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Música como Cultura LGBTI+ e Género: “Qual a importância de artistas se assumirem enquanto membros da comunidade LGBTI+?”

O Núcleo de Estudos em Género e Música, composto por membros do Centro de Investigação de Sociologia e Estética Musical de Lisboa, realizou nos dias 8 e 9 de julho o seu terceiro encontro. No tema desta edição, “Música, Género, Política e Sociedade”, foram abordados temas diversificados como as representações de género e sexualidade em produções audiovisuais, a construção, o apagamento e a violência contra a mulher, o papel das compositoras na música eletrónica e o impacto da cultura queer do ballroom nas indústrias e na sociedade. Para fechar os dois dias em grande, Pedro Carreira, Nuno Gonçalves e André Malhado, membros do esQrever, fizeram parte de uma conversa em torno da música como cultura LGBTI e género. Tudo ficou registado e pode ser acedido através do canal oficial que o esQrever tem na plataforma Youtube, e que divulgamos neste artigo. Deixamos-vos, no entanto, alguns excertos para que possam ter uma ideia dos tópicos abordados.    

O mote para a nossa conversa foi pensar que as músicas, as práticas e os seus intervenientes confluem a vários níveis, e em diversos contextos, com as problemáticas de representação, performance e dos papéis sociais que dizem respeito à comunidade LGBTI+. Com esta conversa trouxemos o que muitas vezes permanece inaudível, e fornecemos as nossas perspetivas e experiências, além de casos concretos, que enriqueceram um debate convergente entre músicas, sexualidades e géneros. Como sabemos, “o esQrever é uma coisa que não se define, não tem uma definição, é definido pelo conjunto das vozes e das pessoas que partilham. O esQrever vai-se transformando à medida que as pessoas vão entrando e vão saindo, e que vão por lá passando. É toda aquela ideia de uma performance, da identidade enquanto performance, que é muito importante quando falamos de género e de sexualidade, e também é muito interessante podermos passar isso para o próprio projeto”. (André) 

Qual é a importância no mundo da música de artistas se assumirem enquanto membros da comunidade LGBTI+? 

Existe uma maior liberdade criativa quando a pessoa é livre, quando a pessoa pode dizer quem é e partilhar com o mundo quem é” (Pedro Carreira). “É importante existirem exemplos de pessoas que se assumam, em todas as letras da sigla e em todas as áreas, para que se rompa com estigmas e estereótipos sobre o que estas pessoas são ou como se comportam” (Nuno). Contudo, no que toca à música, “se estamos do lado do espetáculo, será que ele está a representar ser queer ou será que ele é queer” (André) é uma questão que continua a pairar no nosso horizonte, em especial porque muitos artistas que não pertencem à comunidade também aderem a um conjunto de códigos queer nas suas músicas. 

Será que é necessário separarmos as categorias entre uma arte que é e uma arte que não é LGBTI+? Não estamos a forçar uma separação que leva a que as pessoas achem que existem diferenças? 

É importante haver uma identificação na música que ouvimos. À partida podemos ter uma maior partilha de experiências. […] Importa que estas pessoas se sintam representadas.” (Pedro) “Eu acho que acaba por ser um bocadinho mais a própria apresentação e a mensagem que vem por trás, do que propriamente a música em si ser completamente diferente. É uma questão de afirmação.” (Nuno)  

Ao pensarmos nas divisões entre uma arte que é ou não queer, há que pensar nos conteúdos, valores e mensagens que são usadas, por quem e com que objetivos. 

Nesse sentido, é relevante pensar se obras como a série Pose revelam ou não uma apropriação, que “merece sempre um contexto histórico. […] Agora, pela primeira vez, vemos um movimento de pessoas a contar as suas próprias histórias. […] [Mas] estes momentos de apropriação continuam a existir, por parte de celebridades que se continuam a aproveitar da cultura queer para se enaltecer artisticamente” (Nuno). Nas artes do espetáculo, as influências da cultura LGBTI são bem visíveis, fruto do impacto que obras como o documentário Paris is Burning teve na sociedade. “Basta ver RuPaul para ver todas as referências e mais algumas em relação ao filme e toda a música eletrónica e performance que foi buscar muito à cultura queer da altura” (Pedro).

Como são os artistas queer e as suas músicas em Portugal 

Em termos de artistas queer, Portugal ainda revela ser um contexto com uma representação escassa, o que comparando com realidades como o Brasil, “temos uma das maiores estrelas mundiais, a Pabllo Vittar que é uma drag queen brasileira que está por todo o mundo. Apesar das contradições do Brasil pois é o país que mais mata mulheres negras trans do mundo” (Nuno). “A cultura queer portuguesa é muito informada pela cultura queer brasileira. […] Somos dependentes do brasil para a própria língua portuguesa ter a sua expressão queer” (Nuno). O que nos fez questionar, porque será? “Em termos legislativos [Portugal] está muito a frente, está entre os melhores mundiais. Agora, em termos sociais e culturais, […] talvez pela história do século passado, temos uma postura ainda muito na tendência de esconder, de alguma vergonha, discreta. Se uma pessoa celebrar, gritar, ser orgulhosa, é olhada um pouco de lado” (Pedro) “é expor-se desnecessariamente” (Nuno), o que pode afetar significativamente a nossa produção musical atual.

A respeito dos processos de identificação entre ouvintes e artistas, e dos seus cruzamentos com as causas LGBTI+ e feministas.  

Ao falarmos da importância da sigla, é necessário lembrar que LGBTI “é usada em Portugal por ser específica das leis em que podemos falar destas identidades” (Pedro). Não obstante, “é importante pensarmos na comunidade como um todo, porque é um todo que assume a sua diversidade no seu interior” (André). É devido, por exemplo, à falta de identificação homossexual e bissexual no mundo da música, que “nós sempre nos virámos para as mulheres como símbolos de força e perseverança. […] O facto dessas mulheres abraçarem a causa LGBTI desde muito cedo, foi o casamento perfeito. Nós não tendo exemplos, e havendo pessoas dispostas a lutar por nós, era inevitável” (Nuno). “Partilhamos a luta base que é desconstruir o género, lutar contra essa discriminação que elas também sofrem”. Ou seja, a música torna-se, também, um canal que liga membros da comunidade LGBTI às lutas feministas. “As divas são ícones ou nós transformamo-las em ícones porque, principalmente enquanto estamos em fase de crescimento, enquanto estamos à procura da nossa identidade, foram a nossa força, a nossa inspiração” (Pedro).

A conversa foi longa e convidamos cada um a desfrutar, pensar e refletir connosco. “Cada pessoa tem direito a afirmar-se tal como é” (Pedro), quer seja artista ou ouvinte. Por isso, iremos continuar a lutar para manter as nossas vozes e músicas cada vez mais audíveis, pois elas fazem parte de quem somos e da nossa cultura. Até breve. 

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