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COMO SE CONSTRÓI UMA IDENTIDADE SONORA? DISCUSSÃO SOBRE O VÍDEO MUSICAL SENTIENT, DE PERTURBATOR

Hoje em dia é cada vez mais frequente a representação LGBTI+ no ecrã. Talvez seja um fenómeno do nosso tempo, felizmente, mas não o é sem os seus problemas. Representar é também, não esqueçamos, fazer as vezes de, e isso não quer dizer que se apresentem as identidades de géneros e/ou de sexualidades mais positivas. O mundo da música, por ser uma arte do espetáculo, abre portas para ser queer de forma mais impactante do que em outros contextos do quotidiano. A música não é inócua nem tem vida própria, ao contrário dos muitos ciborgues que habitam a ficção científica, e cabe a quem cria o papel de usá-la para mostrar as suas visões do mundo. 

Um exemplo de um vídeo musical sem artistas queer, mas com representação LGBTI+, é SENTIENT. Surge a partir da música do DJ francês Perturbator (nome artístico de James Kent), é cantado pela Hayley Stewart e foi animado por computador pelo artista Valenberg. Todas as músicas de Perturbator fazem parte do seu universo narrativo onde constrói mundos de ficção científica que pretendem mostrar mulheres poderosas. Perturbator veio da tradição da música metal, de onde traz um conjunto de códigos do gótico onde as mulheres são hiper-sexualizadas em ambientes de magia e tortura. Curiosamente, explicou numa entrevista que, apesar destas representações, as suas personagens são fortes e dominadoras, do tipo que atrai os homens e depois assassina-os (ou seja, uma succubus). Então e o que acontece quando na história uma mulher domina e outra é dominada? Dito por outras palavras, o que dizer de uma representação homoerótica onde o prazer feminino é apresentado segundo códigos de tortura e transformação corporal? Vamos desconstruir estes pontos para pensar sobre a construção desta identidade sonora.  

SENTIENT está no género musical synthwave, uma composição de eletrónica de dança baseada em sons e técnicas existentes na década de 1980 (os sintetizadores da altura não eram digitais e os seus timbres eram muito característicos). Importa referir que Perturbator foi um dos seus principais percussores, mas apesar da tendência para serem músicas instrumentais, esta é uma canção em verso e refrão. Como habitual neste género, a história que conta faz parte de um imaginário de ficção científica: numa sociedade futurista os androides habitam entre os humanos, um culto religioso reprograma estas entidades para dominar o mundo e é confrontado por uma mulher (androide) que se deixa seduzir. A música é cíclica e não parece refletir o desenvolvimento da história, contudo, ela é uma manifestação dos sentimentos e sensações da protagonista.

Na história, a mulher androide vai até uma igreja para confrontar o grupo de indivíduos vestidos em BDSM. Com o surgimento de uma freira que revela ser uma criatura demoníaca com a aparência de um esqueleto, a mulher deixa cair a sua pistola no chão e vê-se envolvida num ato sexual em grupo. A cantora, na primeira pessoa, assume o papel desta androide para nos dizer que sente um prazer que a invade. Na letra ouvimos a sua entrega ao desejo (“Such seductive pain”), ao olhar e ao toque (“A simple look, a tender touch?”), porque é algo que nunca consegue explicar (“I feel it now”). Em termos musicais, a voz da cantora está bastante baixa e ao mesmo nível que os outros instrumentos. Como não existe uma canção com voz e acompanhamento, o som convida-nos a acreditar que a mulher está envolvida no emaranhado da experiência. Os sintetizadores na música, à semelhança dos corpos cibernéticos na imagem, envolvem-se com as vozes para criar este espaço de transgressão, homoerótico, onde as mulheres sentem prazer. 

Só que a música conta que a mulher descobriu um defeito no seu corpo. Enquanto nos conta essa sua experiência, a imagem revela o ato de penetração, interferência na imagem e o seu corpo a ser cortado. A pele é perfurada por cabos que a transformam numa ciborgue, uma entidade que ainda preserva componentes orgânicas que a definem como mulher, mas agora com tentáculos de monstro (uma referência à literatura gótica do escritor H. P. Lovecraft). Este processo de transição e transformação corporal, fruto do ato sexual, está então a ser apresentado pelas interferências na imagem que são uma metáfora para a sua aflição e sofrimento. Transformar-se em ciborgue pode estar a conferir-lhe capacidades extraordinárias, mas a que custo? Será que não existe aqui um processo de contaminação que resulta da penetração sexual que é equiparada à de uma lâmina? Na música, desde o início e até ao fim ouvimos uma melodia de oito notas descendentes e repetidas sem modificação. Parece-me que esta automatização no plano do som faz sobressair o carácter subserviente da protagonista, porque a ausência de desenvolvimento melódico cria uma estagnação no tempo: não há passado ou futuro, apenas um presente que se repete e onde a mulher não é quem tem o controlo.  

Na minha leitura confesso ter dificuldade em notar o papel poderoso desta mulher, apesar de Perturbator tentar explicar que esse é o propósito. O som hipnótico do sintetizador, que referi sugerir uma estagnação do tempo, pode até ser o equivalente sónico do feitiço da freira que controla a protagonista. Ela tem marcadores femininos e representa a típica construção da monstruosidade e do medo do patriarcado. Importa lembrar que a construção histórica e social do fenómeno das bruxas, queimadas na fogueira, foi igualmente responsável por este medo que se expressa na “capacidade que as mulheres têm para seduzir o homem”. Neste vídeo a tentação está numa “mulher” (se considerarmos a freira como tal) para outra mulher, e isso nem sequer resolve parte do problema. Agora estamos a transportar um estigma da mulher para o contexto lésbico, o que traz outro inconveniente. Como se não bastasse ela ser uma mulher perigosa, ainda por cima é homossexual. O que isso diz às audiências sobre o que são algumas identidades queer?

No seu jogo homoerótico coloca, em certa medida, uma representatividade LGBTI+. E o que vale é termos cada vez mais uma maior diversidade e pluralidade de representações das várias letras da sigla nas artes. Na música synthwave e na ficção científica em geral, os papéis de géneros e sexualidades continuam, não obstante, muito empacotados e formatados, este é apenas um dos muitos exemplos que vos podia trazer. Talvez a arte, e a música em particular, estejam cada vez mais sencientes e sensíveis às questões LGBTI+, como a protagonista deste vídeo musical que adquire uma identidade ciborgue. Resta agora a componente do pensamento e do sentido crítico, de estar consciente do que se apresenta e representa, porque nas artes nem sempre “vale tudo”. A música não é neutra, como aliás poucas coisas na vida.

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