25 e 26 de abril sempre, pela liberdade e pela visibilidade

Fazer abril é celebrar mas é principalmente agir. Nestes tempos únicos que vivemos de confinamento social, celebrar o 25 de abril parece-nos mais difícil, sobretudo porque uma das expressões mais fortes dessa celebração é a comunhão. Poucas sensações há semelhantes à emoção de descer a Avenida da Liberdade em conjunto, com uma multidão de pessoas de gerações diferentes, de origens distintas, prontas a unirem-se em torno desse “dia inicial inteiro e limpo” que nasceu na madrugada de 25 de abril de 1974. Celebrar a liberdade, o fim do jugo do silenciamento, da censura, da violência, da opressão, num “Portugal ressuscitado”.

Hoje, o 25 de abril de 2020, vai ser diferente. A Avenida (e as muitas avenidas que em Portugal também se descem) está vazia. Temos uma nova opressão entre nós, menos cruel mais tangível, que nos impede de estarmos juntes, dando as mãos, sorrindo, gritando em plenos pulmões, que agora poupamos com medo de uma nova escuridão. Hoje, ainda assim, temos de agir, porque é assim que se cumpre abril. Fazer o sonho, revivê-lo, escutá-lo, refundá-lo e, claro, amá-lo. Muitas vozes se juntaram para um “Grândola, Vila Morena” coletivo, às janelas ou por teleconferência, capaz de fazer ressoar as nossas mentes e corações em torno da liberdade. Muitas foram as formas alternativas para continuar a comemorar este dia, pois nele reside o sonho da liberdade em muites de nós.

Na minha idade adulta, o 25 de abril tornou-se o meu feriado preferido, mais vibrante e festivo que o Natal, fazendo do encontro das pessoas, da construção e perpetuação da memória, o seu motor vital para o futuro. Para mim e para tantas pessoas, o 25 de abril representa os ideais de liberdade e de igualdade, a capacidade de tomarmos a vida nas nossas mãos sem opressão, sem violência sobre aquilo que somos, sem injustiça e desigualdade. É por esse ideal que marcho.

Como mulher lésbica, esse dia ganha um valor ainda mais especial. Antes da revolução de abril, as mulheres tinham os seus direitos totalmente diminuídos, numa dependência direta das vontades dos pais e dos maridos, num domínio patriarcal inequívoco. Ao mesmo tempo, a invisibilidade lésbica era dominante, não havendo reconhecimento sequer dessa identidade. Com o 25 de abril, a luta pelos direitos LGBTI (apesar de nessa altura só se falar de homossexuais) viu uma oportunidade, ganhou uma esperança, embora essa tenha sido adiada também pela homofobia presente no próprio movimento revolucionário – a célebre frase “A Revolução não foi feita para prostitutas e homossexuais“, proferida por Galvão de Melo em 1974, é disso exemplo e não será esquecida. Mas a porta estava aberta e a esperança lançada para o longo caminho das pessoas LGBTI para a liberdade e a igualdade que todes desejamos e exigimos. E hoje estamos numa posição de reclamar o 25 de abril como nosso, de todas as pessoas, numa verdadeira celebração da inclusão e da diversidade.

Que o Dia Internacional da Visibilidade Lésbica seja no dia seguinte ao 25 de abril é uma coincidência feliz e merecida, tornando este fim-de-semana um marco fundamental da luta e do ativismo especialmente neste abril único de 2020.

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Imagem: Ana Serra ©

Falar de visibilidade lésbica nos dias de hoje continua a ser essencial pois, se as mulheres são ainda colocadas em segundo plano, as mulheres lésbicas e o lesbianismo continuam a ser uma realidade invisível e distante. O problema dessa invisibilidade é que não nos dá o direito de existir, não dando às mulheres lésbicas, sobretudo jovens, modelos nos quais se possam reconhecer e assim criar nelas um sentimento de orgulho e auto-estima. É certo que já trilhámos um longo caminho, não só a nível de representação em cargos políticos, no ativismo e na produção de conteúdos. Mas a luta continua.

Lésbica é uma palavra pouco dita, pouco apropriada, pouco cumprida. Demora o seu tempo a apoderarmo-nos dela. Quantas de nós não se sentem mais confortáveis em dizer-se gays, queer, homossexuais, em vez de lésbicas? Não é que haja alguma coisa de mal nessas palavras, mas essas não são exclusivas das mulheres. Nesse sentido, o uso da palavra lésbica, o seu reconhecimento, é também um ato feminista. Pois a representatividade que hoje podemos desejar começa também com a apropriação dessa palavra, pelo seu pleno empoderamento.

Durante anos, antes de sair do armário, temi a palavra lésbica. Aliás, assumi-me perante os meus pais com um simpático “sou homossexual”. Ellen DeGeneres, uma das minhas figuras lésbicas de referência, fez na altura o seu coming out com um estrondoso e polémico “I’m gay”. A palavra lésbica perdia-se e tornava-se vaga, como se perdesse o seu significado ou a sua relevância. Tive de fazer um percurso de liberdade e de auto-escuta para perceber como essa identidade era fundamental para mim e para um desenvolvimento mais pleno da minha pessoa. Sou lésbica e, quando o digo, reafirmo o meu lugar na sociedade, posiciono a minha luta, expresso a minha liberdade, dou voz a tantas outras mulheres, reclamo o meu direito a amar.

Semelhante a descer a Avenida no 25 de abril é marchar em junho pelo Orgulho. É o mesmo sentimento de comunhão e pertença, aumentada pela possibilidade de reconhecimento de pessoas pares, pessoas como eu, pessoas que reclamam também o seu direito a ser livremente. Pessoas que sabem o que é opressão desde sempre, uma opressão tantas vezes interna, que só pode ser derrubada com mais visibilidade da nossa diversidade.

Tudo isso cumpre abril, tudo isto faz abril. Um abril que luta e se rebela, que une e se supera, que nos permite ser, mostrar e viver em liberdade. Nós estamos na rua, mesmo em casa, nós cumprimos abril sendo e dando a cara. Nós, mulheres lésbicas, estamos na rua, mesmo em casa, nós, mulheres lésbicas, cumprimos abril sendo e dando a cara. Neste fim-de-semana, somos muitas, muitas, mil para continuar abril. Porque, sim, a revolução foi feita também para prostitutas e homossexuais. Não nos deixaremos apagar.


A Ana Vicente esteve à conversa no Podcast Dar Voz A esQrever 🎙🏳️‍🌈 e falou sobre a importância dos dias 25 e 26 de Abril para a população LGBTI e, em particular, a Lésbica. Oiçam:

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