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Como Se Constrói Uma Identidade Sonora? Discussão Sobre O Vídeo Musical Queen, De Janelle Monáe

As metáforas do mundo como espetáculo ou da vida enquanto peça de teatro estão no nosso imaginário há vários séculos. De Shakespeare a Charlie Chaplin, passando pela referência de Janelle Monáe, a arte está sempre a inscrever-se no quotidiano. No século passado, o sociólogo Erving Goffman confundia a equação ao escrever que qualquer situação de interação entre duas ou mais pessoas é uma performance teatral. A arte já não era capaz de imitar o quotidiano (pelo menos neste aspeto) pois os dois mundos estão em constante diálogo. Mais recentemente, Judith Butler mostrou-nos que as identidades são construídas, interpretadas e reinventadas: no fundo, são um processo e não uma suspensão. A palavra queer é, provavelmente, um dos conceitos que melhor ilustra esta ideia, pela abrangência de definições que pode ter.

Q.U.E.E.N. é um vídeo musical da artista afroamericana Janelle Monáe, uma mulher que se identifica como bissexual e pansexual. Foi realizado por Alan Ferguson e faz parte do universo ficcional da cantora onde habita a sua personagem Cindi Mayweather, a.k.a. Electric Lady. Monáe defende que com esta androide pode expressar e criticar os processos sociais de diferença e alteridade. Na fase inicial de produção este vídeo tinha o título Q.U.E.E.R. Será que a modificação apagou a possibilidade de identificarmos algo de queer na obra? Muitos textos na internet têm falado que está no acrónimo: Queer, Untouchables, Emigrants, Excommunicated, and Negroid. Ou que ainda é possível ouvir vários backvocals no refrão que exclamam “queer”, por exemplo, depois da frase “am I a freak for getting down?”. Mas e os timbres, os instrumentos musicais e as técnicas de canto, como é que produzem este tipo de identidade? Vamos desconstruir estes pontos para pensar sobre a construção desta identidade sonora.

A música está dividida em vários segmentos estruturados de acordo com o estilo musical que Monáe adota. Começa com uma introdução orquestral (que não existe na música original e foi acrescentada no vídeo) onde uma mulher nos diz que estamos num museu onde rebeldes e viajantes no tempo estão aprisionados. Segue-se a parte principal da música em funk onde Monáe e a sua banda (os rebeldes) atuam. A terceira é um solo de Erykah Badu, a cúmplice que interpreta um momento de soul, e a obra termina com um rap de Monáe. Para começar, uma das dimensões para onde a palavra queer nos transporta é para um tipo de identidade não normativa. Uma das críticas que a música popular recebe é a facilidade com que a etiquetamos. Quando Monáe opta por uma música que mistura estilos musicais e que, aliás, é muito característico da sua arte, assume uma posição desestabilizadora que pode ser interpretado por alguns como uma ‘música popular queer’. 

Mas vejamos alguns aspetos específicos que nos transportam para o campo da sexualidade e do género. Duas ocasiões evidentes são quando Monáe canta “is it a freak that I love watching Mary?”, ao que as outras cantoras respondem com alguma surpresa “maybe”; e quando canta “say is it weird to like the way she wears her tights?” e as backvocalists respondem “but I like it”. Ao levantar a suspeita sobre a sua não-heterossexualidade, coloca o dedo na ferida e abre o debate. Evidentemente, isto relaciona-se com a personificação de uma androide como crítica social. Monáe canta: “Will he [god] approve the way I’m made? / Or should I reprogram the programming and get down?”. Por um lado, o conceito de performatividade é colocado em evidência, associando o processo de transformação de um humano à reprogramação de uma máquina. Por outro, é a palavra ‘aprovação’ que torna a questão problemática, porque a identidade não tem de ser aceite por ninguém. Curiosamente, o ambiente sonoro é muito claro na forma como parece zombar destas questões. O teclista não está a tocar uma bela melodia eletrónica, mas antes a produzir uns fragmentos musicais que, na sua tendência oscilatória e vibrante, quase parecem estar a rir (metaforicamente falando). Sou incapaz de ouvir todas estas frases de Monáe e olhar para a maneira com a cantora abre os olhos, faz gestos dramáticos e dança de modo caótico e jocoso, sem achar que ela está empenhada em confundir as audiências (poderá, neste momento, não querer assumir um lado no debate sobre o que é ‘normal’ e ‘queer’ na sociedade).  

