola. Como a música é estável e constante, não há um único som súbito ou impiedoso que sirva de significante para alguma espécie de ataque. A repetição poderia sugerir, portanto, uma passividade ou incapacidade de o corpo reagir às investidas feitas contra si. Então e se for o desejo de usar a música para nos libertarmos das amarras do corpo? Há quem use a repetição musical como ferramenta para alcançar o trance (poderíamos adotar esta leitura e dizer que, por essa via, o ouvinte entraria em contato com Lakshmi). Isso poderia, para algumas pessoas, ser um escape da realidade de sofrimento face à LGBTQIA+fobia que continua a estar tão presente nas nossas sociedades.  Através das frequências eletrónicas desta música queer, fugimos para o ciberespaço para comemorar, de modo ousado e sem timidez, a nossa identidade. Não tenho respostas, apenas estímulo a reflexão e forneço pistas para que todos possamos pensar sobre a construção desta identidade sonora. 


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  1. Ep.130 – Crónica do maxo discreto: Rescaldo da Eurovisão, Mapa Arco-Íris da Europa e Papa Francisco volta a lançar areia para os olhos
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