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Como Se Constrói Uma Identidade Sonora? Discussão Sobre O Vídeo Musical Modo Turbo, De Luíza Sonza, Pabllo Vittar E Anitta

Quando os papéis de género entram em modo turbo-twerk o que acontece?

Poderá ser uma descoberta para muita gente se eu disser que as origens etimológicas das palavras queer e twerk estão muito próximas em termos morfológicos. Segundo a autora Eve Kosofsky Sedgwick, queer é oriundo do indo-europeu “twerkw” que significa “através”. Por si só encontramos já uma associação entre os conceitos (refiro-me à remoção do ‘w’ e as duas palavras tornam-se iguais). No dicionário da Oxford é indicado que vários historiadores acreditam que twerk é uma transformação de “work” (trabalhar).  Provavelmente por esta via, twerk it passou a ser um sinónimo de work it, só que, no caso do vídeo que pretendo discutir, trata-se de trabalhar os glúteos através de movimentos de dança (um exercício como qualquer outro!). Perguntam-se agora: além das palavras, existem semelhanças entre ser queer e fazer twerk? Para quem fez o vídeo musical MODO TURBO a resposta seria sim. 

MODO TURBO é o mais recente vídeo musical das artistas Luísa Sonza, Pabllo Vittar e Anitta. A colaboração coloca no mesmo ecrã três sexualidades diferentes – Sonza é heterossexual, Pabllo homossexual e Anitta bissexual –, e todas as cantoras (considerando que Vittar, ainda que homem, interpreta uma personagem drag) expressam diferentes formas de feminilidade no vídeo. Foi realizado por Alaska, uma dupla de realizadores conhecidos pela publicidade à empresa de tecnologia iZettle onde se inspiraram no universo de ficção científica do filme Blade Runner 2049. Aqui, Sonza, Vittar e Anitta são personagens de um videojogo onde diferentes géneros, sexualidades e referências culturais se conjugam numa obra de eletrónica e funk que é rica em cor e diversidade. Que sons dão vida a estes elementos? Quando os papéis de género entram em modo turbo-twerk o que acontece? Vamos desconstruir estes pontos para pensar sobre a construção desta identidade sonora.

Ao fim de várias visualizações descobri que no início do vídeo Luísa Sonza sussurra os nomes dos compositores Rafinha RSQ e Rennan da Penha o que para mim foi uma novidade. Existem muitos artistas que dizem os seus nomes, ou são anunciados por outras vozes, mas é a primeira vez que ouço os compositores. Na música popular é tão raro reconhecer-se quem compõe porque os cantores é que estão na ribalta, que achei um gesto criativo e inclusivo. Falando em convenções da música popular, o vídeo tem uma estrutura de single que é muito evidente. Formada por várias sequências de verso e refrão, em cada um dos versos as cantoras alternam entre momentos a solo ou em conjunto. Os timbres de Sonza e Anitta misturam-se muito bem no registo médio, e Vittar fornece o contraste porque é mais agudo. Ao nível da voz, é interessante constatar que os papéis de género são subvertidos porque a expectativa de que os homens cantam as linhas mais baixas e as mulheres as mais altas não acontece. 

A narrativa começa dentro de uma sala de videojogos com uma decoração asiática onde as cantoras jogam em conjunto. A máquina ao centro mostra o holograma de uma androide feminina e cada uma das cantoras faz movimentos de dança em cima de uma placa. Durante o jogo elas entram na realidade virtual e transformam-se em super-heróinas. Aqui é necessário apontar várias conotações culturais. No início ouvimos a máquina de arcada a ligar com um timbre retro que me fez lembrar as consolas da década de 1980. A cultura de videojogos é reforçada porque, o facto de a dança ser o modo de jogo, é uma alusão às máquinas de Dance Dance Revolution que existem no Japão. Além disso, as roupas que elas usam dentro do videojogo é uma referência ao universo da Sailor Moon, incluindo os seus poderes e o facto de Pabllo ter uma varinha mágica.

O que é interessante neste domínio, é que a dança e a referência ao Japão são mescladas com a cultura funk e o twerk. Abanar as ancas e expelir energia elétrica contra a adversária é muito pouco japonês (ou talvez seja tendo em conta o tipo de humor que muitos animes expressam), mas, neste contexto, é uma manifestação de poder na performance do feminino. Mas há um aspeto que preciso referir. Modo turbo, tal como turbinar, pode ter aqui o seu sentido coloquial de aumentar ou potenciar qualquer coisa. Tendo em conta o contexto da imagem, diria que se trata de mostrar uma interseccionalidade entre ser mulher, ser queer e ser drag. Na conjugação, a singularidade de cada uma é um modo de explorar a feminilidade e a representar como uma força poderosa. 

Com essa turbulência tu não vai parar em pé” e “vem comigo quem aguenta essa porra a noite toda” é uma sugestão de que a letra fala de relações sexuais ainda que o vídeo o exprima através da dança. A turbulência do avião é a metáfora para o ato entre duas ou mais pessoas. Quando os glúteos se agitam em sincronia com a batida da música, o desejo dos corpos passa a ser representado de modo audiovisual. Estas e outras imagens em MODO TURBO não são mudas. Consigo sentir o impacto dos ataques das personagens através do som, o que permitiu manter a relação mais evidente com os videojogos devido aos efeitos sonoros que se ouvem. Gosto particularmente do momento em que Luísa bate no botão que liga a consola.

Quero deixar claro que já não é grande novidade termos personagens femininas fortes, e a genderização traz muitas vezes uma ambiguidade à mistura. Não estou muito seguro de que cantar frases como “me levar para o canto pode” e “me chamou, e eu já fui” sejam muito positivas. No discurso da “passividade” e dominação de um género em relação aos outros, pode transmitir uma mensagem mais negativa. Estará a música, ao contrário da imagem, a reforçar um estereótipo da subjugação feminina? Talvez não se considerarmos que nada na letra sugere que a outra pessoa tenha de ser do género masculino. Por outro lado, muitas vezes a exposição dos corpos é lida por muitos como uma objetificação ou hiperfeminilidade. Num universo de tantos vídeos musicais de funk e eletrónica de dança onde são as mulheres que se expõem, a escolha do estilo musical, do tema das imagens e de tanto foco nos rabos das cantoras, não nos faz cair no mesmo erro? Fica ao vosso critério. Não tenho respostas, apenas estímulo a reflexão e forneço pistas para que todos possamos pensar sobre a construção desta identidade sonora. 

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