Ocupar a convenção, perverter a tradição: uma crítica musical ao álbum OCUPAÇÃO de Fado Bicha

Ocupar a convenção, perverter a tradição: uma crítica musical ao álbum OCUPAÇÃO de Fado Bicha

OCUPAÇÃO é o álbum de estreia de Fado Bicha, uma das bandas mais interessantes, polémicas e refrescantes do meio musical português atual. As artistas, Lila Fadista e João Caçador, explicam que o título tem um duplo sentido: “Por um lado, o projeto Fado Bicha simboliza a ocupação de um património ao qual as pessoas como nós acederam apenas condicionalmente ao longo do tempo ou, pelo menos, desde que há registos que permitem traçar uma história do fado. […] Por outro lado, o título reflete também a própria ideia de trabalho, de prática contínua, articulando a liberdade e a ideia de responsabilidade individual e coletiva, que é como encaramos a pesquisa e a ação artivista que subjazem ao nosso projeto.”

As 12 músicas que constituem este álbum conceptual mostram uma maturidade musical e social profundas, pela capacidade que tem de combinar estilos musicais carregados de significados culturais e ocupá-los através de posições queer, feministas, pós-coloniais, ecológicos e, diria até, pós-humanas.

A riqueza de sons, gestos e fantasias, e a elevada quantidade de orgasmosauditivos que me provocaram, mereceram a minha reflexão profunda. Neste texto, pretendo oferecer um entre muitos guias possíveis para uma escuta queer em que se destacam dimensões sonoras, culturais e sociais. Espero que possamos ocupar, em conjunto com estas maravilhosas intérpretes musicais e pensadoras do nosso tempo, múltiplos lugares reais e imaginários.

Ocupar a convenção, perverter a tradição: uma crítica musical ao álbum OCUPAÇÃO de Fado Bicha
ⓒ Daryan Dornelles

OCUPAÇÃO faixa a faixa

01 “Requiem para Valentim” – uma marcha fúnebre em que sentimos o tropo militar na bateria, os instrumentos de orquestra implementam uma solenidade em memória de uma figura queer que carece de um lugar na história;

02 “ESTOURADA” – através do estilo paso doble, uma convenção social afiliada à tourada, fazem um jogo duplo entre o touro e o veado (no sentido de animal e de homossexual). Numa tourada que se disfarça de cultura, expõem o artificio e a sua violência que serve, cantam, os propósitos de uma hegemonia patriarcal assente no “reinado/Do homem-deus sagrado”. O tema é tão tempestuoso que a música culmina numa deformação sónica, como se as palavras de protesto fossem demasiado intensas para que a canção as conseguisse conter!

03 “1997” – uma das músicas mais arrepiantes do álbum pois coloca um assunto sensível na voz de Bernardo Araújo, uma criança de 12 anos. O bullying, a violência e depressão de crianças-bicha transforma o evento histórico da morte da princesa Diana num monólogo assombroso sobre a (in)definição do género e da sexualidade. Num gesto semelhante às teorias feministas de Judith Butler, a canção fala de como o nome prescreve os corpos (uma cadela tem um nome masculino, Boy), a exigência da performatividade cisheteronormativa (porque uma criança tenta controlar a voz e as mãos para desempenhar um papel social ‘aceite’ para não ser agredida) e o problema da expressão de género (ela ainda nem sabe se é gay, “mas eles, pelos vistos, já sabem”…). A simplicidade da música torna-a ainda mais contundente, principalmente pelo eco e reverberação que a colocam num registo dúbio entre a memória, o sonho e o pesadelo.

04 “Lila Fadista” – subverte a ‘norma musical’ fadista e possibilita a existência de uma “bicha sonora” solitária nos palcos de um circuito cultural do fado.

05 “De costas voltadas” – a melancolia na guitarra do João Caçador parece chorar, tremer, duvidar e sofrer. É por isso um fado a duas vozes, de um “filho sem ser agente” que permanece “de costas voltadas do berço ao caixão”. Um tema que toca muitas pessoas LGBTI+ porque aborda a dificuldade das famílias aceitarem algumas identidades.

06 “Crónica do maxo discreto” – é muito particular porque a personagem que Lila Fadista representa é a do maxo discreto, é cantada na primeira pessoa e não assume a perspetiva do homossexual. Os ambientes sentidos vêm do punk, da eletrónica retro, as back vocals femininas situam a obra num contexto pop, Fado Bicha dizem que tem uma relação direta a António Variações. Quando ao som de match do Grindr, esse é bastante contemporâneo e traz consigo o contexto sexual da aplicação para a música. A meu ver, a posição subjetiva do macho não é inocente. Procuram fazê-lo para subverter o seu poder, mostrar que a sua forma de estar no mundo é tão construída, e eventualmente ‘patética’, como a que atribui aos corpos que afirma ‘não gostar’ mas sem os quais não consegue viver. Afirmam que com esta canção pretendem um “ato de terrorismo de género” e de incitação à duvida heterossexual, “de forma a contribuirmos para a destruição da família tradicional”, dizem também que é “brincadeira”. Será?

ⓒ Daryan Dornelles

07 “Fado do ciúme” – é uma balada de piano e orquestra. O momento mais dramático é quando, depois de um solo de piano e com vozes que ecoam perdidas no espaço, Lila surge profunda, tenebrosa e acompanhada por um órgão de tubos. Na cultura musical, o instrumento tem significados algo ambíguos, pois pode ser religiosidade e divindade, mas também o gótico, o horror e a morte, neste caso, do ciúme da relação. O eco final na voz de Lila sugere um território imaginário amplo, por momentos imaginei-a no interior de uma igreja a entoar a sua relação amorosa. A mulher de que fala, “simbolizava o fantasma da heterossexualidade ‘perdida’ com que partilhei essa relação” homossexual, explica Lila. Esse fantasma materializa-se muito bem no órgão de tubos, pelo seu simbolismo ambíguo entre o mórbido e o divino, o abjeto e o desejado.

