Alexya Salvador, a primeira pastora trans brasileira: “Todos os seres humanos têm falhas, ser trans não é uma delas”

Fotografia: Reuters/Alamy

Chamadas telefónicas desesperadas de jovens LGBTI+ que contemplam o suicídio ou das suas famílias depois de terem feito uma tentativa pontuam muitas vezes o dia de Alexya Salvador, a primeira pastora trans brasileira. Quando o fazem, ela larga tudo para conversar.

Alexya Salvador cresceu na região metropolitana de São Paulo, no seio da Igreja Católica, o único lugar onde não era agredida. Na escola o cenário era diferente e ali era discriminada e vítima de violência física por ser diferente. Naquela altura, Alexya ingressou no seminário com o objectivo de se tornar padre, mas desistiu passados quatro anos. Também dentro da igreja começou a ser vítima de violência psicológica e “espiritual”. Mais tarde, cruzou-se pela primeira vez com um grupo de drag queens e pensou: “Eu sou isso.”

A transição deu-se aos 28 anos, altura em que Alexya e o marido, Roberto, decidiram casar e encontraram na Igreja da Comunidade Metropolitana uma igreja que consentisse o casamento entre uma mulher trans e um homem cis. Nessa mesma igreja foi ordenada pastora há uma década. “Nós não somos uma igreja exclusivamente para a população LGBTI, somos a igreja de todos os excluídos”, explicou. Alexya encontrara, por fim, um lugar onde pertencia.

Como uma mulher trans, ela reconhece a angústia nas vozes de pessoas trans que a contactam e pedem ajuda. “Sinto a dor delas no meu corpo porque passei por isso”, diz. “A minha família também passou por isso.”

Como primeira pastora trans não só do Brasil, como de toda a América Latina, ela espera poder usar a sua fé para ajudar. Ela entende a luta para conciliar a religião e a identidade, especialmente no Brasil, onde o cristianismo reina e a igreja muitas vezes está longe de ser um espaço seguro para as pessoas LGBTI+.

Mas Alexya Salvador quer mudar isso. Muito antes de se tornar pastora, foi a sua fé que lhe proporcionou consolo e força. Agora, também é uma maneira de ela dar à sua comunidade o apoio de que precisa.

De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra), 175 pessoas trans foram mortas no Brasil no ano passado [.pdf], o maior número desde que a organização começou a analisar os dados. Todas eram mulheres trans e a maioria, como Alexya, era negra e pobre.

Desde que a Covid-19 chegou ao Brasil, a igreja entrou em modo online, com alguns serviços ainda prestados pessoalmente, particularmente porque muitas pessoas paroquianas vivem nas ruas ou em abrigos e dependem da igreja para necessidades básicas e para se manterem seguras. Mas aquele é o seu porto seguro, é também o seu dentro da igreja.

“O cristianismo que Jesus apresentou foi para todas as pessoas”, disse. “E fazer parte da igreja hoje, como mulher trans, é uma recuperação do espaço que sabemos que também é nosso.”


Ep. 260 – ESPECIAL Autodeterminação de género: comunidade, famílias e especialistas no Parlamento – Dar Voz a esQrever: Notícias, Cultura e Opinião LGBT 🎙🏳️‍🌈

Nos dias 22, 25 e 26 de setembro, a Assembleia da República ouviu associações, famílias, pessoas trans e especialistas no âmbito da discussão, na especialidade, de três projetos de lei sobre autodeterminação de género apresentados por Chega, PSD e CDS-PP que pretendem reverter a lei de 2018.Neste episódio especial do Podcast Dar Voz a esQrever, reunimos algumas dessas intervenções.O foco está nas vozes da comunidade, de quem trabalha diariamente no terreno, de mães e pais de jovens trans e de especialistas das áreas da sociologia, psicologia, psiquiatria, pedopsiquiatria e endocrinologia.Optámos por não incluir intervenções que reproduzam discursos LGBTIfóbicos ou coloquem em causa a dignidade e os direitos das pessoas trans. O objetivo deste episódio é dar espaço a quem vive estas realidades, acompanha pessoas e famílias ou trabalha e investiga nestas áreas. As sessões completas estão disponíveis no site do Canal Parlamento.Artigos mencionados no episódio:Lei Histórica de Autodeterminação de Género Aprovada no Parlamento PortuguêsReino Unido: suicídios entre jovens trans aumentaram durante restrições aos cuidados de saúdeRelatório Cass: Entre a evidência científica e a instrumentalização da saúde de jovens TransPSD, Chega e CDS aprovam retrocesso na autodeterminação de género: Lei atual mantém-se por agora, mas futuro é incertoAlterações de nome e género aumentam em Portugal num ano marcado pela ameaça à lei da autodeterminaçãoAté onde nos trouxe o movimento de conquista de direitos para pessoas trans?Ordem dos Médicos critica projetos da direita sobre identidade de género: “não refletem o conhecimento médico atual”ONU pede retirada de projetos do PSD, Chega e CDS que alteram lei da autodeterminação de géneroMais de 60 entidades subscrevem comunicado que denuncia retrocesso nos direitos trans e intersexo: “A nossa autonomia não é debatível”Nenhum direito vive sozinho: porque a luta LGBTQIA+ precisa de ser interseccionalCAPÍTULOSComunidade e associações00:04:18 — Jo Matos, rede ex aequo00:06:29 — Tiago Sampaio, rede ex aequo00:10:29 — António Vale, AMPLOS00:12:55 — Patrícia Almeida, AMPLOS00:17:39 — Rita Paulos, Casa Qui00:22:49 — Beatriz Flores, ILGA Portugal00:26:57 — Daniela Bento, ILGA Portugal00:30:12 — Jo Rodrigues, Anémona00:36:40 — Helder Bértolo, Opus DiversidadesEspecialistas — intervenções iniciais00:43:35 — Sandra Saleiro, socióloga e professora universitária00:52:50 — Carla Moleiro, psicóloga clínica e professora universitária01:00:13 — Zélia Figueiredo, médica psiquiatra01:07:32 — Rui Ferreira Carvalho, médico especialista em pedopsiquiatria01:15:00 — Miguel Saraiva, médico endocrinologistaEspecialistas — respostas às questões colocadas01:22:12 — Sandra Saleiro01:30:03 — Carla Moleiro01:37:38 — Zélia Figueiredo01:43:28 — Rui Ferreira Carvalho01:49:01 — Miguel Saraiva#LGBTQ #DireitosLGBTQ #DireitosTrans #Intersexo #Autodeterminação #Portugal
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