A roupa diz-nos muito sobre a representação de género, em especial quando conjugado com uma performance de rap. O rap apresenta um maior destaque no ritmo no que na melodia, a acentuação silábica e o jogo de palavras transmitem mensagens de um modo mais claro do que em outras formas de canto onde a melodia transforma a narração. Quando Monáe faz rap, veste um smoking preto e branco, muito característico dos seus vídeos musicais no início de carreira. A estratégia da roupa, o cabelo apanhado, e um enquadramento de luzes circulares faz, na minha opinião, uma referência direta ao James Bond. Para quem viu pelo menos um filme sabe que a introdução é sempre marcada por uma cena onde Bond é observado a partir do interior de um cano de pistola. Falar de uma associação a James Bond pode trazer consigo uma masculinidade mais tóxica, é certo. Só que Monáe desafia-nos com a frase “categorize me I defy every label”. O que cada um interpreta desta sua atuação? Deixo ao vosso critério. 

A estranheza sonora de Monáe está na sua capacidade de combinar música e imagem para construir uma rede de associações muito rica (e que não esgotei, de todo, com esta análise). Quando interpreta a androide Cindi Mayweather, sabe que a sua condição de objeto é algo que tem de combater. Como expressa na música, “even if it makes others uncomfortable / I wanna love who I am”. E será que ao usar um coro está a dizer-nos que o plano divino aceita ou rejeita quem interpreta na sua vida íntima, pessoal e social? Antes do rap, Monáe diz “let’s flip it / I don’t think they understand what I am trying to say”. A mudança para o estilo de rap é a sua esperança para que a mensagem de libertação seja óbvia. Não será que este rap em particular, onde a cantora foca-se nas fraquezas dos argumentos de padronização social e da incapacidade de aceitação, é uma alusão às batalhas de rap onde se procura derrotar o adversário? Não tenho respostas, apenas estímulo a reflexão e forneço pistas para que todos possamos pensar sobre a construção desta identidade sonora. 


T5 | Ep.33 – You Belong With Me: Goucha, Gottmik, Ruby Rose e… Sócrates? Dar Voz a esQrever: Pluralidade, Diversidade e Inclusão LGBTI 🎙🏳️‍🌈

O septuagésimo primeiro segundo do Podcast Dar Voz A esQrever 🎙️ 🏳️‍🌈 é apresentado por nós, Pedro Carreira e Nuno Gonçalves. Começamos por discutir a nova protegida de Manuel Luís Goucha, a proto-facha Suzana (with a Z?) Garcia e a sua candidatura pelo PSD à Câmara Municipal da Amadora. Depois falamos de algo bom, a visibilidade de Gottmik e da sua identidade trans não binária – de RuPaul's Drag Race para o Mundo. Falamos também do bullying sofrido pela atriz lésbica Ruby Rose e do conteúdo queer da nova edição do Festival Política. No Dar Voz A… discutimos a nova gravação de Fearless de Taylor Swift e da série Gene+ation da HBO. Não há Sawyer Lê Fachos porque o bicho teve indeciso mas infelizmente não se calou. Para participarem e enviar perguntas que queiram ver respondidas no podcast contactem-nos via Twitter e Instagram (@esqrever) e para o e-mail geral@esqrever.com. E nudes já agora, prometemos responder a essas com prioridade máxima. Podem deixar-nos mensagens de voz utilizando o seguinte link, aproveitem para nos fazer questões, contar-nos experiências e histórias de embalar: https://anchor.fm/esqrever/message 🗣 – Até já unicórnios 🦄 Música por BenSound e Taylor Swift ; Jingle por Hélder Baptista  🎧 Este Podcast faz parte do movimento #LGBTPodcasters 🏳️‍🌈
  1. T5 | Ep.33 – You Belong With Me: Goucha, Gottmik, Ruby Rose e… Sócrates?
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