08 “Medusa-me” – uma das canções mais complexas e interessantes do álbum. A eletrónica, algo dançável e ainda assim experimental, mais as vozes que ecoam e se sobrepõem, produzem uma ritualização hipnótica. Trypas Corassão canta e declama de modo poderoso, “eu reivindico o meu direito de ser uma monstra, nem homem, nem mulher”, uma investida de perversão de um termo historicamente ofensivo, a ‘monstra’. A ideia concretiza-se pelo mito da Medusa, que para mim sempre (re)produziu o medo patriarcal a respeito do que a mulher simboliza, um corpo sedutor hábil e assassino de homens (um perigo para as estruturas hierárquicas de poder). A monstra coloca em música a teoria feminista da quimera descrita por Donna Haraway, é uma combinação de elementos humanos e não-humanos, de marcadores diversos, de afinidade com os animais. Lila Fadista, quando emerge na canção, é enfática e possante, e contrasta com a voz de Trypas, que quando retorna é a reincarnação da mostra: a medusa que desafia o outro a usá-la. Só que a monstra assume uma posição de poder, nunca de submissão. O acompanhamento musical com um esquema rítmico simples e um pedal eletrónico (a nota musical repetida), cria um ímpeto quase automatizado, eventualmente desumanizado, que reforça as palavras de Trypas. Num gesto feminista e psicanalítico, a frase final “No fundo, no fundo/O teu pau é a cruz que carregas” comporta uma dupla mensagem. Por um lado, é o sistema patriarcal e opressor da igreja (cruz de crucifixo) e, por outro, a associação do pau (pénis) ao falo, o símbolo hierárquico do poder, da norma e da zona erógena desejada. Se há um falo este é, parece-me, subvertido de forma fantástica através das metáforas, mitologias e experiências sónicas e performativas que jogam com as políticas de género e da sexualidade.

09 “Fado Ribeiro Santos” – a ressonância simultânea entre a voz de Lila e os instrumentos musicais fundem-se numa linha melódica singular e a duas vozes, uma humana e outra não-humana, ainda que o arranjo soe a uma simulação de fado tradicional.

10 “Fogo na casa” – Um rock de celebração ao fogo do desejo e à torrente de lava no corpo. “Não tenho vergonha/Eu já não me privo”, canta Lila, é tão “bom” que a palavra contorce-se, perverte-se, torna-se a elevação do desejo até ao culminar de um orgasmo. A pausa sonora que a sucede, e indica que sim, é realmente bom “ser passivo”, torna a performance ainda mais sedutora, quase pornográfica, como se o silêncio colocasse em cena o ato sexual. Depois do solo, a música tem um breve segmento fado em que Lila aproxima-se desse estilo vocal, mas rapidamente se esgueira de regresso à sensualidade do rock. A declamação final de várias figuras, a ‘feminilidade’ de Vénus, a pureza católica e a perfeição ‘dessexualizada’ de Madalena e a ambiguidade polissémica de Shiva, é mais um encontro que causa fricção. Como explicam nas notas ao álbum, é uma música que tenciona dotar a passividade de poder. Nos estudos feministas, há quem demonstre que o falo não é sinónimo do pénis e que pode ser associado a outra zona erógena do corpo – portanto, vamos lá usar esta música para pensar se o ânus, além de ser a fonte dos tais “desejos profanos”, não pode ser esse novo falo e símbolo do poder!

11 “Fado Alice” – este fado sobre uma mulher trans vai, seguramente (e é bom sinal se o for), provocar muitos puristas. É uma música que nos fala de formas de sobrevivência de pessoas trans que contrastam com os momentos de vivacidade do instrumental. Apesar de ser uma “leoa” e “pantera” que enfrenta todas as pessoas, sofre internamente porque a sua expressão de género tem de ser doseada e relacionada com o estigma social que sofre.

12 “Povo pequenino” – uma música com elementos do folclore português (em particular da zona minhota), talvez por isso seja a que menos me cativa em todo o álbum. É uma música de intervenção ao estilo pré-25 de abril, algo próximo de Zeca Afonso, e que traça um olhar perspicaz e necessário sobre a sociedade portuguesa, os seus costumes e o que entendemos por liberdade.

Um álbum como “hino à bicha fadista desconhecida”

Para concluir, há uma dimensão arqueológica que merece ser sublinhada. Nas chaves de leitura de cada canção, Lila e João recordam o bailarino português Valentim de Barros (1916-1986) que foi vitima do discurso de poder médico que tornou a sua sexualidade uma patologia para ‘justificar’ as intervenções que sofreu. A adaptação do fado “Júlia Florista” funciona, como explicam, numa espécie de “fantasia arqueológica” para imaginar uma personagem LGBTI+ que podia ter existido e feito parte da história do Fado. É “um hino à bicha fadista desconhecida”. Mesmo que eventualmente não tenha adesão à realidade histórica do género musical, é uma ferramenta social e política forte porque abre as portas para a construção de um mito musical. Por último, a melodia do fado “Rosinha dos limões” é apropriada (Fado Bicha dizem ‘roubada’) para contar a experiência da Alice Azevedo, atriz e ativista trans. Portanto, é um álbum que ocupa múltiplos passados, presentes e futuros!

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