Carnaval de Torres Vedras recorre a sátira para ridicularizar população LGBTI+ em contexto de aumento da violência

Carnaval de Torres Vedras recorre a sátira para ridicularizar população LGBTI+ em contexto de aumento da violência

O Carnaval de Torres Vedras, conhecido pelo seu tom satírico e irreverente, surpreendeu este ano ao incluir um monumento que ridiculariza a comunidade LGBTI+, levantando questões sobre os limites do humor e o impacto de tais representações num contexto de crescente discriminação. A sátira tem sido uma característica central deste evento, sendo utilizada para desafiar normas e questionar a atualidade política e social. No entanto, há uma linha ténue entre a crítica social e a perpetuação de estereótipos, e é nesse ponto que o debate sobre este monumento se intensifica.

Representações do 25 de Abril que atacam a comunidade LGBTI+

Entre as figuras, destacam-se os capitães de Abril, como Salgueiro Maia e o general Spínola, que observam um exército de soldados queer com um olhar de reprovação. “Se o 25 de Abril fosse hoje, como é que iríamos fazer a revolução com esta tropa?“, questionam. A legenda sugere que estes heróis da democracia questionariam a capacidade de uma tropa composta por pessoas LGBTI+ em concretizar a revolução.

Lê-se: “A tropa é constituída por alguns dos vários géneros e orientações sexuais. As, es, is, os, us soldad(as)(es)(is)(os)(us) estão prontos(…) para combater, levam consigo as mais recentes tendências de look, da estética e de make up.”

Esta interpretação ignora o facto de que a luta pela democracia e pelos direitos humanos inclui todas as pessoas, independentemente da sua identidade de género e orientação sexual. A cena (na imagem acima) é acompanhada pela imagem de uma bomba das FP25, remetendo a uma ameaça violenta, o que pode ser interpretado como uma normalização do discurso de ódio e uma associação perigosa entre diversidade e instabilidade. “Lá no céu há quem possa resolver isto rapidamente com um método antigo das FP25…” 50 anos depois, o 25 de Abril ainda é visto por algumas mentes como uma “revolução [que] não foi feita para prostitutas e homossexuais“.

Novamente a questão das casas de banho inclusivas

Carnaval de Torres Vedras recorre a sátira para ridicularizar população LGBTI+ em contexto de aumento da violência (casas de banho)

Outro elemento apresenta um homem perplexo diante de uma casa de banho com múltiplos símbolos de identidade de género, insinuando que as pessoas cisgénero heterossexuais estão a perder o seu lugar na sociedade. “[A casa de banho] de hétero já não consta!” A descrição do monumento reforça esta ideia, ironizando a existência de múltiplas identidades de género e sugerindo que a evolução social é uma mera tendência passageira. “Binário, não binário, genderqueer, andrógeno, bissexual, pansexual… A lista é interminável.”

“Lá no céu há quem possa resolver isto rapidamente com um método antigo das FP25…”Traduzo:Lá no céu há quem possa resolver isto rapidamente com um método antigo, com bombas e tiros!No Monumento do Carnaval de Torres Vedras em 2025

Dário Pacheco (@dariopacheco.bsky.social) 2025-03-02T08:51:16.533Z

Este tipo de abordagem ignora o papel da inclusão e do reconhecimento da diversidade na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Em vez de promover uma reflexão genuína, perpetua o medo infundado de que a ampliação de direitos para algumas pessoas significa a perda de direitos para outras.

Como se não bastasse, a legenda reforça ainda, em estilo jocoso, que “os autores não se sentem confortáveis em continuar a escrever sobre o mesmo, temendo a própria vida, pois ainda há por aí muita PIDE“. Parecem ignorar “os autores” da perseguição que a comunidade LGBTI+ sofreu em Portugal no tempo do Estado Novo, precisamente, pela PIDE.

O impacto do humor na sociedade

A sátira tem um papel fundamental na crítica social, mas quando se foca em grupos historicamente marginalizados e reforça estereótipos prejudiciais, corre o risco de alimentar a intolerância. Num momento em que assistimos a uma escalada da perseguição contra pessoas LGBTI+ em vários países e ao crescimento de discursos de ódio, a escolha de um dos carnavais mais emblemáticos de Portugal para promover esta narrativa levanta preocupações legítimas.

Quando se brinca com figuras de poder ou com eventos históricos para expor injustiças, há um potencial pedagógico na sátira. No entanto, quando a sátira é utilizada para ridicularizar minorias que já enfrentam discriminação, a sua função enquanto ferramenta de crítica torna-se questionável.

Liberdade de expressão e responsabilidade

A liberdade de expressão deve ser defendida, mas essa liberdade vem acompanhada de responsabilidade. Humor dirigido a grupos oprimidos não é simplesmente irreverência: pode ser um reforço de preconceitos e uma normalização da discriminação.

Em sociedades democráticas, o humor e a arte têm um papel crucial no debate público, mas esse papel deve ser exercido com consciência e empatia. O Carnaval de Torres Vedras sempre se destacou pela crítica ao poder e às injustiças. Resta saber se, este ano, foi realmente isso que fez ou se, pelo contrário, acabou por contribuir para uma narrativa excludente e prejudicial.



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