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A Ciência Diz: Raparigas Trans Pertencem em Equipas Desportivas Femininas

Não existe nenhuma razão cientificamente plausível para as excluir e as colocar em equipas masculinas.

Uma investigação do psiquiatra infantil Jack Turban para a Scientific American revela, mais uma vez, que não existem razões baseadas em evidências científicas que devam impedir raparigas trans de integrarem equipas desportivas femininas. Parece óbvio, mas ainda no ano passado as famílias de três raparigas cis, no estado do Connecticut nos Estados Unidos da América, processaram a nível federal uma associação escolar com o intuito de impedir raparigas trans de competir na equipa feminina, porque tinham uma vantagem desleal no desporto escolar e deveriam ser integradas nas equipas masculinas. Mas não se falou de que uma das raparigas cis pertencentes às famílias que levantaram o processo venceu uma prova contra uma das raparigas trans mencionadas nesse mesmo processo, provando que as raparigas cis não têm qualquer desvantagem contra as raparigas trans.

No entanto, está a acontecer a nível nacional nos Estados Unidos (e não só) uma campanha por parte das fações políticas mais conservadoras para ir ao encontro do processo federal levado a cabo pelas famílias. Isto contra as políticas de inclusão levadas a cabo pelo próprio Comité Olímpico, em 2004, na Califórnia, em 2013, e no Canadá, em 2018. Oponentes desta inclusão levantam imediatamente a ideia de que é a testosterona francamente mais alta das raparigas trans que lhes dará vantagem sobre as suas competidoras cis. Mas existem raparigas cis com níveis de testosterona igualmente elevados, nomeadamente as que sofrem de síndrome do ovário poliquístico, que afeta 10 % de todas as mulheres – um número bem superior ao de mulheres trans na população. E as raparigas trans sob bloqueadores hormonais, normalmente adolescentes e as mais visadas no desporto escolar, não têm qualquer elevação de níveis de testosterona. E os próprios efeitos de vantagem atribuída pela testosterona são refutáveis, com vários estudos científicos a não encontrarem qualquer vantagem desportiva a nível de performance.

Não existindo qualquer razão fisiológica ou metabólica para excluir as raparigas trans do desporto feminino, a argumentação é meramente política e automaticamente discriminatória. Outro estado norte-americano, o Idaho, está a tentar passar uma lei que não permite a estudantes “mentirem sobre o seu sexo”, ou seja, não deixar o sexo determinado à nascença corresponder à identidade de género verdadeira. Isto só poderá ser possível com exames genitais invasivos ou testes cromossómicos. Mas o que acontece quando uma pessoa jovem com vagina volta com cariótipo XY como acontece com a síndrome de insensibilidade androgénica completa? E quando uma pessoa jovem intersexo é obrigada a identificar-se com um sexo que não corresponde à sua identidade de género? Estes e estas jovens vão para que equipas?

As únicas pessoas que sofrem com este debate assente no preconceito e discriminação são as pessoas trans. Apesar de não terem qualquer vantagem desportiva cientificamente comprovada e visibilidade nula apesar das políticas de inclusão da última década, têm muitas desvantagens e preocupações: bullying, abuso sexual, situações familiares desequilibradas, o medo (real) de que não irão para a universidade. Apesar de não existir nenhuma epidemia de raparigas trans a “roubar” prémios desportivos a raparigas cis, existe uma epidemia de raparigas trans com níveis altíssimos de ansiedade, depressão e ideação suicida, ameaças à saúde mental trazidas quase exclusivamente pela rejeição das suas identidades de género. 

A competição de pessoas trans no desporto esteve em discussão no Podcast Dar Voz A esQrever 🎙🏳️‍🌈

Segundo Jack Turban, a legislação e as pessoas que nela trabalham têm de se concentrar nos problemas reais das pessoas jovens e do desporto feminino – remunerações infinitamente inferiores para as atletas femininas, cobertura dos média quase nula para os desportos femininos e ambientes culturais que levam à desistência escolar de todas as pessoas jovens que não sejam homens – em lugar de manufaturar problemas e “soluções” que magoam as crianças que dizem estar a proteger.

Não podia concordar mais. Esta falsa polémica está a ser debatida nos Estados Unidos da América e em vários países da Europa há vários anos. Em Portugal estamos tão tragicamente atrasados em visibilidade trans que este ainda é um não assunto. Mais vai sê-lo eventualmente. E temos de estar preparadas e preparados para rebater qualquer discriminação com fatos científicos que a obliterem.

Fonte: Scientific American

Nota: Texto revisto pela Ana Teresa.

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