Cristina Rodrigues: Gata escondida com rabo de fora

Cristina Rodrigues: Gata escondida com rabo de fora

Não sei se este é um caso de gata escondida com rabo de fora ou se é antes uma compra de gata por lebre, mas definitivamente aqui há gata! Falo do anúncio, confirmado pela Cristina Rodrigues, que irá trabalhar como assessora do partido Chega. Esta não deixa de ser a passagem sem retorno de uma linha vermelha e uma traição contra quem a defendeu por boa-fé. A traição maior, como contará a história, é, no entanto, à própria, porque clarificou ao que vinha e a moral e ética que vive.

A sua carreira política lançou-se quando foi cilindrada por desconhecer o programa do partido pelo qual se candidatava, o PAN, numa entrevista de 2019 que considerei violenta e cujas reações foram, na generalidade, de autêntico bullying. A inesperada eleição a deputada pareceu ser um ponto de mudança e uma segunda oportunidade para mostrar o seu valor. Seria?

Gata escondida com rabo de fora

Durou pouco a sua relação com o partido que a elegeu, tendo-se mantido como deputada não-inscrita e terá sido aí que a estratégia propagandista começou. Reinventada como feminista, aliada LGBTI e defensora dos direitos humanos e animais, Cristina ganhou visibilidade e respeito em vários fóruns sociais.

A aproximação a associações e entidades de direitos humanos foi clara. Eu próprio reuni com a então deputada e a sua equipa numa sessão online. Os projetos de lei com foco em questões LGBTI que apresentou na Assembleia da República vieram depois. Algumas delas noticiadas aqui mesmo neste espaço.

Mas o rabo de fora encontrava-se cada vez mais óbvio. Além da alimentação de algumas intrigas políticas ao longo dos tempos, surgiram zunzuns sobre movimentações de bastidores da então deputada. Afinal de contas, e tal como reportou o Polígrafo, “Rodrigues aprovou 15 iniciativas do partido de extrema-direita desde 25 de outubro de 2019. Tendo em conta que não esteve presente em todas (…), a taxa de aprovação é de 53,6%.

Aqui há gata!

Mas não é unicamente nas suas votações que Cristina Rodrigues começou a chamar a atenção para o que aí vinha. Depois de vários projetos de teor feminista e de defesa das pessoas LGBTI, anunciou, com pompa e circunstância, um projeto de lei de punição para clientes do trabalho sexual que, com a queda do Governo anterior, nunca chegou a ser discutida. Nela referenciou Pedro Vaz Patto que é contra o casamento entre pessoas do mesmo género, porque, diz num dos seus livros sobre o tema, “o país não pode andar a reboque de minorias sectárias.” Ou que, no que toca ao acesso à inseminação artificial por parte de mulheres solteiras ou em relações lésbicas, “um pai nunca é dispensável, por muito dedicadamente que a mãe cumpra a sua missão“. É este o tipo de referências que pretendeu levar ao Parlamento e elevar a discussão?

Ignora, ainda na realidade anterior, o que dizem as próprias trabalhadoras do sexo portuguesas ou trabalhadoras do sexo trans, de entre as mais discriminadas e violentadas. A sua aproximação à Liga Feminista do Porto, conhecida pelas suas posições transfóbicas, também não ajuda.

Apresenta ainda na sua proposta argumentos enviesados como os de Melissa Farley cujo trabalho tem sido contestado e que refere no projeto existirem “estudos que demonstram que 68% das pessoas na prostituição sofre de stress pós- traumático, percentagem semelhante ao das vítimas de tortura”, mas não refere que esse estudo refere-se a 130 trabalhadoras do sexo de São Francisco onde, ao contrário de Portugal, existe o Modelo Proibicionista (ou seja, onde a prostituição é ilegal e condena todas as pessoas envolvidas: prostitutas, proxenetas e clientes. Existe em países como EUA e Rússia).

Fragilidades e vieses que nunca chegaram a ser discutidos no Parlamento, mas que foram aqui notados e anotados.

Gata por lebre

“As vítimas de machismo, de homofobia ou de transfobia não perderam um apoio: hoje ficamos a saber que nunca o tiveram” – Pedro Filipe Soares.

“Portanto, os projetos de lei pelas pessoas LGBTI+ eram todos rainbowashing e táticas de aproveitamento mediático?” – Jo.

“Ir trabalhar para um partido antifeminista, racista, pró-tourada e pró-autocracia, anti estado social e pró licença para matar da polícia, que quer rasgar a constituição. Vai fundamentar juridicamente isso tudo com a alma pura, é, Cristina? Que coisa vergonhosa” – Fernanda Câncio.

Estas são apenas algumas das reações ao anúncio de Cristina Rodrigues que já teve também direito a instrumentalização por parte do partido que fez questão em anunciar a contratação da assessora, algo inédito em Portugal, mas a agenda mediática obviamente que agradece.

Não apagar, mas rasurar o passado

Como foi dito, e não podendo apagar o passado, mas podemos tomar uma posição de repúdio e de afastamento ao agora questionável trabalho da então deputada, não pelo seu conteúdo, mas pelas suas reveladas intenções e graves contradições. A sua instrumentalização, embora visível, foi assim rasurada e notada no site.

Artigo dedicado a proposta da proibição das terapias de conversão por parte da então deputada onde se pode ler agora *** Nota: Devido à integração de Cristina Rodrigues nos quadros do Partido CHEGA, rasurámos, em protesto e tomada de posição contra a instrumentalização da mesma, a parte do texto referente à antiga deputada.

Depois dos indícios encontrados, e muitos mais haverá, fica a sensação de engano e de traição. Sim, houve indícios e nos últimos largos meses começaram a surgir provas mais concretas do seu desaire. Algumas ficam aqui apresentadas.

Houve quem acreditasse, talvez inocentemente, dirão, nas boas intenções da pessoa. Há quem agora lance o fácil “é para aprenderem” ou o “não é surpresa nenhuma”, mas acreditar no melhor das pessoas não é ingenuidade. Isso é, aliás, o que as pessoas sem escrúpulos querem que pensemos. Quem está mal não é quem acredita na bondade, é quem dela se aproveita e abusa.

Da minha parte, gato escaldado me confesso, dou por terminada esta manipulação.


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